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Ética, valores e educação

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Freqüentemente se ouve falar hoje de crise, tendo como referência os mais diversos aspectos da vida humana. Assim, o último número da Revista Vozes, traz como título “2000: O aniversário da crise”. Não causa estranheza o fato de a ética, os valores e a educação entrarem no rol destas crises. Contudo, não deixa de ser curioso o fato de a busca das causas das crises, de um modo ou de outro, apontar sempre em três direções: ética, valores, e educação. Assim, teríamos basicamente três realidades para serem previamente iluminadas. A primeira é a da Ética; a segunda dos Valores; a terceira da Educação. Esclarecidas as três realidades básicas, convém nos determos um pouco mais para avaliarmos os porquês destas crises múltiplas e interligadas. Só então poderemos articular Ética, valores e Educação, na busca de um caminho de sabedoria de vida.
De antemão, deve-se ter claro que, justamente a proximidade de ética, valores e educação, dificulta tanto as distinções necessárias, quanto a também necessária articulação das três. Mas, de antemão, quero também deixar claro que o discurso teórico só tem razão de ser na medida em que facilita o acesso a uma prática, onde ética, valores e educação são indissociáveis. E nossa preocupação é abrir caminhos para uma prática que se articule a uma sabedoria de vida.
1. Da Ética e dos seu significado mais profundo
1.1. A partir da etimologia
Se formos à raiz semântica da nossa palavra "ética" nos deparamos com duas possibilidades de tradução da palavra ethos: escrita com a letra grega eta, significa caráter; com a letra êpsilon significa costumes, mormente bons costumes. Mas uma leitura mais acurada logo aponta para outro sentido subjacente na mentalidade grega: residência, moradia. Recolhendo estes significados etimológicos básicos se chega a perceber que o ethos aponta para um modo próprio de ser e de viver onde se "abriga" o humano.
O ethos é como que o alicerce sobre o qual se estrutura o humano. Não é, porém, algo de estático; antes é como uma fonte borbulhante que sustenta o humano e a partir da qual os seres humanos buscam sempre de novo revigorar-se. O ethos é algo de tão profundo que radica além das normas morais e até mesmo da própria diversidade das religiões. Não só toda moral e toda religião se constituem na expressão de um ethos, como até mesmo os ateus podem apresentar dimensões éticas surpreendentemente profundas. Um dos cursos mais interessantes que ministrei foi exatamente sobre a concepção ética de Marx. Todos sabem que ele se proclamava ateu; mas talvez poucas pessoas sabem que desenvolveu toda uma concepção ética de uma impressionante profundidade e coerência. O ethos é como que a marca primeira de qualquer ser humano, antes de qualquer outra marca cultural, ideológica ou religiosa, mesmo que historicamente falando o ethos nunca possa ser apreendido na sua primeira originalidade. Cultura e religião são a carne e os ossos do ethos historicamente vivido. É neste entrelaçamento de marcas originais, trabalhadas pela religião e pela cultura, que podemos apreender as aspirações profundas testadas pela experiência de um povo.
Dentro deste contexto é de se notar a reverência com a qual os gregos, os primeiros a pensarem sistematicamente seu ethos, se referiam a ele. Quando pronunciavam esta palavra o faziam sempre com uma inusitada reverência: estavam como que oferecendo a chave capaz de abrir as portas para os grandes segredos do "humanum". O ethos era entendido como o último reduto do humano, onde humano e divino se encontram. Por isto mesmo, para os pensadores gregos, não eram os costumes vigentes que julgavam o ethos, mas o ethos que julgava os costumes vigentes.
