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Igreja: Desafios inusitados

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Pedofilia: primeiras reações e interpretações

Introdução

Para a Igreja Católica os primeiros meses do corrente ano de 2002, mormente o mês de abril, foram terríveis. De alguma forma, eles podem ser comparados ao 11 de setembro de 2001 dos norte-americanos: criou-se uma situação muito constrangedora. É provável que estejamos diante de um exagero quando alguns analistas dizem que o escândalo sexual jamais se apagará da mente de milhões de fiéis. Segundo estes, as denúncias em série estariam provocando estragos irrecuperáveis: a face imaculada da Igreja católica estaria definitivamente marcada, como ficou marcada a face dos norte-americanos com a destruição do World Trade Center.

Entretanto, seguramente, não se constitui num exagero constatar o constrangimento do Papa e daqueles veneráveis anciãos que, no dia 23 de abril de 2002, tentavam pedir perdão ao mundo por desvios encontrados dentro de suas fileiras. Confusos, prometiam medidas concretas, mas sem saber bem por onde começar. Muitas pessoas, estarrecidas, olhavam aquelas imagens compungidas de dor. Outras, contudo, tripudiavam diante delas.

Fatos tão chocantes, que à primeira vista pouco apresentam em comum, nos levam, a um quadro um tanto confuso. O bombardeamento feito pela imprensa faz pensar que alguns aproveitam uma rara oportunidade para “lavar a alma”. A objetividade com a qual queremos abordar a questão nos obriga, a nos perguntarmos pelo que está havendo, de fato. Uma vez colhidos os fatos e as reações indignadas, a busca da verdade nos levará a ultrapassarmos o nível da indignação ética, mais do que justificada, para contextualizarmos os verdadeiros fatos. Só a contextualização, seja ao nível eclesial, seja ao nível de mundo atual, nos permitirá fazer uma leitura e uma interpretação mais adequadas do que está ocorrendo. Também é somente assim que conseguiremos entrever algumas saídas. Mas insisto em afirmar que se trata, realmente, de primeiras impressões e interpretações, com o objetivo de se constituir num possível ponto de partida para ulteriores aprofundamentos. Em questões tão delicadas, todos se sentem um tanto perdidos, sem soluções mágicas. É preciso caminhar com humildade e muito discernimento.

1. O que está havendo, de fato

Uma questão se coloca logo de início: mas afinal, o que está ocorrendo? Por que as ondas se agitam tanto em torno da barca de São Pedro, enquanto outras barcas menores parecem flutuar num mar de tranqüilidade? Uma ainda que breve pesquisa nos assegura a existência de denúncias já a partir da década de 80. Ou seja, a onda é recente, mas há um bom número de fatos já bem antigos. Ademais, talvez seja prudente não partir logo para uma negação das denúncias. Seria prudente munir-se de uma boa dose de humildade, pois, ao que tudo indica, estamos, efetivamente, andando num campo minado, bem mais vasto do que se pode pressupor à primeira vista. A arrogância poderia levar a descobertas mais desconcertantes ainda em áreas afins...


1.1. Detectando fatos? Ou lavando a alma?

As primeiras reações são sempre perigosas, tanto por parte de quem ataca, quanto por parte de quem se defende. Em ambos os casos apresenta-se logo a tentação do exagero. Assim, com certeza, a leitura da manchete da capa e de um artigo da revista Time, de 1o de abril do corrente ano de 2002, provocou reações paradoxais. Por parte dos católicos, uma mescla de vergonha, indignação e, quem sabe, em muitos casos, até uma tentativa de negação prévia dos relatos: estaríamos diante de simples calúnias; por parte dos tradicionais inimigos da Igreja, vamos encontrar uma mescla de deboche e de prazer sádico. O título de capa é muito sugestivo, sob vários prismas: “Can the Catholic Church save itself? (poderá a Igreja católica salvar-se a si própria?). A figura de um eclesiástico, naturalmente de hábito e virado de costas, já diz muito. Mas as entrelinhas da interrogação acima acrescentam uma pitada de ironia: lembra a frase do “mau” ladrão blasfemando do alto da cruz. Ainda mais que o texto propriamente dito não só apresenta casos bem documentados, como apresenta até um mapa completo destes casos em todos os EUA, e mais algumas ilustrações do que vem ocorrendo em outros países.

Da mesma forma, deve ter provocado reações contraditórias a capa da Revista Veja , do dia 24 de abril. Ali o Papa aparece encurvado, cobrindo o rosto com as duas mãos, e se defrontando com algumas frases contundentes: “O calvário da Igreja. No ocaso de seu pontificado, o papa enfrenta o problema mais doloroso de seu reinado – o escândalo dos padres pedófilos”.[1]

A enxurrada de denúncias, através de todos os meios de comunicação, facilmente leva os católicos mais identificados com sua Igreja a buscar não propriamente os fatos, mas a jogar logo a culpa sobre a imprensa. Claro que a imprensa pega episódios isolados, colocando-os na ribalta e sob a luz dos holofotes, como se estivesse enunciando uma seqüência lógica: só poderia acontecer no meio de celibatários... católicos... Ademais, a imprensa parece não distinguir muito entre casos de verdadeira pedofilia e outras manifestações de parafilia,[2] e mesmo de certas fraquezas, injustificáveis para quem abraçou o celibato, mas até certo ponto compreensíveis para o comum dos mortais. Assim, mesclam-se um “caso amoroso”, um caso de homossexualismo, uma gravidez de alguma menina que já não é mais bem menina, com pedofilia pura e simples. Anúncios de prisões, charges picantes, recordando a história do chapeuzinho vermelho e o lobo mau, são ilustradas com receitas para que os pais protejam seus filhos do assalto de pedófilos[3]. A sensação que tudo isto deixa é a de uma certa “euforia” de um lado, e um profundo pesar envergonhado do outro. Realmente o mundo já não é o mesmo: para muitos, os juízes passaram a ser objetos de julgamentos e de escárnio e a Instituição mais respeitada vem sendo acusada de hipocrisia. As conseqüências em termos vocacionais e de freqüência às igrejas, em muitos lugares já meio esvaziadas por outros motivos, são previsíveis. Entretanto, uma boa leitura do que vem sendo noticiado, pressupõe certos instrumentais e uma certa malícia. É o que encontramos num comentário feito por um conhecido jornalista[4]. Sob o sugestivo título “adeus às criancinhas”, ele começa notando que a Igreja se contorce de dor face às acusações. Com algumas frases faz uma perfeita exegese. Ressalta que crimes cometidos por alguns religiosos ganham proporções exageradas, assumindo conotações épicas, demoníacas e até pornográficas. Como conseqüência, tem-se a impressão de que se abre um abismo bem em frente à escadaria da igreja matriz. Em resumo: “reportagens equilibradas, se consideradas individualmente, estão produzindo um espetáculo enlouquecido...”[5]

Fundamentada em fragmentos de fatos, a mídia consegue atingir os subterrâneos do inconsciente coletivo, sempre insaciavelmente desejoso de escândalos, e que facilmente entra em transe. E as multidões vão saboreando, como que em versículos, os mais picantes delitos, só que agora revestidos de batina. Diante disto, continua o citado jornalista, os católicos se vêem divididos “entre o prazer pecaminoso de fantasiar cenas de sexo no confessionário e o perigo imenso de mandar os filhos para o catecismo. É o apocalipse... A Igreja Católica, já esvaziada de adultos, corre como nunca o risco de esvaziar-se de crianças”.[6] Em suma, a imprensa não cria fatos, mas abre flancos para que os interessados tirem conclusões que vão além das premissas.


1.2. Mas a história não é tão recente...

À primeira vista, de uma ora para outra, deixando de lado todos os pudores, a imprensa investiu maciçamente numa direção inusitada. Entretanto, para quem acompanha a literatura teológica e pastoral, sobretudo do mundo anglo-saxônico, o que caracteriza o momento atual é a transposição de um clima já existente no Hemisfério Norte, para o Sul; e para quem acompanha algumas das principais revistas brasileiras, o que se apresenta de novo não é o relato de fatos, nem de títulos bombásticos: a novidade está no número das reportagens e na insistência sobre alguns fatos mais escandalosos. A imprensa apenas destampou uma panela de pressão, que há muito vinha “chiando”.

Com efeito, ao menos desde o final dos anos 80, o semanário National Catholic Reporter, não apenas dava nomes, localização, mas até fotos de sacerdotes e religiosos que cometiam abusos sexuais, mormente com menores. Até alguns bispos tiveram que renunciar. Não deixa de ser curioso que estes fatos vinham ocorrendo sobretudo no mundo anglo-saxão, conhecido pela rigidez dos costumes em outras eras, e hoje conhecido pelo consumismo desenfreado, e pela desenfreada busca da própria “realização” e da própria “felicidade”, e por uma prepotência nunca vista. “Quem não está conosco, está contra nós”, brada o Presidente Bush, mostrando que para dominar é capaz de tudo. É de se perguntar se a incidência mais numerosa justamente nestas nações do Hemisfério Norte, se constitui numa mera casualidade, ou se já não é um indicador de sociedades aparentemente pujantes, mas na realidade decadentes.

Como um livro, resumo de uma tese doutoral elaborada com todo o cuidado, e recentemente publicado no Brasil, deixa bem claro, o espanto com a “explosão” de denúncias de pedofilia só existe por parte de quem não quis ou não quer ver. Pois, efetivamente, há muito sentimos um espinho na carne, com o aparecimento de uma relativamente abundante e bem fundamentada literatura em língua inglesa.[7] Nem no que se refere aos presumíveis abalos financeiros de Dioceses e Congregações, encontramo-nos diante de verdadeiras novidades. Há muito se falava em penas que se elevavam a milhões de dólares. Hoje fala-se em 1 bilhão só nos Estados Unidos e números semelhantes aparecem no contexto de outros países, como na Austrália.

Na trilha de reportagens publicadas no mundo anglo-saxônico, já desde 1988, as revistas Veja e IstoÉ vinham fazendo chamadas com títulos bem sugestivos, se não a propósito da pedofilia, ao menos a propósito de escândalos sexuais ocorrendo com o clero: “Legado de morte: aidético diz que padre o contaminou”;[8] “Sem confissão: Igreja se cala diante do escândalo de dois padres”;[9] “Dom Héber é gay: acusado de manter um caso homossexual com seu tesoureiro, abade de Olinda renuncia e foge do país”;[10] “Batina ardente: drama de sacerdote gay mantendo a sua fé”.[11] Com títulos mais ou menos parecidos, ao longo dos anos 2001 e 2002 estas mesmas revistas e todos os nossos maiores jornais noticiavam dezenas de abusos sexuais cometidos por padres contra religiosas, sobretudo na África.

