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Clonagem Humana o porque das restrições

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Tanto sob o prisma científico, quanto religioso, há um quase consenso na rejeição da Clonagem Reprodutiva, minhas colocações terão como horizonte a Clonagem Terapêutica, que, por sua vez, tem como pano de fundo a louvável preocupação com as inúmeras doenças de origem genética. Uma vez esclarecido o limite de minhas colocações, irei dar apenas três passos:
o primeiro mostrando a acolhida da Igreja Católica em relação às ciências e aos avanços científicos;
o segundo, apontando o porquê de certas condenações e de certas reservas críticas relacionadas a certas posturas e a certos experimentos em seres humanos;
o terceiro passo apresentará alguns questionamentos em relação à Clonagem Terapêutica, seja a que seria obtida com células - tronco oriundas de embriões, seja a que seria obtida com células tronco adultas, ambas visando a obtenção de órgãos novos e a busca da cura de inúmeras doenças. A Igreja Católica saúda os avanços científicos e tecnológicos.

Infelizmente, e por razões históricas, há ainda certos setores da sociedade que vêm na Igreja Católica uma espécie de inimiga permanente e onipresente quando se trata de qualquer avanço científico e tecnológico. Não irei cansá-los com múltiplas e longas citações de documentos oficiais que exaltam as ciências e a tecnologia. Direi apenas que a própria compreensão dinâmica e evolutiva que temos da Criação e do ser humano, nos obriga a acolhermos com alegria os verdadeiros avanços, pois eles manifestam e exaltam a sabedoria do Criador. Certamente Deus não criou um mundo " acabado", e não nos instalou num jardim de delícias para que nós apenas usufruíssemos de tudo isto. Pelo contrário, como inúmeras passagens da Bíblia sugerem, Deus quis que o homem e a mulher fossem co-criadores, verdadeiros parceiros de uma obra grandiosa. Por isto confiou-nos a administração de todas as coisas, desde que esta seja exercida com sabedoria. Como já sugeria um grande pensador cristão do segundo século, a glória de Deus consiste em que o ser humano seja um grande administrador, colaborador criativo e não um mero executor de ordens. A frase soa assim: " a glória de Deus é que o ser humano viva e viva plenamente".

Com isto já estamos sugerindo que também a biogenética e a biotecnologia em vez de se constituírem numa espécie de afronta ao Criador, podem se constituir num maior louvor, deste que nos façam cair de joelhos diante da inefável sabedoria deste mesmo Criador, que fez o ser humano só um pouquinho menor do que os anjos. Nem o ser humano nasce harmônico e prontinho: também ele deverá organizar-se em meio a uma espécie de caos de forças contrastantes. Ademais, ainda na linha da acolhida da Igreja Católica das verdadeiras conquistas, convém ressaltar seu apoio a tudo o que se constitui em verdadeira terapia. Para convencer-nos desta sensibilidade, que herdamos do Cristo que ia ao encontro dos enfermos para curá-los, basta ouvir umas frases do Papa João Paulo II: " Uma intervenção estritamente terapêutica que se proponha como objetivo a cura de diversas doenças, como as que se devem a defeitos cromossômicos, como regra geral deve ser considerada desejável, suposto que tenda a realizar a verdadeira promoção do bem-estar pessoal do indivíduo, sem prejudicar a sua integridade ou deteriorar suas condições de vida. Uma tal intervenção, de fato, se insere na lógica da tradição da moral cristã". Mas, se é assim, porquê então os " nãos" da Igreja Católica em relação a certos processos biotecnolóligocos?
O porquê de alguns "nãos" categóricos e algumas reticências relacionadas com certos processos biotecnológicos.
A Igreja Católica sempre disse e sempre dirá não a todos os atentados contra a vida, desde o momento da fecundação até a morte. Para ela, a vida em todas as suas formas e em todas as suas etapas, é dom de Deus, e como tal deve ser respeitada. Entretanto, os "nãos" têm muitas vezes o sentido positivo, pois nos alertam para certos riscos muito presentes, justamente no campo da biotecnologia. Irei apenas acenar para alguns destes riscos.

1 Espírito de dominação em vez de reverência.

2 Redução do ser humano à sua dimensão biológica, deixando de lado todos os outros aspectos que o constituem.

3 Tentação de eugenia e mesmo de racismo.

4 Interesses escusos de empresas que só visam o lucro e que por isso logo correm para garantir seus direitos de patentes, como se o genoma e o ser humano fossem objeto de consumo.

5 Interesses ideológicos.

6 O controle e a conseqüente discriminação de inúmeras pessoas a partir do banco de dados biológicos.

E poderíamos ir enumerando muitos outros riscos. Mas prefiro deixar agora as razões de Igreja, para lembrar algumas conclusões a que chegaram alguns dos mais renomados cientistas envolvidos com o Projeto Genoma.