É muito significativa uma frase colocada na boca de Antígone, figura central da "tragédia" grega. Repelindo a proibição emitida por decreto do Rei Creon, de enterrar seu irmão, Antígone o recrimina com estas palavras carregadas de uma ironia eticamente interpeladora: "Não pensei que tua proibição fosse suficientemente forte para permitir que um mortal transgrida as leis não escritas, inabaláveis, dos deuses. Essas não são datáveis, nem de hoje, nem de ontem, e ninguém sabe quando apareceram..." Embora esta citação seja empregada normalmente como argumento em favor de uma lei natural estaticamente considerada, ela certamente remete também para a dynamis, a força do ethos. Para os gregos nenhum ser é capaz de revelar de imediato sua identidade mais profunda. Esta se esconde por trás de aparências enganadoras e é continuamente enriquecida. Muito menos o ser humano consegue revelar o seu verdadeiro rosto. Vivemos neste mundo como que num jogo de máscaras. Todo ser humano é um mascarado. Sua identidade só aparece quando consegue arrancar as máscaras pessoais, ideológicas e sociais.
Percebe-se assim que o ethos traduz muito mais do que um conceito. Acena para algo de mais profundo e decisivo. Com efeito, o ethos evoca "ninho", "casa", "refúgio", "identidade", "consciência", "a eterna e misteriosa morada do Ser", lá onde os seres humanos podem encontrar-se em profundidade com "O SER", e por isso, consigo mesmos.
1.2. A abrangência do ethos
Os mesmos gregos, cônscios de que a identidade humana pessoal se concretiza na polis, ou seja, no plano sócio-político, não visavam em primeiro lugar a intimidade da pessoa, mas aquilo que constitui o tecido de um povo. Ethos traduz para eles as evidências primitivas e comuns, a experiência-sabedoria de um povo, resultantes de uma prática histórica, pela qual se desvelam os valores indispensáveis para sua sobrevivência como povo. O ethos é como que uma espécie de fonte inesgotável dos valores e que um povo vai descobrindo, adquirindo e burilando, num processo sempre inacabado de aprendizagem.
O que dissemos acima não vale, evidentemente, só para os gregos, nem só para os povos "civilizados". Todo e qualquer povo vive uma experiência do ethos, preservando antigos e adquirindo novos valores.
Na medida em que estivermos atentos à abrangência do ethos, que cobre todas as áreas do existir, poderemos perceber que o ethos não incide apenas sobre as relações das pessoas consigo mesmas. Ele incide também sobre o plano interpessoal, comunitário e social. Incide ainda sobre as relações dos seres humanos com os demais seres. É assim que se compreende a crescente importância que as abordagens éticas vêm dando a ecologia. Não se trata de um modismo, ao menos não em todos os casos. Trata-se antes da tomada de consciência de que a “casa” dos seres humanos é o mundo, com sua multiplicidade de seres. Cabe à ética mostrar que o relacionamento harmonioso ou não dos seres humanos com toda a criação é decisivo também para o relacionamento dos seres humanos entre si. Pois é através da dominação sobre as coisas que se estabelece a dominação sobre as pessoas. A lógica é a mesma. Quem não respeita a criação, não respeitará seus semelhantes. Aliás, para a ética na sua concepção originária, a rigor não existem criaturas dotadas de maior ou menor dignidade. Elas se interrelacionam de tal forma que uma não pode existir sem a outra.
Uma questão que sempre se coloca neste contexto é a de saber o quanto é inato e o quanto é adquirido. Certamente, na prática torna-se difícil distinguir o que é inato e o que é adquirido, o que é natureza e o que é cultura. Pois a natureza sempre se encarna numa cultura e a cultura sempre pressupõe uma natureza. Da mesma forma, na prática é difícil distinguir o que nos vem do passado e o que é conquista real do presente. Enquanto gerador de percepção, apreciação e ação, o ethos integra experiências do passado e do presente, dinamismo e constância ao mesmo tempo. Contudo, não se trata de uma constância física, mas exatamente de uma constância humana, e portanto, dinâmica.
O ethos pode ser melhor compreendido na medida em que ele vem associado com a "virtude", ou seja, com o vigor de um povo ou de uma pessoa. Convém não esquecer que virtude nada tem a ver com pieguismo: na sua radicalidade ela remete para vis, que significa exatamente força, vigor, dinamismo. A virtude não é um apêndice, acréscimo ocasional. É algo de constitutivo, que emerge da dialética de um "ser" e um "vir-a-ser".