É interessante recordar que, apesar do caráter sensacionalista dos periódicos acima citados, o brasileiro sempre se notabilizou por uma certa complacência, em termos de comportamentos sexuais, até mesmo com referência ao clero. Há, em não poucos lugares do Brasil, “filhos e filhas de padres”, e que se orgulham desta condição. A cultura da promiscuidade, que sempre imperou aqui, explica esta benignidade, muito anterior ao influxo maciço dos meios de comunicação social. Entretanto, como é sabido, esta mesma complacência transforma-se em sentença de morte, em nossas cadeias, quando se trata de estupro, de violação de menores, e, naturalmente, de pedofilia: o código ético dos piores marginais não admite tais transgressões. Daí se compreende a indignação de quem não se sente identificado com a Igreja.

Em tudo isto, pesa também a omissão de autoridades competentes, seja tentando encobrir o que é notório, seja omitindo o devido socorro às vítimas e a seus familiares. Como observa alguém, “nunca conseguiremos nos livrar de molestadores de crianças como Paul Shanley (um sacerdote norte-americano que acumula uma centena de processos), mas devemos nos livrar daqueles que os protegem”.[12] Não só se estabelece uma cortina de silêncio, como, em geral, se recorre ao já bem notório expediente de transferir o implicado para outra paróquia ou outra região, sem as devidas medidas cautelares. Em inquéritos referentes a este ângulo da questão, tentando compreender os porquês de omissões tão graves, e mesmo das tentativas de silenciar as vítimas mediante o pagamento de altas somas, as respostas apontam sempre para a preocupação de salvar a imagem do padre e da própria Igreja como Instituição.[13] Mas é claro que não podemos esquecer que, por vezes, o móvel é a esperança de recuperar o pecador: “Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”.



1.3. O campo minado é mais extenso do que parece à primeira vista

“Pedofilia” é mais do que uma palavra para descrever um tipo de desvio sexual. Por trás deste conceito elástico esconde-se um mundo emaranhado e sombrio, onde nos deparamos com todo tipo de má conduta e de abusos sexuais. Talvez se possa iniciar tentando definir um pouco melhor os termos “má conduta” e “abuso sexual”. A má conduta diz respeito a uma violação do ethos de uma determinada profissão (médico, psicólogo, sacerdote, etc.), mas não significa forçosamente um desvio: é o caso de uma pessoa consagrada manter uma relação sexual considerada “normal”, se casada fosse. Já o abuso traduz uma malícia maior, que implica numa verdadeira violentação, pois o agressor se prevalece de sua posição de “autoridade” para forçar uma situação. Aqui não há consentimento. É esta falta de consentimento que caracteriza a diferença fundamental com as relações ocorridas entre adultos, sejam relações hétero, sejam homossexuais. O que há é uma manifestação de poder e de dominação.[14]

Ao falarmos de abusos sexuais, estamos abrindo um capítulo sombrio e relativamente pouco estudado. Em sua maior parte, os livros que tratam da sexualidade apenas acenam nesta direção, seja por tratar-se de um capítulo pouco edificante, seja porque não dispomos ainda de elementos suficientes para uma boa análise, e, conseqüentemente, de um bom diagnóstico e pistas adequadas para enfrentar os problemas. Mas, nesta altura, os problemas têm que ser vistos com mais cuidado e, sobretudo, têm que ser enfrentados com urgência, profundidade e transparência.

Em livro recente, antes que as denúncias tivessem surgido com tanta violência, abri um item com este título: “entre patologias e desafios”.[15] De fato, nós nos encontramos diante de um vasto campo minado, onde o primeiro termo que vem à tona é exatamente o da patologia. Mas a dificuldade se encontra justamente em traçar uma linha clara entre o patológico e o normal. A normalidade também é um termo um tanto equívoco, pois existem comportamentos que podem parecer normais ou patológicos, dependendo do ângulo em que os focamos: a partir das estatísticas, a partir das antropologias, a partir das culturas, e assim por diante. Bem diz o ditado popular que de poeta e louco todo mundo tem um pouco. Mas, em meio a um emaranhado de distinções e subdistinções, talvez possamos agrupar o quadro patológico em três grandes vertentes: a das anomalias propriamente ditas; a das disfunções; a dos desvios ou perversões. As primeiras apontam mais para a anatomia; as segundas para a fisiologia; as últimas para os comportamentos, sob o prisma psicológico ou moral.

Mesmo se nos fixarmos neste último nível, o dos desvios ou perversões, somos forçados a distinguir entre desvios que apontam para o objeto, como é o caso do narcisismo (excitação por autocontemplação); da gerontofilia (prazer encontrado com pessoas idosas); da zoofilia ou bestialidade (relacionamento sexual com animais); necrofilia (relacionamento sexual com mortos); do fetichismo (satisfação sexual mediante manuseio de objetos pertencentes a uma pessoa admirada); e aqui, apontando para o objeto, é que devemos encaixar a pedofilia, a pederastia e a efebofilia, visando um prazer através do relacionamento com crianças ou com pessoas muito jovens. Convém ressalvar, contudo, que este prazer nem sempre é obtido por verdadeiros atos sexuais. “A agressão pode ser uma carícia disfarçada de inocente cócega ou mesmo alguns beijos calorosos em partes mais íntimas do corpo infantil”.[16] É verdade que devemos distinguir entre os que, ocasionalmente, manifestaram alguma fraqueza nesta linha, e os que se estruturaram nesta direção. Lá no fundo, o verdadeiro pedófilo não encontra prazer no outro, mas em si mesmo, enquanto transforma o outro em pretexto para ressaltar seu narcisismo... Como diz alguém: “o pedófilo é um narcisista. Ele não precisa de imagens eróticas para se excitar, mas se satisfaz ao se ver nelas”.[17]

Por outro lado, convém não esquecer que as informações da mídia, por serem generalizadas, atingem crianças despreparadas e as impulsionam a uma vida sexual, como se fosse adulta, fora do tempo. Com isto, nem toda menina ou menino mais crescidinhos são automaticamente inocentes: com certa facilidade podem “colaborar”. O aumento da atividade sexual infantil e juvenil parece vir da identidade com modelos do adulto. O resultado é desastroso: crianças em atividade sexual com adultos infantilizados. Assim se fecha o ciclo de cumplicidade: maldade por parte dos adultos, e uma certa cumplicidade por parte de algumas “crianças”, trabalhadas pela mídia, para despertar prematuramente para a vida sexual.

Entretanto, para situarmos melhor ainda a questão da pedofilia, convém acenar para outros desvios, desta vez oriundos do modo como se busca o prazer. É o caso do exibicionismo (dos órgãos sexuais); do voyeurismo (prazer encontrado pelo olhar de cenas amorosas); do sadismo (prazer encontrado na dor infligida a outrem); do masoquismo (prazer obtido pela dor sofrida); travestismo (prazer encontrado no vestir-se com roupas próprias do sexo oposto). E, com certeza, o que apresentamos até aqui é uma simples amostragem de um vasto campo cheio de surpresas nem sempre muito compreensíveis para as pessoas que se consideram normais.

Claro que não vem ao caso colocar em linha de tiro pessoas que tenham tendência homossexual, ou mesmo que se assumem como tais. Este seria outro importante capítulo,[18] dentro do contexto da assinalada “má conduta”. É bem mais freqüente, mesmo entre as fileiras do clero. Felizmente, mesmo misturando relatos, a imprensa brasileira não explorou, diretamente, este ângulo. A pedofilia, em si mesma, nada tem a ver com a tendência homossexual, como também nada tem a ver com a opção pelo celibato. Antes, a pedofilia remete para uma espécie de “mundo das sombras”, que aponta para as profundezas do psiquismo humano, por vezes acometido por impulsos mais ou menos incontroláveis. É mesmo difícil compreender como pessoas insuspeitas e respeitadíssimas sejam capazes de cometer tais atos. Mais difícil de se compreender ainda é que, em sua maior parte, pedófilos e pessoas que praticam outras parafilias, sejam, justamente, pessoas que construíram para si, ao longo de anos e anos, uma sólida máscara de respeitabilidade.

Ainda que nos encontremos com mais interrogações do que certezas, aos poucos se entrevêem algumas características da pedofilia e de suas origens históricas[19] e, sobretudo, de suas raízes antropológicas. De um ponto de vista histórico, é certo que no mundo greco-romano o “efebo” era iniciado sexualmente por homens mais velhos. É certo que durante a Idade Média e o Renascimento, no mundo artístico, o ideal de beleza apresentava uma dupla vertente: uma feminina e outra masculina, mas ambas apontando na mesma direção. A beleza feminina vinha pintada por meninas de cabelos louros e longos, maçãs salientes do rosto, atitude displicente. Já a beleza masculina era representada por “efebos” imberbes, com corpo e fisionomia angelicais, que mais pareciam mocinhas do que rapazes destinados a um dia se tornarem verdadeiros varões. Em tempos mais recentes convém lembrar Lewis Carroll (1862-1898), autor de Alice no País das Maravilhas (1865). Ele costumava fotografar menininhas em parques. Já Thomas Mann (1875-1955), em sua obra Morte em Veneza, não esconde sua paixão por um jovem polonês. Também não podemos esquecer o romance Lolita, do russo Vladimir Nabokov (1899-1977), que, juntamente com o termo “ninfeta”, virou sinônimo de menininha precoce em termos de vida sexual. Neste contexto não se deve esquecer Roman Polanski, célebre cineasta que teve que sair dos EUA, por haver admitido seu relacionamento sexual com uma menina de 13 anos. Finalmente, não podem ser esquecidos entre nós programas de TV que não apenas preparam “modelos” precoces, mas também acirram o erotismo infantil, despertando os impulsos pedófilos em certos adultos.

