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Deixemos nossas crianças crescerem e dormirem em paz

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Para a mídia no mês de abril só ocorreu um fato realmente importante: o trágico assassinato da menina Isabella. Todos os dias e o dia todo os mais diversos meios de comunicação ou iam acrescentando novos elementos que seriam capazes de iluminar os fatos, ou simplesmente iam repetindo as mesmas informações com as mesmas palavras e as mesmas imagens. Tudo isto causou uma comoção inédita no Brasil. Por isto mesmo não só o trágico fato, mas sobretudo a maneira como ele foi tratado, merecem algumas considerações.

Uma primeira consideração diz respeito ao papel da mídia. Uma segunda consideração diz respeito a um traço bem brasileiro: não basta ver sangue; é preciso degustá-lo; uma terceira aponta para os estragos causados sobre o psiquismo das crianças (medo dos pais); uma quarta aponta para a necessidade de se desenvolver um maior senso crítico. Uma quinta se confunde com uma pergunta: o que se pretendia mesmo esconder com tanto sensacionalismo ligado a um só fato?

Antes de mais nada, nem é mais possível pensar em censura. Todos conjugamos democracia e liberdade de imprensa como conquistas inegociáveis. A única dúvida que sobra é sobre o que significa informar. Há uma maneira de apresentar fatos com objetividade, e há outra maneira de apresentar de tal modo os mesmos fatos que eles são completamente distorcidos. As distorções vão por conta do sensacionalismo. A informação objetiva, em princípio será sempre ética; enquanto a informação revestida de sensacionalismo será sempre anti- ética. Claro que ninguém pensa em censura, mas não estaria mais do que na hora de se pensar mais na ética da informação?

No que se refere a uma certa sede de sangue que parece fazer parte da nossa cultura convém começar afirmando que se impõe uma releitura de nossa história: apresentá-la como pacífica é ignorar as inúmeras violências que a marcaram e continuam marcando até hoje. A sede de sangue é comprovada pelos engarrafamentos provocados por qualquer acidente, e sobretudo pela vibração dos relatos de tiroteios nos morros dos Rio de Janeiro e em outros muitos recantos do Brasil..

A terceira observação não é simples observação: é constatação. Nestes clima dramático criado em torno do caso Isabella a própria mídia se encarregou de trazer o testemunho de várias crianças, ainda bem pequeninas: elas passaram a ter medo dos seus pais.... Só querem dormir com a mãe.... Crianças de dois ou três anos já passam a vivenciar o que é apresentado, e sobretudo, a transpor para si próprias o que se diz sobre o caso Isabela. Os pais já não são mais os pais protetores, são criminosos.... E ainda mais quando eles vivem com uma madrasta.... Convenhamos que tudo isto cria um clima pouco propício ao mundo de paz que queremos oferecer para nossas crianças. Elas já não acreditam nem em Papai Noel, nem em bicho papão, mas são induzidas a acreditar que existem monstros dentro de casa...

Quarta observação: Sobretudo nas décadas de 1960 e subseqüentes, na trilha de Paulo Freire, criou-se todo um processo de conscientização. Em termos bem simples significa que não devemos ser ingênuos. Para Paulo Freire existe uma consciência ingênua, uma consciência semi – transitiva e uma consciência crítica. A primeira explica-se por si própria; a segunda sugere que há pessoas que percebem alguns lances, mas não conseguem analisar o quadro na sua totalidade. A consciência propriamente crítica, que corresponde à pessoas e sociedades maduras, pressupõe que se saiba analisar todos os ângulos de um determinado quadro. Assim, como diz o provérbio popular, quando o milagre é grande demais o santo desconfia. Da mesma forma, quando os fatos são apresentados no estilo de certas novelas, uma pessoa que desenvolveu a consciência crítica logo se faz a pergunta básica: mas para onde querem nos conduzir com tudo isto?

E aqui já se apresenta espontaneamente a quinta consideração, justamente na forma da pergunta acima: por que se deu tanta importância à tragédia da Isabella, e se ignoram tantas outras tragédias cotidianas que, de uma forma ou de outra afetam nossas crianças? Até o caso do João Hélio, o menino que há alguns meses foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro amarrado ao cinto de segurança do carro de sua mãe, nem sequer foi lembrado. É que já não responde mais a certos interesses. Daí a pergunta lógica: o que é que a cobertura sensacionalista de um fato isolado, por mais trágico que seja, está querendo empurrar para baixo do tapete? Serão certos dossiês incômodos, ou o uso indevido de certas cartões corporativos? Só Deus sabe, mas que há segundas intenções por trás de sensacionalismo tão doentio, há....

Em suma, a Isabella já está nos braços do seu verdadeiro Pai. Juntamente com tantas criancinhas assassinadas já antes de nascer, ao nascer, ou logo na primeira infância, só pedem duas coisas: que as deixem dormir em paz e que o brutal mundo dos adultos pense mais nas milhares de crianças, vítimas das mais diversas e perversas crueldades. Cabe a nós criar um mundo onde ressoe a voz de Jesus: “ Quem acolher a um destes pequeninos é a mim que os acolhe”.

 

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