Com isto já podemos entrever melhor o que vem a ser a Ética. Ela é antes de tudo, uma ciência que busca articular e veicular os valores mais fundamentais para a sobrevivência humana. Por isto mesmo, se afirmamos que a Ética encontra-se em crise, deveríamos logo prosseguir dizendo: porque estão sendo perdidos alguns valores fundamentais para a sobrevivência dos seres humanos como humanos; porque uma geração não consegue transmitir seus valores para a outra. Ou então, ao menos deveremos admitir que a crise ética traduz uma certa insegurança que emerge primordialmente do fato de não se estar articulando de modo devido o "ser", e o "vir-a-ser", ou seja, aquilo que deve permanecer e aquilo que deve transformar-se.
2. Dos valores e do seu significado mais profundo
Quando falamos de valores, logo nos deparamos com uma série de dificuldades, pois estamos nos movendo num campo um tanto flúido. Queremos sinalizar ao menos três grandes dificuldades: a primeira refere-se à conceituação; a segunda à sua inevitável evolução; a terceira à sua transmissão.
2.1. Dificuldades na Conceituação
A moderna filosofia dos valores adquiriu força diante da força do cientificismo e do positivismo. Estes afirmam a existência de fatos mensuráveis. Só seria real o que é cientificamente mensurável. Por isto não causa surpresa que a idéia de valor remeta de modo imediato para a economia, o preço de mercado. A filosofia dos valores ressalta que ao lado de fatos mensuráveis é preciso levar em consideração o que ainda não existe, mas que poderia existir, o que suscita estima, admiração, apreço. É assim que o tratado dos valores vai integrar os planos afetivo, estético, social, religioso, moral. Quando Hursel e Scheler desenvolvem suas axiologias, vão perguntar-se pelo significado que as coisas tem para mim. É verdade que estas abordagens apontam de imediato para o risco do subjetivismo, muito detectado por Heidegger. Para ele o risco só é superado na medida em que o ser humano se abre para o inefável, para a transcendência. Com isto a própria filosofia dos valores acena para uma necessária dimensão ontológica, na qual os seres se abrem para o Ser originário. Assim, o valor não estaria em mim, mas naquilo que desperta em mim a admiração, a estima, o respeito, o afeto.
Isto se torna mais claro quando nos defrontamos com os valores denominados morais. Se por um lado eles remetem para uma experiência pessoal irredutível, por outro, estes mesmos valores pressupõem um contínuo confronto com os planos social, religioso e cultural. Minha experiência não pode ser somente minha: ela tem que ser capaz de confrontar-se com a experiência dos outros. Nossa experiência de hoje, não pode ser somente nossa: ela tem que confrontar-se com a experiência dos nossos antepassados. E a nossa experiência e a experiência dos nossos antepassados tem que confrontar-se com o “humanum” do qual tratamos acima. Os valores morais pressupõem a busca da dignidade humana e do sentido mais profundo de sua existência. Esta busca não se dá no abstrato, mas exatamente no percurso de uma história pessoal e social, cheia de meandros, avanços e recuos. E aqui emerge a segunda dificuldade, relacionada com a apreensão dos valores na sua evolução.
2.2. Dificuldades para apreender os valores na sua evolução
A crise dos valores vem muito bem descrita nestas frases de A Touraine, em seu livro “Crítica da modernidade”: “Falta... ao indivíduo moderno um mapa de valores que o guie através da vida e que lhe permita estruturar sua personalidade. A ausência de uma adesão a uma fonte global de sentido deixa-o frágil, oco, sem convicções, levando-o a buscar em tudo sua própria satisfação; com isto as balizas éticas são tornadas inócuas; observa-se apenas a lei de levar vantagem em tudo e tende-se a reconhecer certa legitimidade social ao hedonismo reinante. Bem podemos imaginar os efeitos desastrosos de uma tal mentalidade para os bens públicos nesses países, onde poucos detêm o poder e as riquezas. A impunidade generalizada não passa de uma conseqüência natural”.