Este breve retrospecto histórico serve para mostrar não apenas a antigüidade do problema, mas também sua profundidade em termos antropológicos. Daqui a importância de saber algo mais sobre este antigo e velho fascínio do adulto para com a criança. Segundo o Manual de Diagnóstico de Doenças Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (compêndio que descreve sintomas de 340 distúrbios mentais), a pedofilia se caracteriza por “fantasias, desejos e comportamento sexual recorrente e intenso, envolvendo crianças...”[20] Nos casos mais graves, trata-se de uma verdadeira obsessão. Ao que tudo indica, 90% dos pedófilos são homens, muitas vezes casados, e que tiveram problemas sexuais na sua infância: muitos deles teriam sido vítimas do mesmo mal que cometem. Parece certo também que “a maior parte dos abusos sexuais contra menores é cometida dentro de casa. De 590 denúncias de abuso sexual recebidas pela Abrapia, organismo que se dedica à proteção das crianças e dos adolescentes, no período de 2000 a 2002, 62,76% foram protagonizadas por parentes e 79,17% ocorreram no próprio lar”.[21]

Ora, isto é muito significativo, como também é muito significativo o fato de os pedófilos não se concentrarem em determinados setores da sociedade, mas se encontrarem um pouco por toda parte. O que parece certo é que, além do já referido ambiente familiar, os casos mais freqüentes se encontram em profissões que tratam mais de perto com crianças: psicólogos, pedagogos, pediatras... e sacerdotes ou religiosos. São pessoas em quem as crianças mais confiam e, ao mesmo tempo, pessoas que, seja por função, seja pela ilusão de que nunca serão denunciadas, sentem-se mais acobertadas. Daí a pergunta se, em alguns casos, a escolha da profissão ou de um estilo de vida já não manifesta o desejo secreto de encontrar um local propício para satisfazer suas compulsões. O fato é que tanto os pedófilos, quanto outras pessoas afetadas por desvios profundos, adoram estar rodeados de crianças, sabem tratar muito bem delas, manifestam extraordinária paciência com elas, mas tudo isto com um objetivo preciso.[22]

Tendo em vista todos estes traços acima assinalados é que certas pessoas com aparência quase angélica ou de Papai Noel, podem ser classificadas como “predadoras”. Como bem descreveu Nasini, de um lado encontra-se a vítima, do outro, o predador. Este “tenciona violentar sexualmente e mantém a aparência de civilidade para encobrir o impulso irresistível de sua sensualidade”. A má conduta sexual é parte dum projeto de vida, e o “outro” é transformado em objeto para a própria satisfação. Ele toma a iniciativa e prepara o caminho, tendo bem claro na sua mente o fim do processo. É um homem “com consciência empedernida, freqüentemente moral e emocionalmente insensível..., incapaz de experimentar o sentido de culpa e remorso ou alegria e prazer”. Ele pode estar batalhando com alguma forma de dependência, pode ter sido vítima de abuso sexual, ou ter sido sujeito a prolongada desordem de personalidade, como o narcisismo ou a psicopatologia. “Diferentemente do ministro vulnerável, o ministro predador é um homem que anseia pelo poder e pela conquista sexual: é uma pessoa perigosa que fundamentalmente nega haver algo de errado nesses desejos e comportamentos...”[23] Encontramo-nos, evidentemente, diante de uma descrição perturbadora e, sobretudo, desafiadora sob o prisma moral e pastoral.

2. Os fatos devem ser assumidos, mas interpretados num contexto maior

Apesar de reportagens que remontam aos anos 80, de alguma forma, a maior parte dos católicos foi pega de surpresa por esta verdadeira onda de denúncias. E mesmo os que tinham alguma notícia, nunca poderiam imaginar as proporções dos problemas encontrados nesta área, e muito menos poderiam imaginar a perversidade que se esconde por trás de tudo isto. Como bem observou o Papa João Paulo II em sua carta aos sacerdotes na última Quinta-feira Santa do corrente ano de 2002, “... irmãos nossos atraiçoaram a graça recebida na ordenação, chegando a ceder às piores manifestações do mistério do mal que atua no mundo...”. Diante desta confissão do Papa, retomada na reunião de 23 de abril na presença de muitos prelados, ninguém mais ousaria seguir a política do avestruz, tentando negar os fatos. Infelizmente eles existem. Entretanto, a verdade nos obriga a colocá-los dentro dos vários contextos. Ou seja, impõe-se uma verdadeira hermenêutica . Trata-se, antes de mais nada, de contextualizar os números; em seguida, lembrar o clima sócio-cultural no qual vivemos; em terceiro lugar, cumpre colocar em destaque a cultura de morte na qual nos encontramos mergulhados.

1.1. Relativamente poucos, entre muitos

São simplesmente lamentáveis os casos de pedofilia denunciados recentemente pela imprensa, como são lamentáveis aqueles que não vieram a público, mas que provavelmente existem. Segundo a mesma carta do Papa, há pouco referida, estes que atraiçoaram a vocação ferem profundamente a todos e lançam sobre todos os sacerdotes uma pesada sombra. Também no dia 23 de abril, na presença dos Cardeais norte-americanos, representantes do episcopado dos EUA, e de Prelados da Cúria Romana, o mesmo Papa não usou de meias palavras: “não há lugar para a pedofilia dentro da Igreja... o abuso que causou esta crise é um erro e justamente considerado um crime pela sociedade e também um pecado terrível aos olhos de Deus”. Ou seja, não nos cabe ficar buscando desculpas para o que é indesculpável.

Entretanto, a bem da verdade, é preciso colocar o contexto imediato e o contexto mais amplo no qual estes fatos ocorreram. O contexto mais imediato é o numérico e o do lugar social onde isto ocorre. Claro que basta a existência de um único sacerdote pedófilo para que todos fiquem indignados. Mas, passada a primeira onda de indignação, fazem-se necessárias algumas ressalvas, que nos ajudam a redimensionar o problema. Em primeiro lugar, naturalmente, a pedofilia não é um fenômeno encontrado somente entre sacerdotes, religiosos e celibatários. Já vimos acima que em quase 80% dos casos tudo ocorre dentro do quadro familiar. Por vezes, o pedófilo é o pai, por vezes um irmão, por vezes algum parente próximo. Ademais, em todas as profissões e em todos os ambientes existem casos de pedofilia. O nome que, ultimamente, esteve mais em foco foi o do pediatra Eugênio Chipkevitch, mas nenhuma categoria social ousaria declarar-se totalmente imune.

Diante de tudo isto, vemos que o pecado da imprensa não consiste em haver denunciado casos de pedofilia dentro das fileiras do clero: denunciando, a imprensa até prestou um serviço. Mas existe um pecado cometido pela imprensa: é o de haver dado a impressão de que estas coisas só ocorrem dentro das fileiras do clero, e, de alguma forma, atingirem grande parte do clero. Neste sentido, se recua até os anos 60 para que o número de suspeitos possa aparecer, de fato, muito elevado. Acontece que, se tomarmos como exemplo os USA, onde, no corrente ano, houve cerca de 200 denúncias, nem sempre fundamentadas, não podemos esquecer que lá existem 46.075 sacerdotes. Isto sem contar os religiosos e religiosas, muito mais numerosos. No caso do Brasil, até agora temos 6 casos de denúncias, para um clero de 15 mil sacerdotes.

Ademais, neste contexto, é preciso não esquecer o ditado: “em tempo de guerra, os boatos são tão numerosos quanto a terra”. Nem todas as suspeitas são comprovadas. Sabidamente a infância é uma fase na qual as “lembranças” se fazem muito confusas, ocorrendo mesmo uma dificuldade de discernir entre sonho, pesadelo e realidade. Isto sem falar de pessoas que, aproveitando a onda, fazem denúncias movidas por interesses particulares: dinheiro, notoriedade, certos ressentimentos provindos de outras razões, etc. Foi o que ocorreu, por exemplo, há alguns anos atrás, contra o falecido Arcebispo de Chicago, D. Bernardin: quando acareado, o acusador se contradisse de maneira formal e cabal. Em suma, o argumento dos números e porcentagens é muito relativo, pois estamos comparando duas categorias bem diferentes: pessoas do mundo, e pessoas consagradas. Mas, de qualquer modo, há um lado verdadeiro na comparação: felizmente, trata-se de uma ínfima minoria, por mais injustificável e vergonhosa que seja a situação.

Há ainda outro equívoco levantado pela maneira como os fatos foram apresentados: estabeleceu-se uma conexão imediata entre pedofilia e celibato. Alguns aproveitaram a deixa para proclamar a necessidade da abolição do celibato. Ora, como já foi observado, a maior parte dos casos de pedofilia ocorrem dentro da própria casa e nenhuma profissão ou estado civil está imune. Isto significa que não há nenhuma conexão intrínseca entre pedofilia, ou qualquer outra patologia de ordem sexual, e celibato. Tudo depende como a pessoa elabora sua sexualidade e sua afetividade: tanto pode realizar-se, quanto frustrar-se, seja no celibato, seja no matrimônio. Tara é tara, não importa qual a condição da pessoa. Não são o celibato ou o casamento que determinam os desvios, pois os desvios são resultantes de impulsos que estão adormecidos dentro do ser humano. E dependendo de várias situações, estes impulsos vêm à tona com maior violência. O celibato, em si mesmo, não propicia, nem favorece desvios de qualquer ordem além daquilo que chamaríamos de “a condição normal do ser humano”. Quando abraçado “por causa do Reino de Deus”, o celibato é um Dom precioso que Deus confia a um certo número de homens e mulheres, para serem testemunhas de outra realidade: aquela na qual todos superaremos nossas sombras e contradições, para sermos totalmente inundados pela luz do Cristo glorioso.

Claro que devemos admitir a possibilidade de algumas pessoas buscarem na Igreja um “abrigo” contra os ataques do mal, na esperança de que, convivendo com pessoas consagradas, consigam fugir de seus impulsos malévolos. Pode-se também admitir que, em alguns casos, estas pessoas esperam encontrar numa Instituição tão sólida quanto a Igreja Católica, uma espécie de “cobertura” para seus desvios. Traduzindo: estas pessoas não lutam contra seus impulsos, mas se servem, maldosamente, de uma Instituição para poder satisfazer suas paixões. Tudo isto é lamentável, e injustificável: são manifestações patentes das forças do mal.