De fato não são poucos os cientistas que manifestam a consciência de que ao lado de pessoas competentes e preocupadas com o bem da humanidade, há outras como o italiano Antinori mais preocupadas com a auto-promoção, lançando descrédito sobre as ciências e os cientistas. Eis algumas destas conclusões:

1 O ser humano é mais complexo do que se supunha

2 As características humanas, bem como as doenças e anomalias, são resultantes não de genes determinados e isolados mas de uma infinidade de combinações e variáveis, de oásis e desertos

3 Em vista disto é preciso acabar com expectativas ingênuas de curas miraculosas de terapias genéticas. É a eterna tentação de vencer na vida sem fazer força.

4 Avançamos muito, mas ainda sabemos muito pouco sobre todo este complexo universo genético.Os genes são apenas um rascunho tosco de um ser vivo e complexo. Ou como afirma Collings, comandante do Projeto Genoma, o genoma é um texto de medicina escrito numa linguagem que ainda não deciframos totalmente. Eu diria: todo este universo dentro do qual se localiza a questão da clonagem é como um livro que ainda não foi lido porque só é encontrado numa biblioteca que ainda não foi construída. Traduzindo: a Genética, como ciência, encontra-se ainda na infância. Ademais muitos dos nosso conhecimentos nos provém de pesquisas feitas com plantas e animais.

O que dizer da clonagem denominada terapêutica?

1 Vamos partir de uma assertiva de Gríffin, do Instituto Roslin, na Escócia, onde, há cinco anos, baliu a ovelha Dolly que assustou a todos nós: "As chances de sucesso na clonagem humana são tão pequenas que é irresponsável encorajar as pessoas a acreditarem nesta possibilidade. Muito provavelmente um clone humano já traria incipientes desde o "nascimento" todas aquelas doenças degenerativas mais comuns de uma pessoa adulta: reumatismos, artrites, diabetes etc

2 A clonagem não é um capítulo à parte: ela deve ser compreendida num mundo de extraordinárias conquistas mas também de extraordinárias formas de dominação e de manipulação. A clonagem é a expressão mais perfeita de nossos sonhos prometeícos. Não nos esqueçamos da primeira tentação: "Sereis como deuses..." . E conhecemos a seqüência da primeira queda.

3 Com certeza dirão alguns: isto vale para clonagem reprodutiva e não para a clonagem terapêutica inspirada em fins tão nobres.

A observação é válida, mas só em termos, pois nos encontramos diante de uma expressão terrivelmente ambígua. Sabemos o que se esconde, por exemplo, por trás da expressão "aborto terapêutico": Para muitos justifica abortamentos injustificáveis. Assim, se por terapêuticos entendemos a necessidade de produzir ou utilizar embriões já existentes, nos deparamos, não com um conglomerado de células ou um protoplasma qualquer, mas nos deparamos com uma vida humana incipiente com tudo o que isto significa. E se trabalharmos com células-tronco extraídas do cordão umbilical ou da medula óssea, portanto de pessoas adultas, para produzir órgãos necessários para uma reposição ou a superação de certas doenças? Talvez aqui se encontre uma perspectiva que sustente nossas esperanças de sanar tantos males. Entretanto, mesmo nesta compreensão de clonagem terapêutica seria bom não nos esquecermos dos riscos acima assinalados, e acrescentar mais duas interrogações. A primeira diz respeito aos milhões de crianças e adultos que teriam tudo para viver uma vida normal, e que no entanto, por razões conhecidas, apenas vegetam, martirizados pela miséria e pela fome. E isto sem falar de que os mesmos laboratórios que geram a vida acabam promovendo terríveis engenhos de morte. A segunda: o ser humano não é uma máquina composta de peças mecânicas que possam ser substituídas a qualquer momento e numa oficina qualquer. A questão da qualidade de vida não diz respeito apenas à Genética, mas remete a todo um contexto sócio-econômico-cultural-político e religioso. Querer resolver tudo pela Genética e negligenciar os caminhos convencionais pode ser uma tentação fatal. Fazendo um paralelo a uma expressão de Jesus Cristo, poderíamos nos perguntar: De que adiantaria irmos repondo indefinidamente nossos órgãos defeituosos se não conseguirmos construir um mundo de amor e de paz?

Sei que nesta altura algumas das senhoras e dos senhores estão se sentindo confusos. Quem sabe estarão com vontade de proceder como os atenienses em relação a um certo discurso de S. Paulo: sobre isso te ouviremos outra vez. Sentir-se confuso é sentir o peso das questões e é um sinal de seriedade e de responsabilidade. Cabe ao ser humano mergulhar cada vez mais nos segredos do universo e do seu próprio ser; cabe às ciências oferecer subsídios para nos compreendermos melhor e vivermos mais humanamente; cabe aos Comitês de Ética zelar pela Humanitas, ou seja, pela humanização; cabe ao Legislativo indicar direções e estabelecer limites; cabe a nós, representantes das religiões, incentivar nesta trajetória cheia de esperanças, mas também cheia de riscos. Entretanto cabe a nós representantes das religiões, sobretudo recordar um velho ditado: Sigam em frente; mas, devagar com o andor, porque o santo é de barro.

Pronunciamento no Senado Federal / 12.06.02

 

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