É evidente que a perda do mapa de valores não se deu por acaso. Ela ocorre em meio a um mundo em rápida evolução sob todos os aspectos e sobretudo um mundo cansado do racionalismo que marcou a modernidade. Daí o contraponto constituído pela explosão da subjetividade, a busca compensatória do intimismo e de novas experiências religiosas. É que o mundo das técnicas e das ciências não está preenchendo o mundo da vida.
Por mais que se queira valorizar a emergência da subjetividade, contraposta ao racionalismo da pretensa objetividade, não se pode deixar de perceber a dificuldade de se encontrar parâmetros de comportamento que orientem as pessoas e as sociedades. Se antes, através de mecanismos familiares, religiosos e sociais, os valores eram quase que hereditariamente impresos no coração das pessoas, agora através da explosão o subjetivismo intimista, a referência a qualquer escala de valores vem de imediato questionada. E isto não pode, de antemão, ser atribuido à má vontade das pessoas. É que em meio ao contexto acima aludido, desaparece o senso comum, e consequentemente o que vem aceito como sendo de bom senso. O problema não consiste no questionamento deste senso comum e do bom senso. Isto sempre existiu e deve existir, já que nos encontramos sempre envoltos na dinâmica da vida. O problema consiste no fato de já não existir nem senso comum, nem bom senso, mas um senso do momento, seja em termos de pessoa, seja em termos de sociedade. O problema consiste na pressuposição prévia de que não existem valores de caráter mais perene. Tudo mudaria ao sabor do momento histórico em que se vive. Este quadro já acena para a guerra dos subjetivismos e que acaba por inviabilizar o convívio familiar e social. O que se torna trágico não é a guerra por valores, mas a guerra resultante da falta de valores. Tudo isto torna muito problemática qualquer tentativa de transmissão de valores.
2.3. Dificuldades inerentes à transmissão de valores
Quem é professor sabe muito bem o quanto é difícil a transmissão de não importa qualquer conteúdo. É que todo mundo se julga mais ou menos mestre em todos os assuntos. Afinal todos viram alguma coisa sobre qualquer assunto na TV. Ou deparou-se com o assunto na internet. Sem nenhuma sombra de exagero, devemos assinalar como uma das características do momento que vivemos como sendo a superficialidade. Poucas são as pessoas que se dão ao trabalho e dispõe de tempo para aprofundar seus conhecimentos. E aqui encontra-se a primeira dificuldade: como aprofundar um conteúdo conhecido, mas superficialmente conhecido? Como levar os estudantes a se convencerem da suprema norma da sabedoria de que só sei que nada sei? Com certeza a resposta aponta para a necessidade absoluta da filosofia, já ao nível infantil. Este é um instrumento indispensável para superar a barreira da superficialidade.
Entretanto, a maior dificuldade consiste em transmitir valores. Para ser mais claro, pretender transmitir valores já é um ponto de partida completamente falho. Talvez seja aqui o lugar de recordar uma das máximas de Paulo Freire, de que ninguém ensina nada a ninguém, muito menos em termos de valores. A tarefa do educador não é nem a de criar valores, nem a de transmiti-los. A tarefa do educador é justamente a de ajudar as pessoas, ou eventualmente a sociedade a descobrir os valores que se encontram implícitos. Num primeiro momento isto poderá parecer uma espécie de sacralização da superficialidade reinante. Entretanto, quer partamos de um ponto de vista filosófico, quer teológico, sempre chegaremos à mesma conclusão: não existe nenhuma pessoa e nenhuma sociedade que não carregue consigo uma série de valores. Caso contrário, estas pessoas e estas sociedades ou já não existiriam ou estariam em vias de desagregação. A questão consiste em não querermos impor nossos valores como sendo universais, mas em nós, os educadores, teremos a coragem de ir a fundo nos questionamentos que são levantados. O educador deve ser antes de tudo uma pessoa extremamente paciente. Não adiante ter pressa, para chegar a uma conclusão. O segredo do êxito parece estar na linha da maiêutica de Sócrates e de Jesus Cristo. Para responder adequadamente a uma pergunta, nada melhor do que outra pergunta. Não adianta contrapor nossa posição às dos outros. O bom educador fará sempre o papel do bom psicólogo, que abraça a não diretividade como norma máxima. É preciso ter a ousadia de deixar cada pessoa buscar sua identidade, e conseguentemente seus valores. E isto vale mesmo para a catequese, para a chamada formação da consciência.