É evidente que a condição de celibatário apresenta certos pressupostos: que se tenha vocação e que se saiba trabalhar e canalizar as energias afetivas e sexuais. E isso é um desafio. Contudo, é preciso não esquecer que os casados enfrentam desafios semelhantes, sobretudo para manter a fidelidade e um relacionamento inspirado no amor verdadeiro e não num mero instinto biológico. Em se tratando do questionamento do celibato, não se pode perder de vista que a grande maioria dos celibatários vive em coerência com sua vocação, apesar de eventuais fragilidades. Aliás, não nos esqueçamos de Francisco de Assis e Santa Clara, dois celibatários que se tornaram modelos de integração afetiva. Portanto, a aproximação de pedofilia, parafilias e celibato, carece de fundamentos. Como, também, falar de “explosão” de pedofilia nas fileiras do clero é um exagero inadmissível. Se “explosão” existe é no superdimensionamento da mídia. Aliás, o fato de só virem à tona casos ocorridos entre sacerdotes católicos, não deixa de ser suspeito... Ou também em outras igrejas e religiões ocorrem semelhantes desvios, ou então há forças interessadas em lançar dúvidas sobre uma instituição tão consistente quanto a Igreja Católica. Provavelmente as duas suspeitas são fundadas.

1.2. Objetos de desejo em meio à tirania do prazer

Não adianta querer negar fatos. Mas vimos que a busca da verdade nos obriga a redimensionarmos o impacto causado pelas denúncias contra sacerdotes, mostrando que eles são poucos entre muitos; isto tanto no que se refere à proporção dos pedófilos em relação à absoluta maioria dos que se mantêm fiéis, quanto também em relação aos abusos ocorridos em todas as classes sociais e em todas as profissões. Para melhor entendermos a problemática e, conseqüentemente, melhor nos encaminharmos na busca de soluções, convém colocar a questão num contexto mais amplo: o de uma sociedade fascinada pelo prazer. Seria uma ingenuidade pensar que os problemas em termos de comportamentos sexuais e familiares sejam de hoje. Basta fazer uma retrospectiva histórica para se perceber a existência de períodos em que se constata um maior equilíbrio, e períodos de verdadeira decadência. Por sinal, os períodos em que o “ethos” e o “nomos” se impõem, ou seja, estabelecem uma normatividade, correspondem a períodos de maior estabilidade social. Ao contrário, os períodos de “anomia” (sem lei) correspondem a períodos de decadência, em todos os sentidos.

Ao que tudo indica, chegamos hoje ao ponto crítico contra o qual Platão alertava no Livro das Leis: o da dominação do tirano eros, que, uma vez entronizado, passa a reger, perigosamente, todos os nossos movimentos. Neste sentido, é muito significativo um livro recente, que traz exatamente este título: “a tirania do prazer”.[24] As sucessivas “revoluções sexuais” ao nível dos intelectuais, das elites e das massas atingiram um ponto alto na década de 1960, a partir de quando o prazer proibido de ontem passou a ser substituído pelo prazer obrigatório de hoje. “A inadaptação sexual passa a ser considerada como praga social... Cada um procura medir-se com as estatísticas para testar sua normalidade...: a auto-estima das pessoas é medida pela capacidade de sentir orgasmos. Os verdadeiros atletas são os atletas do orgasmo”.[25]

Em decorrência de tudo isto, após meio século da abertura de todas as comportas, incrementada por todos os meios de comunicação social, já se podem contabilizar os estragos. Uma onda de incestos, parafilias e pedofilia irrompem no seio das próprias famílias. Pais, tutores, pediatras, psiquiatras revelam-se pedófilos obsessivos; e assassinos, obedecendo a seus apetites mais selvagens, lançam-se desenfreadamente contra qualquer presa. Os assédios sexuais se multiplicam nas empresas e residências. É um vale-tudo em todos os sentidos, onde se defendem todas as formas de relação sexual: não importa com quem, nem como, nem a partir de que idade. A pedofilia e desvios semelhantes remetem para uma libertinagem permissiva e danosa em todos os sentidos. Pois quando, como em nossos dias, rompem-se todas as barreiras éticas, a sexualidade, que tanto pode ser canalizada para o bem quanto para o mal, se transforma em força perversa e destruidora. Ela se manifesta como força perversa e destruidora não só na pedofilia e em outros conhecidos desvios, mas no “sexo solto” e desenfreado que domina nossa sociedade. O “vale-tudo” sexual é denominado de “pornéia” pela Sagrada Escritura. E quem pratica a “pornéia” está trilhando o caminho da própria destruição sua e dos outros. Pois, tudo isso acirra os desequilíbrios que, de alguma forma, podem estar adormecidos dentro de cada um de nós. E o que é mais grave, como a história comprova, quando solta, a sexualidade se transforma numa verdadeira bomba social, capaz de derrubar os mais sólidos impérios.

O intenso tráfico de mulheres, e sobretudo de menores de idade, vem completar este quadro sombrio. Calcula-se que, só no Brasil, 500.000 meninas são prostituídas, sobretudo através de um bem articulado plano de “turismo sexual”. Neste particular, o Brasil só perde para a Tailândia.[26] Acresce ainda não esquecer os programas de sexo e pedofilia virtuais, através da Internet: basta acessar, por exemplo, o “teen nude”. Calcula-se que todo este comércio de prostituição infantil movimenta nada menos do que 5 bilhões de dólares por ano: é um bom dinheiro.[27]

Ora, é dentro deste contexto que as pessoas que optaram pelo celibato se encontram. A exasperação dos apelos sexuais entra por todos os canais e por todos os poros. Ainda que nada disto justifique os crimes de pedofilia, não se pode deixar de compreender que o que sempre se apresentou como uma tentação, agora se torna tentação num duplo sentido. Os sacerdotes, pela sua função e pela auréola que os cercava, sempre foram uma espécie de “objeto de desejo”, para um certo número de mulheres em condições afetivas especiais. Entretanto, hoje a mesma tentação de sempre aparece com mais uma fisionomia: a de não ser diferente de todo mundo. Não só as idéias se infiltram, como também os sentimentos mais profundos são “trabalhados” por todo um clima de liberalismo e de facilidades. Por aí já se percebe a grandeza dos desafios em termos de formação afetiva e religiosa para que os que antes eram vistos como uma espécie de anjos, hoje não passem a ser apontados como monstros.

1.3. Mergulhados num mundo de aberrações de todo tipo

O contexto de um mundo dominado pelo sexo é certamente o que incide mais diretamente sobre os comportamentos de todos. De uma forma ou de outra, todos acabam sendo contaminados pelo ar poluído que respiram. Contudo, ficar apenas neste nível seria ficar com as evidências, deixando de lado outros aspectos não menos importantes. Que a pedofilia seja uma aberração, não há dúvida. Mas também não há dúvida de que existem muitas outras aberrações que se constituem numa espécie de clima propício para o florescimento das aberrações no campo sexual. Há ao menos três eixos que alimentam este mesmo clima, e, por sinal, são três eixos fortemente implantados exatamente nas culturas onde se localizam os episódios mais chocantes de pedofilia e de outras parafilias: o primeiro é o da banalização de tudo aquilo que é mais sagrado; o segundo é o da insensibilidade em relação à miséria reinante no mundo; o terceiro é o da violência, em todas as suas formas, que impera em nossos dias.

Sabidamente uma das marcas que acompanharam a compreensão da sexualidade em tempos idos era a da sua sacralidade. É nesta linha que se entendem os mitos da fecundidade: a sexualidade é algo de tão extraordinário que não pertence aos seres criados, mas somente aos deuses. Daí o surgimento dos tabus, mitos e ritos que, no fundo, não indicavam ignorância, mas reverência diante de um grande mistério. Claro que uma certa dessacralização faz parte do legado bíblico mais original: Deus confia a administração de tudo aos seres humanos, inclusive a da sexualidade. Entretanto, aqui vai uma grande distância entre a dessacralização no sentido bíblico e a banalização que domina nossos dias. Tudo se tornou banal, desde os maravilhosos mecanismos da transmissão da vida até os gestos mais profundos de intimidade. A vida em todas as suas manifestações passou a ser dominada pela tecnologia e pelo consumismo. O sexo vem anunciado e consumido como qualquer outro produto de supermercado. É claro que este clima não propicia nem respeito, nem reverência; antes, propicia a exploração do outro naquilo que ele tem de mais pessoal e mais íntimo. Através da exploração sexual todos passam a ser explorados e exploradores. Ora, como víamos acima, esta é uma das características da pedofilia e de outras parafilias: elas não conhecem limites, nem regras de jogo. Elas se instauram como manifestações de um poder satânico, onde o mais forte domina o mais fraco.

Numa linha semelhante de raciocínio, vamos encontrar um segundo eixo que nos ajuda a perceber onde se aninham as várias parafilias: na insensibilidade manifestada perante as mais visíveis e mais cruéis amostras da miséria humana. É assim que, num mundo capaz de produzir em superabundância tudo o que é necessário não só para os atuais habitantes, mas para uma população muito maior, poucos se comovem diante de, aproximadamente, dois bilhões de pessoas que não vivem: vegetam. E se há pessoas que se comovem, as estruturas e os que as alimentam permanecem completamente insensíveis. O império da fome com todas as suas conseqüências vai manifestar-se, naturalmente, nos mais fracos, ou seja, nas crianças. E aqui aparece uma curiosa e trágica contradição: todos gritam, e com toda razão, em favor das vítimas da pedofilia. Estamos diante de males terríveis, que devem ser reparados, em todos os aspectos, ao menos na medida do possível. Entretanto, até parece que ninguém mais percebe que há milhões de crianças violentadas das mais diversas formas, morrendo de fome em nossas ruas e nas ruas de todas as cidades e em todos os campos do mundo.

Que a pedofilia seja uma aberração, e mesmo uma monstruosidade, não há dúvida; mas também não há dúvida de que assistir passivamente à morte lenta de 2 bilhões de pessoas, incluindo milhões de crianças, é também uma aberração e uma monstruosidade. Num mundo “vacinado” desta forma, nada mais surpreende: tudo é possível. A raiz comum é sempre a mesma: o narcisismo egoísta e impune de pessoas e nações que se locupletam diante da miséria dos outros. E não se pense que esta é uma abordagem derivativa: basta consultar um São João Crisóstomo ou um Santo Ambrósio ou um São Gregório de Nissa, para encontrarmos o mesmo tipo de enfoque. Para os Padres da Igreja é nesta insensibilidade que se encontra a raiz de muitos outros males, inclusive os que se localizam no campo da sexualidade. Aliás, é curiosa também a aproximação que os profetas do Antigo Testamento fazem entre não querer participar dos grandiosos projetos da Aliança, que comportava toda uma dimensão social, e a infidelidade conjugal: quem é infiel no sentido de não ter sensibilidade social, torna-se também infiel no campo da sexualidade.[28]

O terceiro eixo aprofunda os dois primeiros, mas sob outro ângulo: o da vingança, expressão máxima de um mundo desalmado. É o mundo atual, marcado por massacres, como os que ocorreram no Iraque, na antiga Iugoslávia e em tantos outros lugares. O que mais impressiona é que destes massacres participaram, unidas, nações consideradas avançadas e modelos de convivência pacífica. O exemplo mais terrível é o do que sucedeu no Afeganistão: a perseguição a uma criatura “virtual” justificou todo tipo de barbáries. A TV, evidentemente não mostra os milhares de corpos estraçalhados e milhões de pessoas andando desesperadas de um lado para outro. Também não mostra milhares de crianças que morreram, ou que ficaram órfãs. Massacres semelhantes ocorrem na terra de Jesus. Ironicamente, as tropas do mesmo povo que brada, com razão, contra o holocausto, promovem novos holocaustos, quando não pensam até em construir um novo muro da vergonha. Aqui talvez seja o caso de lembrar uma carta dirigida por Robert Bowman, bispo da United Church de Melbourne Beach, Flórida, ao Presidente Bush: “Diga-nos a verdade, Sr. Presidente... por que somos odiados?” E dá a resposta: “porque não respeitamos ninguém... De nada adianta gastarmos 270 bilhões de dólares por ano buscando mecanismos de defesa... pois o mundo vai continuar nos odiando, enquanto nós não mudarmos nossas políticas”. Carta semelhante poderá ser dirigida a outros líderes que, em pleno século 21, se gloriam e conquistam popularidade na exata medida em que promovem massacres. Para lembrar a encíclica “O Evangelho da Vida” do papa João Paulo II, é o embate da cultura da morte contra a cultura da vida. Ou, para lembrar Freud, é o embate do Thânatos contra o Eros contra a cultura da vida.

3. Há inegáveis interpelações que brotam dos escândalos

A figura de um Papa totalmente alquebrado, trêmulo dos pés à cabeça, que cobre o rosto com as duas mãos, cercado de duas dezenas de anciãos de cabelos brancos, foi maldosamente montada e explorada pela mídia. Tratava-se de sugerir uma Igreja decadente, que insiste em dar normas para todo o mundo, mas que não consegue administrar suas próprias mazelas. Claro que a primeira reação de qualquer fiel é protestar contra esta exploração. Contudo, num gesto de grandeza ímpar, talvez um dos maiores gestos de seu pontificado, o Papa não busca desculpas: condena a pedofilia como crime e como pecado, humildemente pede perdão, e convoca seus pares para buscar saídas. E é este o caminho que nos resta a fazer. Convém, inicialmente, recuperar as linhas traçadas ao final da referida reunião, bem como alguns comentários feitos pelos Cardeais norte-americanos em carta de estímulo dirigida a seus sacerdotes. Mas, a gravidade de uma situação que nos interpela a todos convida a um levantamento de possíveis causas que ultrapassam o nível pessoal, e possíveis caminhos de equacionamento que se projetem num círculo mais amplo. Finalmente, diante desta onda de indignação, talvez caibam algumas reflexões, de cunho mais ético e pastoral, referentes aos que são dados às várias manifestações patológicas.

3.1. Primeiras orientações oficiais[29]

A convocação dos 13 Cardeais norte-americanos, de representantes do episcopado americano e de membros da Cúria Romana, não deixa dúvidas de que eles ali estavam para tentar dar uma resposta ao mundo. Claro que respostas mais sólidas só serão possíveis depois de muito estudo, reflexão e oração. É sintomático que a hierarquia norte-americana tenha convocado todas as suas igrejas para um dia de jejum e oração, sugerindo que este tipo de demônio só poderá ser expulso desta forma. Mas, além disto, num Comunicado publicado pelo L’Osservatore Romano do dia 4 de maio de 2002, já são enunciados alguns princípios básicos:

- Repetindo palavras do Papa, os membros da hierarquia norte-americana reafirmam que o abuso sexual contra menores é, ao mesmo tempo, um crime e um pecado gravíssimo.

- É necessário apoiar as vítimas e seus familiares, sob todos os aspectos, mas sobretudo visando restabelecer sua fé, através de cuidados pastorais.

- Mesmo tendo muito claro que os casos de verdadeira pedofilia são relativamente poucos, e que, em muitos casos, trata-se de abuso de adolescentes, todos reconhecem a gravidade do problema.

- Reafirma-se o valor do celibato, ainda mais que não há nenhuma comprovação científica que estabeleça vínculos entre celibato e pedofilia.

- Sugerindo que por trás destes comportamentos possa haver influência de cunho liberal, em termos de princípios de moralidade, eles pedem uma séria Visita Apostólica aos seminários e às instituições de formação religiosa.

- Apesar dos aspectos deletérios de toda esta situação, acentua-se que este é também um momento de graça e conversão. E citando um pronunciamento do Papa feito no dia 27 de abril último, terminam o elenco de princípios, com esta frase: “uma grande obra de arte pode ser danificada, mas a sua beleza permanece”.

Com vistas a novos passos a serem dados a partir do Encontro que os Bispos norte-americanos terão em junho do corrente ano de 2002, os presentes se comprometeram a:

- Buscar critérios e estabelecer uma política comum para agir diante dos casos de pedofilia.

- Estabelecer um processo especial de demissão do estado clerical daqueles sacerdotes que cometeram tais crimes e, sobretudo, dos que são reincidentes.

- Estabelecer um processo especial para os casos ainda não publicamente conhecidos, mas que, a juízo do bispo diocesano, se constituem numa ameaça para as crianças.

3.2. Outros elementos de avaliação e equacionamento

Uma simples leitura destes princípios e propósitos já nos mostra que deverão surgir medidas duras e drásticas, de cunho mais prático, tanto para lidar com os sacerdotes envolvidos, quanto para prevenir casos futuros. Entretanto, conviria agora explicitar ainda algumas coordenadas que só aparecem implicitamente nos documentos acima referidos. Na medida em que as autoridades religiosas pedem uma Visita Apostólica aos seminários e às casas de formação, elas sugerem uma primeira coordenada, na direção das estruturas de formação para a vida religiosa e sacerdotal. Uma segunda coordenada é sugerida pela própria problemática de fundo: encontramo-nos diante de desequilíbrios e abusos de ordem afetiva e sexual: é nesta direção que deverão ser investidos os maiores esforços, seja em termos de uma seleção mais cuidadosa, seja em termos de um melhor acompanhamento da trajetória de cada candidato e de cada sacerdote. Tudo isto pressupõe a colaboração mais direta de pessoas especializadas nas várias ciências humanas, especialmente nas psicológicas. Uma terceira coordenada diz respeito ao como proceder em relação aos que caíram: segregá-los, suspendendo-lhes o uso de ordens? Distinguir entre os que fraquejaram e os que se apresentam como empedernidos? Conjugar o Evangelho da responsabilidade, da graça e da cruz?

3.2.1. Estruturas de formação: alguns questionamentos

Quando a imprensa aponta os “seminários” como sendo focos de desvios sexuais, certamente pensa nos denominados “seminários menores”, hoje praticamente inexistentes. Mas aqui encontra-se um primeiro grande equívoco: o de pensar que vocações denominadas de “adultas” sejam automaticamente mais maduras. Se é verdade que os seminários menores de algumas décadas atrás apresentavam algumas falhas, também é verdade que apresentavam muitas vantagens, na linha de um aprofundamento da espiritualidade, da vida de oração, do aprendizado para viver comunitariamente, do trabalho da seriedade do estudo, do espírito de luta e de perseverança e assim por diante. A conjugação oração-estudo-esporte-convívio oferecia, certamente, uma base sólida tanto para uma espécie de seleção natural, quanto para a perseverança dos que conseguiam abraçar as exigências. Claro que aquele era outro contexto, e que não se pode querer uma volta atrás. O que queremos deixar claro é que não é, forçosamente, o ambiente que determina os comportamentos. Aliás, ambiente “fechado” ou “aberto” não dizem tudo em termos de comportamento. Caso contrário, os enclausurados e as enclausuradas seriam todos “perversos”, quando se sabe que nestes estilos de vida se encontram pessoas de grandes virtudes.

As denominadas “vocações adultas”, por sua vez, trazem uma série de experiências positivas; mas seria ingenuidade pensar que também não trazem uma série de experiências negativas e até de fraquezas dificilmente superadas posteriormente. Sendo mais direto: propugnar que a melhor trajetória para o celibato seja a do filho pródigo “que gasta seus bens com prostitutas” certamente é uma pressuposição ingênua. Todos sabem que há experiências e experiências: as experiências que traduzem o império do genitalismo nunca são positivas; pelo contrário, estas experiências é que podem estar na origem de alguns casos de pedofilia, ou de outros desvios.

O problema não parece se colocar, portanto, na linha da idade na qual as pessoas ingressam para a carreira sacerdotal. Ele se coloca em outro nível, que é o das estruturas. Voltando aos seminários “menores” de décadas passadas, em sua maioria eles primavam pelo nível elevado do corpo de formadores. E muito mais, os Institutos de Teologia eram normalmente animados por sacerdotes formados nas melhores escolas teológicas do Primeiro Mundo, mormente na Europa. Ora, o que houve nestes últimos 30 anos, mais precisamente após o Concílio Vaticano II, foi uma multiplicação de Institutos, que nem sempre podem contar com boas condições em termos de professorado, em termos de formadores, em termos de bibliotecas. As conseqüências são facilmente visíveis... Aqui, certamente, encontra-se um grande problema e que obrigará a um repensamento: Será que ao menos as lideranças não deverão ser formadas em centros mais bem aparelhados?