Numa das pontas encontra-se o que se pode denominar de originalidade de cada ser humano. Deus revela sua sabedoria não pela criação em série, mas exatamente pela criação diversificada. Apesar dos traços comuns que nos identificam como “humanos”, cada um traz em si traços pessoais irrepetíveis. Quem sou? Por que existo? Para onde vou? São perguntas que não podem ser assumidas por ninguém, além de mim mesmo.
Na outra ponta encontram-se minhas “circunstâncias”, isto é, o meio ambiete do qual se procede, os influxos familiares, sociais, políticos, culturais, econômicos, religiosos, etc. Em outros termos, a originalidade começa a ser “trabalhada” por numerosos fatores, que em grande parte independem da própria pessoa. É nesta dialética entre a originalidade e o meio ambiente que se vai forjando uma consciência, seja ela moral, psicológica, social ou religiosa.
Ao lado da originalidade e do “trabalho” assistemático dos múltiplos fatores pode, e normalmente vai surgindo um “trabalho” educativo, movido tanto pelo ambiente familiar, quanto pelo social. É neste contexto que se coloca igualmente a educação para os valores. É igualmente neste contexto que emergem as possibiilidades de uma educação libertadora ou manipuladora.
3. Da educação e do seu significado mais profundo
Já deixamos subentendido na introdução, que Ética e valores são realidades tão próximas que, na prática, uma não pode ser entendida sem a outra. Agora deveríamos acrescentar, que Ética, valores e Educação, são realidades tão próximas que nenhuma das três pode ser entendida isoladamente. Entretanto, tendo esclarecido o significado mais profundo da Ética e dos valores, convém agora lançar um pouco de luz também sobre o significado mais profundo da Educação.
3.1. Partindo da etimologia
Com razão, desde há muito se remete nossa palavra "educação", para duas palavras latinas: "ex-ducere". A raíz "ex" significa sair para fora. Assim, por exemplo, "ex-spirar", "ex-sultar", "ex-clamar", nos revelam sempre este movimento, de dentro para fora. Daí a "educação" não consistir propriamente num processo de implantação de algo que ainda não existe, mas um processo de cultivo de algo que já está ali presente, embora em germe. Assim se entende o dito de Paulo Freire, de que, a rigor, ninguém educa ninguém. As pessoas se educam no confronto com outras pessoas e com as várias realidades da vida. A rigor não deveria existir oposição entre "educador" e "educando", ou nem mesmo se poderia utilizar esta terminologia, por si só suspeita. O que deveria ocorrer seria exatamente um certo confronto, onde um se espelha no outro. Mas de qualquer modo, o que deve ficar evidenciado é o papel ativo do "educando". Ele ou ela deveriam ser considerados os agentes primeiros. O chamado "educador" não deveria ser mais do que uma espécie de espelho, que leva o "educando" a se olhar em profundidade.
"Ducere", por sua vez, nos lembra o processo de "conduzir". Por aí já se percebe que, por mais que se queira evitar qualquer tipo de imposição, não se pode deixar de reconhecer que o educador também deve exercer um papel ativo. Não no sentido de impor uma série de idéias e atitudes tidas como valores. Mas no sentido de pro-por, isto é, colocar em frente ao educando aquilo que constitui a experiência de um povo, ou mesmo da humanidade. Se falamos experiência, já estamos sugerindo novamente uma de- composição de duas palavras conjugadas. Se "ex" traduz um movimento para fora, "peri", como nos lembra a expressão "perímetro urbano", traduz um rodear, dar voltas. É curioso como a língua alemã conservou a riqueza desta compreensão com o vocábulo "Er-fahrung". "Fahren" significa viajar. Assim, pessoa "experiente", significa pessoa que já deu muitas voltas pela vida. É dando muitas voltas pela vida que uma pessoa adquire experiência, ou seja, uma ciência, que é muito mais sabedoria, do que simples conhecimento.