Um desdobramento desta questão vai na linha dos teólogos, sejam eles mais pesquisadores, sejam eles mais professores. Normalmente um centro teológico contava com alguns teólogos de renome, que, além das pesquisas, davam conferências, publicavam livros e artigos. Com isto ajudavam a criar o gosto pelo estudo, pela concentração, e até mesmo por um estilo ascético de vida, que tudo isto pressupõe. Por razões diversas, muitos desses teólogos, que fizeram escola, acham-se hoje afastados do magistério. Ademais, também por razões diversas, diminuem sensivelmente as vocações teologias. Muitos possíveis candidatos a estudos superiores preferem pegar seu violão e ir direto para a pastoral.

Entretanto, se quisermos mergulhar um pouco mais profundamente no problema das estruturas formativas dos religiosos, das religiosas e dos sacerdotes, talvez devamos chegar até às Conferências, tanto de religiosos e religiosas, quanto de Bispos. Sabidamente, estas Conferências desempenharam um papel vital até décadas recentes, não só na formação do clero e dos religiosos, mas também na estruturação de uma pastoral consistente em todos os aspectos. Nas últimas décadas, por razões múltiplas, e não de todo claras, estes baluartes da espiritualidade, da teologia e da pastoral dão sinais de pouca vitalidade, por sentirem-se um tanto desarticulados, e mesmo esvaziados de sua autoridade. Exemplos deste “antes” e “depois”, onde a coragem profética deu lugar a uma certa acomodação, podem ser encontrados tanto na América do Norte, quanto na América do Sul. Os reflexos sobre o todo do projeto evangelizador são visíveis. Como também são palpáveis os reflexos sobre os formandos, nas várias etapas. Claro que nem todos os causadores de abusos e os que se portam mal no campo da sexualidade e da afetividade foram formados nos últimos 30 anos, como está pressuposto nos três ângulos que acabamos de abordar. Ou seja, há sacerdotes que quebraram suas promessas, das mais diversas formas, e foram formados "à maneira antiga", ou no período em que Teologia e Conferências estavam em alta. Isto vem ao encontro da nossa tese de que entrar adulto ou não, ser formado numa ou em outra estrutura de seminário não é decisivo para os comportamentos. Mas não levar em consideração estes fatores, seria, certamente, entrar numa trilha que o demônio aprecia: buscá-lo onde ele certamente não se encontra, e deixá-lo em paz onde ele costuma atuar. Para produzir os resultados esperados, a revisão deverá ser profunda e abrangente, tanto por parte dos formandos, quanto dos formadores, e dos que dão as coordenadas. Claro também que com todas estas considerações não estamos querendo emitir juízos, mas estamos apenas levantando algumas hipóteses, para tentarmos compreender a situação de perplexidade que estamos atravessando. O levantamento destas hipóteses só tem uma finalidade: ajudar na busca de soluções.

3.2.2. Educação para o Amor: o grande desafio

Entre os princípios traçados pelos Cardeais e Bispos que participaram da reunião extraordinária com o Papa no final de abril último há uma clara insistência na “fidelidade doutrinária”: “os Pastores da Igreja têm necessidade de promover claramente o ensinamento moral correto da igreja e repreender publicamente os indivíduos que promovem divergências e os grupos que propõem uma abordagem ambígüa dos cuidados pastorais”. Com isto, parece que a raiz dos problemas se encontraria no campo doutrinário, por sinal o que mereceu maior atenção ao longo destes últimos decênios. Claro que ninguém ousaria negar que possa haver falhas nesta linha, sobretudo naqueles países onde os problemas de desvios sexuais entre o clero se manifestaram com maior força. Contudo, não deixa de ser um tanto surpreendente o fato de não aparecer no referido Documento nenhuma alusão mais clara aos campos da sexualidade e da afetividade, onde, de modo espontâneo, o bom senso iria localizar a ferida.

Ademais, comprovadamente, os pedófilos e os que cometem abusos sexuais, sejam eles clérigos ou não, quase sempre são pessoas que “escondem” o jogo atrás da máscara da seriedade de vida e da correção em termos de idéias, sobretudo no campo sexual. Este é um mecanismo psicológico de defesa: encontrar, e até criar, inimigos, para atacá-los com veemência. Ao jogarem pedras no telhado dos outros, pensam encontrar “proteção” das respectivas autoridades. Apresentar-se como paladino de cruzadas moralizantes nem sempre é atestado de bom comportamento. Aliás, é bem significativa a percepção que Jesus revela nos Evangelhos: escribas e fariseus se apresentam como as melhores e mais ortodoxas pessoas do mundo. E, no entanto, por dentro são sepulcros caiados. Aliás, outra característica destas pessoas é levantar dúvidas, ao menos no campo das idéias, sobre quem trata de questões afetivas e sexuais. Em geral, as dúvidas são levantadas de maneira maldosa, com frases cheias de veneno, deste tipo: “nada contra a ortodoxia, mas não apresenta suficiente clareza, deixando os leitores confusos”.

Sempre com o propósito de colaborar na busca de caminhos de solução para esta grave crise, julgamos que neste momento, mais do que nunca, o que se impõe é um trabalho mais sistemático e profundo, visando a educação sexual e afetiva dos candidatos à vida religiosa e sacerdotal. Tanto na linha da seleção prévia, quanto na do acompanhamento da evolução dos candidatos, torna-se necessária a assessoria de pessoas maduras e experientes. Isto não significa dar carta branca a qualquer expert em Psicologia, uma vez que devem ser levadas em conta as muitas concepções de vida, subjacentes às várias escolas. Também não significa colocar confiança cega em qualquer tipo de teste psicológico. Tanto os experts quanto os testes devem ser “testados”, em seus pressupostos, se compatíveis ou não com uma compreensão cristã de vida e da existência de vocações especiais na Igreja. Uma vez assegurado isto, não há dúvidas de que a ajuda psicológica é de suma importância, em todas as fases da vida religiosa e sacerdotal.

A utilidade deste acompanhamento é tanto mais evidenciada, quanto se tem presente que os vocacionáveis, quando batem às portas dos conventos e seminários, não vêm revestidos de nenhuma auréola de santidade. E se o fizerem, já temos motivos suficientes para nos colocarmos algumas interrogações. Normalmente, eles vêm “contaminados” não só por idéias pouco sintonizadas com o Evangelho e com os ensinamentos da Igreja, mas, sobretudo, por práticas. Ou seja, os candidatos e candidatas já não se apresentam como aqueles filhos e filhas de colonos que pouco conheciam dos fascínios do mundo. Apresentam-se carregados de experiências, algumas certamente positivas, mas muitas certamente também negativas. Além de carregarem consigo um peso histórico de 500 anos guiados pelo provérbio de que “além dos trópicos não existe pecado”, carregam consigo todas as marcas do liberalismo e da convicção de que é preciso “fazer experiências”, em todos os campos e em todos os sentidos.

Diante disto, o que se impõe, antes de tudo, é uma espécie de terapia espiritual, não só com ritos de purificação, mas com uma reestruturação global e profunda do sentido da sexualidade. Não bastam informações, nem uma racionalização dos sentimentos. É preciso desenvolver as emoções e a afetividade. Somos seres racionais e somos seres afetivos, ao mesmo tempo. O autoconhecimento deve articular estas duas dimensões. A inadequação do comportamento humano em sua maior expressão surge do descontrole emocional. Para “seminaristas menores”, ou seja, crianças inocentes, bastava abrir-lhes os olhos; para adultos “contaminados”, impõe-se muito mais uma reestruturação da personalidade, tanto em termos de pensar, quanto em termos de ser e de agir. E, em se tratando da sexualidade, impõe-se uma dupla exigência: uma na linha de um conhecimento realmente científico da sexualidade, uma vez que o que se “conhece”, em geral, não passa de informações mais ou menos pornográficas e, sobretudo, superficiais.

A segunda exigência é ainda mais global e mais profunda: a educação para o Amor. Afinal, tanto em termos de Pastoral Familiar, quanto em termos de Pastoral Vocacional, o que urge é uma verdadeira Educação para o Amor. Claro que não é aqui o lugar de desenvolver o que, aliás, já fizemos em outro lugar.[30] Aqui neste contexto bastam algumas indicações.

O que nossa sociedade ensina é “cada um por si e Deus por todos”; “aproveite o quanto puder”; “você tem direito de ser feliz”, ou seja, de fazer o que lhe vem à cabeça. Há uma verdadeira “deformação”, em termos teóricos e práticos. Daí ser o verdadeiro desafio o de “educar”, que aponta para um processo demorado e penoso, e “para o Amor”, que se constitui numa verdadeira arte. Ninguém nasce sabendo em termos de Amor, com “A” maiúsculo. Na infância e na adolescência se aprende a “amar” com “a” pequeno. Amar com “A” grande pressupõe aprender a “dar a vida pelo outro”, a “renunciar a si mesmo”, e assim por diante. A educação para o Amor significa uma verdadeira conversão e uma verdadeira ascese. E isto não se consegue com um simples retiro, nem com bons conselhos dados por “mestres” nem sempre bem preparados. Isto tudo requer espiritualidade profunda, sim, mas também competência profissional. Educar para o Amor, no sentido de uma adequada canalização da sexualidade e da afetividade, tanto para o matrimônio, quanto para o celibato, não é brincadeira: é uma tarefa empenhativa, que conjuga trabalho, oração e competência profissional.

Neste contexto de crise e de reestruturação urgente e necessária da formação para o celibato, não podem ser esquecidos três elementos básicos: primeiro que o terror, oriundo do rigorismo, nada constrói, além de pessoas mascaradas; segundo, que o liberalismo também em nada contribui para a formação de sacerdotes, religiosos e religiosas afetivamente equilibrados; terceiro, que uma eventual “caça às bruxas” tornará pior a emenda do que o soneto. No que se refere ao rigorismo, não se pode esquecer que foi dele que, ao longo da história, brotaram as piores heresias: basta lembrar o maniqueísmo, o catarismo, o jansenismo, e outros tantos “ismos”. Jesus não foi rigorista. Rigoristas foram os fariseus e outros grupos religiosos por Ele condenados. No que tange ao liberalismo, hoje tão em voga em certos círculos, sobretudo no denominado Primeiro Mundo, comprovadamente só tem produzido escravos que escravizam, sempre através do prazer sexual ou de poder dominador. Finalmente, no que se refere à “caça às bruxas”, o perigo é que, em nome da “vigilância” repressiva, cujos frutos perversos são conhecidos de eras não muito distantes, se acabe inviabilizando a vivência do grande e único mandamento da Lei de Deus, que é o do Amor.