3.2. Educação como troca de saberes
Pelo que foi dito até aqui sobre e Educação, fica claro que a tarefa do educador não é dar voltas na vida pelo educando; nem pretender conduzí-lo pelos mesmos caminhos de sempre. O bom educador acompanha o educando, com um olhar carinhoso como o de uma mãe, mas como boa mãe deixa o filho fazer ensaios para andar. Ou seja, o pressuposto é que se tenha confiança na capacidade do educando. O que podemos é oferecer subsídios, ajudá-lo a organizar suas próprias experiências, levá-lo a um senso crítico em relação a elas. De alguma forma, o que deveria acontecer entre o educador e o educando, é que ambos fossem aprendizes, embora em estágios diferentes. O que deveria ocorrer é uma troca de saberes, onde ambos têm algo a aprender e ambos têm algo a ensinar.
É aqui o momento de estabelecermos um confronto entre uma educação libertadora e uma educação manipuladora, ou opressora.
A educação libertadora parte do pressuposto de que as pessoas, os grupos, as nações, devem ser os agentes primeiros da sua própria educação. Daí o pressuposto básico do máximo respeito para com a identidade profunda de cada um, seu patrimônio, suas tendências, suas origens. Não se trata de im-plantar, mas antes de cultivar, favorecer o desabrochamento. O que normalmente se denomida de “educador” seria antes de mais nada um espécie de pro-vocador, que chama, interpela, anima o “educando” a desenvolver-se de modo corajoso e coerente com sua vocação. Aqui há convite, propostas, não imposições.
Ao contrário, um processo educativo autoritário parte do pressuposto de que é preciso im-plantar a todo custo, eventualmente arrancar o que está aí, para substituir por algo tido como melhor. Nessa concepção o educando é aquele que “não” sabe, “não” pode, “não” deve. Não é sujeito, mas um verdadeiro objeto. Aqui não há pro-ostas, mas respostas. Não há interrogações, mas afirmações. Não há convites, mas ordens.
De um lado temos configurado Sócrates, com seu processo maiêutico, ou seja, um processo onde a resposta nunca é dada por antecipação, mas onde são colocados os elementos para que a resposta possa ser encontrada. Do outro lado encontra-se um sistema draconiano, ou seja, do legislador que sabe, impõe, não distingue níveis nem circunstâncias.
Estas duas concepções opostas do processo educativo em geral vão evidentemente encontrar um paralelo na educação religiosa e moral. Só que aqui as questões se complicam ainda mais, pois o patrimônio a ser veiculado não remete apenas para uma experiência adquirida, mas também para uma re-velação. Como “passar “ este conteúdo sem manipular? A resposta se torna mais convincente quando se comparam dois tipos de educação moral e religiosa efetuados por personagens hisitóricos. De um lado encontram-se os fariseus, conhecedores de uma re-velação através da Lei de Moisés. Do outro encontra-se o Cristo, que traz a revelação em plenitude. Os fariseus, zelosamente, querem impor os dados adquiridos, mas o fazem de modo autoritário, desumano, e por isto mesmo arbitrário. O Cristo, ao contrário, deslumbra, des-vela, fascina. E certamente ninguém ousará sugerir que não tenha levado com perfeição sua tarefa educativa. São duas pedagogias diante de uma mensagem ao menos teoricamente idêntica. Uma é ameaçadora, burocrática, inflexível. A outra é encantadora, experiencial, compreensiva, no sentido mais profundo do termo. Numa encontra-se uma espécie de fideísmo repetitivo. Na outra uma fidelidade divinamente criativa. A formação da consciência cristã só pode dar-se nesse modelo de Cristo. Caso contrário transforma-se em de-formação.