Uma vez mais, convém lembrar que a sexualidade não pode ser reprimida: ela deve ser sabiamente administrada, pois se constitui numa das energias mais poderosas que movimentam o ser humano. Sem uma adequada vivência da sexualidade, acompanhada do cortejo da amizade e da ternura, só poderemos esperar um mundo ainda mais desumano. O risco é que os inegáveis abusos sirvam de pretexto para o levantamento de suspeitas e até mesmo de calúnias contra tudo e contra todos. O risco no campo da afetividade é o mesmo que encontramos no campo da “política” comandada pelos EUA: sob o pretexto de eliminar o terrorismo, acaba-se com toda a humanidade. Assim, sob o pretexto de acabar com os desvios sexuais, acaba-se minando o traço mais característico do ser humano, que é a capacidade de manifestar ternura e amor, à semelhança do próprio Cristo, que teve amigos e amigas, e tanto amou o mundo que por ele deu sua própria vida. O risco é o de que, em nome da repressão aos desvios, se acabe transformando os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, não em exemplos de pessoas capazes de amar e irradiar amor, mas em seres frios, secos, insensíveis, que não sejam mais sinais de coisa nenhuma, senão de pessoas frustradas. Se não deve haver lugar para pedófilos na Igreja, também não deve haver lugar para solteirões e solteironas “nunca amados, nem nunca chorados”.


[3. Há inegáveis interpelações que brotam dos escândalos]

3.3. Como posicionar-se evangelicamente diante dos “lapsi” (caídos)

Assim como tomamos o dia 11 se setembro de 2001 como ponto de comparação para o dia 23 de abril de 2002, talvez poderemos estabelecer um novo ponto de comparação entre o momento atual e as hesitações da Igreja nos primeiros séculos, nos períodos de perseguições. Quando estas se intensificavam, aumentava o número dos “lapsi”, isto é, dos decaídos, que, covardemente, abandonavam sua fé. Daí o dilema: como proceder com eles? Admiti-los à penitência, ou entregá-los à ira de Deus? São Cipriano, por exemplo, julgava que para eles não havia mais reconciliação possível; o Papa Santo Estêvão, contudo, acentuava que para quem estivesse arrependido, sempre haveria perdão, até mesmo para os que cometiam o pior dos pecados, que era negar sua fé.

Hoje, diante da onda de denúncias de pedofilia em meio ao clero, a Igreja se sente em meio a um dilema parecido: expulsar, pura e simplesmente, os que atraiçoaram sua vocação, e isto de uma maneira vergonhosa, lançando lama sobre toda a Igreja, ou oferecer-lhes uma possibilidade de penitência? Para largos setores da imprensa, só há uma maneira de proceder: castigar e expulsar. Afinal, as massas gostam de ver sangue para se sentirem reconciliadas com seus próprios pecados. Criar monstros, para depois abatê-los, foi e continua sendo uma espécie de esporte em várias sociedades, sobretudo em seus períodos de decadência. Alguns admitem que se devam distinguir várias gradações na pedofilia e, sobretudo, distinguir entre os que caíram uma vez, quem sabe num passado distante, e os “predadores”, que só esperam uma oportunidade para fazer novas vítimas. Diante de tudo isto, parece-nos que devemos alargar a problemática, abrangendo as várias patologias e parafilias ao mesmo tempo, e isto sempre a partir do Evangelho, só que visto sob três ângulos diferentes: o Evangelho da responsabilidade, o Evangelho da graça, e o Evangelho da cruz.[31] Assim nem estaremos inocentando ninguém, nem, muito menos, condenando: estaremos indicando um caminho da graça para os pecadores, e também... para os que se julgam sem pecados...

3.3.1. O evangelho da responsabilidade

Se é verdade que a vida é bela, também é verdade que ela costuma apresentar vários pontos sombrios: desequilíbrios sexuais e afetivos, desintegração, fracassos, traumas, mecanismos de compensação, patologias, anomalias, desvios, aberrações... Diante de tudo isto nos deparamos com uma primeira tentação, que é a de considerar todas estas pessoas como simplesmente irresponsáveis de um ponto de vista moral. Claro que existem casos extremos, de pessoas que simplesmente não atinam para o que estão fazendo. Entretanto, não nos parece que, sobretudo em se tratando da pedofilia, devamos partir logo para este pressuposto. É verdade que ninguém escolheu ser portador de alguma anomalia, e muito menos escolheu o caminho da perversidade. Nós nos encontramos aqui diante de um campo minado, extremamente complexo, que exige muito discernimento.

Mas, é preciso deixar claro que existem perversões que podem ter sido “cultivadas”, como há suicídios que podem haver sido preparados por estilos de vida. Assim como no caso do suicídio o salto no abismo ou o tiro na cabeça nem sempre surgem de uma maneira totalmente inesperada, assim também a má conduta e os abusos na linha da sexualidade podem ter sido preparados... Esta história de ações e de pecados que aparecem inopinadamente, como uma espécie de ação reflexa, nem sempre está muito bem contada. O ser humano é um mistério, onde se chocam luzes e sombras, mas onde ninguém é forçado a andar sempre nas sombras. É de se notar que o mesmo Jesus que não condenou ninguém, também não inocentou ninguém. Para ele todos devem caminhar e todos devem se converter. E aqui nos deparamos com o segundo aspecto do Evangelho, que é o da graça.

3.3.2. O evangelho da graça

No auge das denúncias de pedofilia entre o clero, mormente norte-americano, percebia-se, nitidamente, uma tendência para exigir uma espécie de “linchamento”. Estes sacerdotes seriam uma espécie de monstros que deveriam, no mínimo, ser imediatamente não só suspensos do uso de ordens, como até expulsos da Igreja. Este tipo de rigorismo combina muito bem com a mentalidade norte-americana, dada a extremos de liberalismo e rigorismo ao mesmo tempo. Toda esta histeria contaminou a imprensa do mundo inteiro, inclusive a nossa brasileira. Por isto mesmo, convém introduzirmos algumas distinções.

A primeira e mais fundamental é admitir que há pedófilos e pedófilos; há patologias mais ou menos profundas; há desequilíbrios mais ou então menos acentuados. Claro que a sociedade tem que encontrar meios de neutralizar os que representam um perigo para ela, mormente um perigo para as crianças. Algumas pessoas devem ser vigiadas, e mesmo confinadas. Assim, com certeza, também alguns líderes atuais são elementos altamente perigosos para a paz do mundo, e geradores de uma multidão de órfãos. É bom lembrar que as crianças são feridas física, psíquica e espiritualmente, não só através do abuso sexual, mas também através de outros abusos provenientes de guerras de extermínio.

Uma vez admitido que se devam encontrar proceduras adequadas para reparar os males causados por estes sacerdotes e evitar males futuros, é preciso recordar um velho princípio de São Paulo: onde abunda o pecado, lá superabunda a graça. Também é preciso recordar que o Cristo não veio para os santos, mas para os pecadores; não para os sadios, mas para os doentes: “e Ele os curava a todos”. É justamente dentro deste contexto de “crimes e pecados” hediondos que convém lembrar que é Deus quem salva e cura, e que Deus só pode salvar a quem se julga perdido, como São Pedro: “Senhor, salva-nos porque perecemos”. O mundo pede vingança, a Igreja deve assumir a atitude de Cristo, justamente para seus filhos que a envergonham: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

3.3.3. O evangelho da cruz

Os dois ângulos acima enunciados não são ainda suficientes para se compreender o que significa a misericórdia divina, pois nos encontramos na pressuposição de que os pecadores em questão tenham efetivas possibilidades de superar seus crimes e pecados. Acontece que existem pessoas para as quais, humanamente falando, o retorno é quase impossível. Por isto, precisamos trazer para a luz ainda outro aspecto, que é o da Cruz. Sabidamente o Evangelho significa sempre boa notícia. Ele só se constitui em má notícia para aqueles que blasfemam contra a misericórdia de Deus para com os piores pecadores. Se não existissem estes “piores pecadores”, também a misericórdia de Deus não seria tão expressiva. Para “pecadinhos”, ela nem seria tão necessária. Contudo, por mais paradoxal que isto possa parecer, a dificuldade de aceitar a infinita misericórdia de Deus não se refere apenas aos bons. Como nos mostra a tragédia de Judas, também os próprios pecadores sentem dificuldade de aceitar esta misericórdia.

O que vale em tese para todos, vale de um modo todo especial para os portadores de verdadeiras taras, vítimas de impulsos praticamente incontroláveis. Conviver com sua própria iniqüidade é o maior desafio que a fé pode enfrentar. Desde que os portadores de taras profundas não tentem justificar-se a si mesmos, sobretudo não tentem justificar-se tentando arrastar outros para o mesmo caminho, ou então jogando pedras sobre os outros, não há dúvida de que são os sujeitos de um ângulo inusitado do Evangelho: justamente o da Cruz. As esperanças de superação de seus impulsos são pequenas, dada a profundidade do seu desequilíbrio. Ali só resta o “esperar contra toda esperança”, ou seja, confiar única e exclusivamente na misericórdia de Deus. Mas a nós, os que nos consideramos normais, cabe desvelar para estas pessoas este Evangelho pouca vezes anunciado e, no entanto, fundamental para a plenitude da mensagem e da vida que Cristo nos legou: carregue pacientemente sua cruz.

Conclusão:

Este é, sem dúvida, um momento doloroso para a Igreja. Poucas vezes na história ela se sentiu tão profundamente atingida no seu pudor quanto agora. Contudo, este não é só um momento de dor e de sofrimento purificador. É também um momento privilegiado para assumir novas atitudes e abrir novos caminhos. Se é a “verdade que nos liberta”, estamos livres da inconsciência. Sabemos dos fatos, da doença, o que nos possibilita o início de um processo para a cura. Agora que os segredos foram “proclamados sobre os telhados”, é o momento privilegiado para a busca comunitária de soluções, não só para os problemas da Igreja, mas também para os da sociedade. Como deve ter ficado claro, ao longo da nossa abordagem, uma vez destampada a panela de pressão, só nos resta irmos à luta.

Ir à luta, neste contexto, significa, em primeiro lugar, aceitar o desafio, aceitando os fatos. Ir à luta, significa também assumir atitudes concretas em relação às vítimas e seus familiares, bem como em relação aos que, comprovadamente, cometeram estes crimes e estes pecados. Em relação às vítimas e seus familiares há todo um leque de medidas reparadoras, que abrangem tanto os danos físicos, quanto os morais. Em termos genéricos esta formulação agrada a todos. Mas há implicações práticas que exigem um estudo mais aprofundado, localizado e personalizado, mas sempre com suporte psicológico e pastoral. Em relação aos acusados de pedofilia, após as devidas acareações, impõem-se igualmente algumas medidas, seja na linha corretiva, seja na linha preventiva. Além do que já foi desenvolvido acima, certamente devemos estar atentos para a diversidade de situações: umas mais graves, outras menos. De acordo com isto é que as medidas corretivas podem ir desde a suspensão do uso de ordens, até uma espécie de enclausuramento. Em todos os casos sempre se requer uma terapia, mais ou menos prolongada, como também um cuidadoso acompanhamento da evolução e dos resultados.

Mas ir à luta significa igualmente contextualizar os fatos, não se deixando contaminar pela onda tangida pelo sensacionalismo e, muito menos, pela desilusão. Ir à luta, significa não esquecer que vivemos na era do “marketing”. É preciso proclamar por sobre os telhados que, ao lado de algumas sombras, existe muita luz. Ou seja, tanto se olharmos para o passado, como se olharmos para o presente, constatamos uma presença maciça da Igreja justamente em favor daqueles que agora são objeto de preocupação. As inúmeras escolas, creches, hospitais, centros de recuperação, empenho catequético etc., são testemunhas desta luz. Neste contexto, é preciso, sobretudo, não esquecer que a Pastoral da Criança salva no Brasil, anualmente, milhares de crianças das conseqüências da miséria e da fome. Modelo para todo o mundo, esta Pastoral é apenas um exemplo daquilo que a Igreja faz em favor dos mais pequeninos, em todos os sentidos. E, finalmente, para a desilusão dos que querem “tolerância zero” e “punições radicais”, nem diante dos piores casos podemos guiar-nos pelo espírito do mundo. O mundo pede vingança; uma compreensão evangélica nos leva a abraçar a misericórdia, no sentido de que, mesmo as eventuais e necessárias punições tenham muito presente as palavras proféticas, assumidas por Cristo: “quero misericórdia e não sacrifício”.

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NOTAS - LEGENDA:

[1]. E a reportagem propriamente dita não apenas apresenta hierarcas em poses ridículas, sobretudo os que vêm revestidos de pomposos símbolos eclesiásticos (mitra, báculo e paramentos vistosos), como também uma lista dos escândalos ocorridos em uma dezena de países. Eis a lista com a descrição dos fatos mais chocantes, apresentados entre as páginas 82 e 88: 1) “Manifestação em frente à catedral de Boston exige a renúncia do cardeal Bernard Law: 30 milhões de dólares pagos às vítimas de padres pedófilos”; ao lado de uma grande foto do padre Paul Shanley sendo cumprimentado pelo cardeal Law: “Um pedófilo com bênção do cardeal. O padre Paul Shanley era conhecido nos anos 60 e 70 como o ‘padre hippie’, por desenvolver trabalhos com meninos de rua e viciados em drogas. Documentos da Arquidiocese de Boston mostram que a Igreja sabia que ele fazia proselitismo do homossexualismo e da pedofilia desde 1967...”; uma grande foto do arcebispo de Poznan, Juliusz Paetz, revestido de todas as suas insígnias e dando a bênção, vem assim ilustrada: “amigo do Papa renuncia na Polônia. Os escândalos chegaram até a Polônia, terra natal de João Paulo II.... Paetz foi assessor do papa entre 1979 e 1982”; na outra página, com o título “condenado por omissão”, vem o texto explicativo: “numa decisão inédita na França a Justiça condenou no ano passado Pierre Pican, Bispo de Bayeux, à pena de três meses de prisão por acobertar abusos de um padre pedófilo”; na página 88 duas fotos coloridas de dois bispos acusados, fecham as chamadas, mas não a reportagem: “Segredo do passado – Anthony O’Connel, bispo de Palm Beach, admitiu ter pago 125.000 dólares para calar um ex-seminarista com quem fez sexo nos anos 70. No mês passado, o caso veio à tona e ele renunciou” (convém lembrar que seu antecessor, o Bispo Simons, também renunciou pelo mesmo motivo); no outro canto: “Assédio e exorcismo – o bispo-auxiliar de Mainz, na Alemanha, Fanziskus Eisenbach, renunciou na semana passada ao se tornar pública a acusação de haver violentado uma mulher durante sessões de exorcismo”. E na página 87 é apresentado um imponente elenco, referente a outros países, como já assinalado, quase todos anglo-saxões...

[2]. O que caracteriza a parafilia é a compulsão por práticas sexuais reprovadas pela sociedade. Sendo “compulsão”, nos encontramos diante de distúrbios psíquicos, mais ou menos profundos.

[3]. Jornal da Família, O Globo 5 de maio de 2002, 1-2.

[4]. Trata-se de Eugênio Bucci, do Jornal do Brasil, de 2 de maio de 2002, Caderno B, p. 8.

[5]. Id., ibid.

[6]. Vale a pena ler, com atenção, alguns excertos da referida reportagem: “É uma voragem. O que seria apenas objeto de uma cobertura jornalística sobre crimes cometidos por religiosos ganha proporções épico-demoníaco-pornográficas: já não são simplesmente histórias de padres que agiram mal e que merecem punição; é um fenômeno que atinge dimensões monstruosamente maiores, um desmoronamento difícil de conter..., um bueiro que entra em erupção bem em frente da escada da matriz... Em resumo: reportagens equilibradas, se consideradas individualmente, estão produzindo um espetáculo enlouquecido...”. E o articulista, citando um colega de outro jornal (Bernardo Ajzenberg, “Na onda da pedofilia”, Folha de São Paulo, 28 de abril de 2002, A6), observa que a mistura de fatos de ordem diversa, está provocando uma onda que atinge as raias de uma campanha aberta contra a igreja ou alguns de seus princípios... “A mídia está em transe.... Estamos diante do irracional que se alimenta de fragmentos verídicos. Alimentada de verdades factuais, a mídia arqueia seus tentáculos em frêmitos de paixões... O que acontece é que a mídia é escrava do desejo inconsciente do sujeito contemporâneo, ou seja, do desejo inconsciente de cada um de nós... Assim como cada um dos padres pedófilos se esconde atrás de um hábito, ou de uma auto-imagem, ocultando de si mesmo suas taras abomináveis para deixá-las vazar na escuridão, a massa se esconde atrás do circo da mídia, como se fosse massa inocente, para saborear cada versículo picante dos delitos desses padres.... É isso que dá à narrativa dos escândalos sexuais dos padres o andamento de um gozo intenso. É o apocalipse... A Igreja Católica, já esvaziada de adultos, corre como nunca o risco de esvaziar-se de crianças”.

[7]. Cf. Gino NASINI, Um espinho na carne. Má conduta e abuso sexual por parte de clérigos da Igreja Católica do Brasil, 2ª ed., Santuário, Aparecida 2002, Prefácio e p. 79s. Trata-se de um livro muito ousado, pela profundeza e transparência com a qual enfrenta as questões. A tradução desta obra nem sempre é bem feita, mas as análises são muito pertinentes. Entre os livros que contêm dados e análises mais consistentes, todos citados pelo Pe. Gino Nansini, podem-se lembrar S.J. ROSSETTI, A tragic grace (Uma graça trágica), The Liturgical Press, Collegeville, Minnesota 1996; P.M.D. RUTTER, Sex in the forbidden zone (Sexo em zona proibida), Fawcett Crest Books, New York 1989; e sobretudo, o sempre citado A.W.R. SIPE, Sex priests and the power: Anatomy of a crisis (Uma anatomia da crise; o sexo no clero e o poder), Brunner/Mazel Publishers, New York 1990.

[8]. Veja, 27 de julho de 1988, 87.

[9]. Veja, 22 de fevereiro de 1989, 81.

[10]. Veja, 27 de outubro de 1993, 110-114.

[11]. Isto É, 10 de setembro de 1997, 59.

[12]. Cf. O Globo, 3 de maio de 2002, 32.

[13]. Cf. G. NASINI, op. cit., 1,19.

[14]. Cf. G. NASINI, op. cit., 83s; cf. J. CORNWELL, Quebra da fé. O papa, o povo e o destino do catolicismo, Imago, 2002, 168s.

[15]. Cf. A. MOSER, O enigma da esfinge: a sexualidade, Vozes, Petrópolis 2002, 176s.

[16]. L. SARMATZ, A inocência roubada, em: Superinteressante, maio de 2002, 40.

[17]. Cf. D. NOGUEIRA, Pedofilia. Desejo do mal, em: Caderno especial do Jornal do Brasil, Domingo 12 de maio de 2002, 23.

[18]. Cf. A. MOSER, O enigma da esfinge, op. cit., cap. 7.

[19]. Para as informações históricas que seguem, ver L. SARMATZ, Inocência roubada, op. cit., 41s, no subtítulo ”Histórias de Efebos e Ninfetas”.

[20]. Cf. D. NOGEUEIRA, op. cit., 23.

[21]. ID., ibid., 25.

[22]. ID., ibid. e 23.

[23]. G. NASINI, Um espinho na carne..., op. cit., 103-104. O autor se fundamenta e cita trechos de P. MOSGOFIAN, e G. OHLSCHALAGER, Sexual misconduct in counseling and ministry, Word, Dallas 1995, 57.

[24]. Cf. J.C. GUILLEBAUD, La tyrannie du plaisir, Deus, Paris 1998.

[25]. A. MOSER, O enigma da esfinge..., op. cit., 3ª ed., 132.

[26]. Cf. G. NASINI, op. cit., 46.

[27]. Cf. D. NOGUEIRA, op. cit., 26.

[28] Cf. A. MOSER, O pecado. Do descrédito ao aprofundamento, 2ª ed., Vozes, Petrópolis 1996, 136s.

[29]. Comunicado final da Reunião interdicasterial dos Cardeais dos EUA, em L’Osservatore Romano, n.18, 4-5-2002, p. 3.

[30]. Cf. A. MOSER, O enigma da esfinge, op. cit.

[31]. Cf. A MOSER, op. cit., 176s

Fonte: Fonte: Revista Eclesiástica Brasileira – www.itf.org.br

 

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