4. As crises e suas razões
Hoje, com muita freqüência nos perguntamos pelos porquês de nossas crises, mormente nos campos da ética, dos valores e da educação . Algumas pistas iluminadoras já foram dadas acima. Mas nos parece muito pouco. Quando se pretende compreender melhor a atual crise brasileira, não se pode perder de vista nem o quadro geral, que é o da modernidade, nem o que é específico de nossa realidade paradoxal de primitivismo e modernidade conjugadas. Ademais, se quisermos um diagnóstico mais preciso, não podemos esquecer que a crise é compreendida e vivenciada de modo diferente nas várias camadas sociais.
4.1. A deusa razão e seus pés de barro
Modernidade se tornou um destes termos que devem aparecer em qualquer abordagem reflexiva. E no entanto poucas realidades são ao mesmo tempo tão imprescindíveis e tão ambígüas para compreendermos nosso momento presente, quanto esta.
Antes de mais nada a modernidade se constitui num fato irreversível, com aspectos positivos e negativos. Para nossos objetivos basta lembrar alguns elementos que caracterizam a modernidade. Trata-se, antes de mais nada de uma reorganização e econômica, política e cultural com o predomínio do mundo tecnológico, a centralização do poder e o desencantamento do mundo; o predomínio absoluto da factibilidade, da imanência, da liberdade, do subjetivo, carrega ao mesmo tempo consigo a secularização, a crise da autoridade e o relativismo moral e religioso .
Sob o prisma filosófico-teológico, talvez seja bom recordar alguns nomes profundamente ligados à modernidade, a começar por Kant, com o seu empenho por criar uma ética realmente científica e universal. Para ele a modernidade tem uma significação histórico-universal: a humanidade poderia agora, finalmente, abraçar sua maioridade pelo uso público da razão. O ser humano já não deveria guiar-se por normas heterônomas, mas exatamente autônomas. O ser humano é fonte de sentido; por isto dispensa qualquer tutela. Hegel, por sua vez vai acentuar o incontestável princípio regulador dos comportamentos humanos: a subjetividade. A partir deste princípio da subjetividade, todas as dimensões humanas - religião, economia, política, moral, arte - foram radicalmente transfiguradas. Mas o mesmo Hegel vai além da pura subjetividade: a partir da perspectiva aberta pela filosofia transcendental, tenta um conceito de razão capaz de dar conta das aparências da crise da modernidade e possibilitar uma crítica de fundo ao reducionismo da mesma modernidade.
Com isto também fica evidente o calcanhar de Aquiles da modernidade em termos éticos: a egologia. Embevecido por suas inegáveis conquistas tecnológicas e científicas, o denominado homem moderno já não conhece limites. Qual Prometeu ousa desafiar os deuses, sem perceber que se encontra acorrentado à sua condição criatural. Sua prepotência não se limita ao domínio prometeico das coisas: projeta-se para o domínio tirânico dos semelhantes. E ainda mais: julga-se no direito de estabelecer o caminho da realização e da frustração, a felicidade ou a desgraça de toda a criação. A superação desta egolatria letal só é possivel na medida em que a racionalidade não for confundida com o subjetivismo e a subjetividade se abrir para uma intersubjetividade comunicativa, dialogal e dialética. Só assim a vontade indomável de saber e de dominar pode dar lugar à vontade da verdade e da solidariedade.
4. 2. O advento da deusa modernidade
De um ponto de vista ético o advento da modernidade encaixa-se como uma luva nas mãos da burguesia, sempre ciosa de sua liberdade ilimitada e prepotente. A burguesia se julga dona do mundo, das leis, das tradições. Nossa atual crise ética é certamente um reflexo de um sistema sócio-econômico e político dependente, decadente e excludente. Neste sistema a burguesia quase sempre se sentiu muito à vontade. Mas o nível de desagregação é tamanho, que a mesma burguesia agora sente-se ameaçada e apavorada. Sente-se como que dentro de uma aeronave desgovernada.
A questão que agora se levanta é a de onde surge o apavoramento da burguesia. Ousaria sugerir, como hipótese, e não como tese, que isto é fruto de uma mudança acentuada no ethos das classes populares. Os empobrecidos sempre se defenderam como podiam. Só que hoje, parecem ter aprendido algo da malandragem comandada pelas elites: o feitiço ameaça voltar-se contra o feiticeiro. Para entender isto não podemos deixar de lado a problemática da cultura popular. A atenção que dedicaremos aos empobrecidos não deve ser entendida como se eles fossem culpados da crise ética: são vítimas; mas como vítimas reforçam o desmoronamento de todo um ethos tradicional. Sem isto ficaria difícil entender a abrangência da nossa crise ética, já que os empobrecidos constituem a absoluta maioria da nossa população.
Sabidamente o termo cultura além de abrangente é cheio de meandros. Basta considerar as muitas tentativas de definição de cultura. Desde fins do século passado, com E. Taylor, quando se fala em cultura, se pensa num complexo de experiências, práticas, artes, símbolos, moral, leis, costumes e hábitos. O conjunto de experiências e práticas denominado de cultura vem ao mesmo tempo carregado de valores e padrões de comportamento, estabelecendo-se assim o que se chama de ethos cultural. É o ethos cultural que caracteriza um povo, dá sentido para sua vida e para suas práticas.
Todos temos muito presente que, o universo cultural ético e religioso predominante entre os pobres era, até há pouco, aquele do intrincado catolicismo popular e da religiosidade popular. Não podemos aqui entrar nesta questão, mas suas implicações devem ser pressupostas neste contexto. É todo um universo cultural, ético e religioso diferente daquele, por exemplo da classe média.
Simplificando ao máximo se poderia dizer que, embora teoricamente estas camadas assumam as coordenadas culturais, éticas e religiosas oficiais, na prática são regidas por outros parâmetros. É todo um modo próprio de viver e interpretar todas as realidades, inclusive éticas e religiosas.
E aqui surge um elemento complicador do nosso já intrincado contexto cultural, ético e religioso. Além do já intrincado mundo da religiosidade e do catolicismo popular, nestes últimos decênios vêm sempre mais se impondo, mesmo entre os empobrecidos, o que se denomina de "cultura da modernidade". Enquanto oficialmente somos regidos pela modernidade, de fato, grandes estratos da nossa população vive numa situação ambígua entre cultura popular e cultura da modernidade.
Por um lado, a cultura da modernidade arranca, por assim dizer, grande parte da alma religiosa originariamente predominante nestas camadas, e por outro, reforça um vago misticismo e um forte sincretismo, sempre presentes nas camadas populares. Por um lado a modernidade ajuda os empobrecidos a se sentirem pessoas, sujeitos de direitos e deveres; por outro, tende a confirmá-los a buscarem tranqüilamente seus próprios caminhos, sem referência a parâmetros éticos determinados. Por um lado a cultura da modernidade viabiliza relações conjugais e familiares mais personalizadas, ao criticar o machismo e ao insistir numa redivisão da tarefas; por outro, arranha profundamente a concepção cristã de pecado, e reforça, com pretensões científicas, uma moralidade tradicionalmente elástica. Isto se verifica sobretudo no campo da sexualidade, com conseqüentes reflexos sobre o matrimônio. Ao desvincular o indivíduo de suas raízes sociais, deixando-o entregue a si mesmo, a nova cultura industrial rompe o já sempre precário equilíbrio tradicional das relações intra e extra-familiares.
Em termos conjugais e familiares se percebe uma nítida privatização. O individualismo, o "amor-paixão", sem nenhuma ou com pouca referência ao social e institucional, vão ganhando corpo. Como também ganha corpo uma concepção diferente de corpo pouco compatível com a da filosofia grega e da concepção do judeu-cristianismo. O corpo já não é mais visto como o corcel da alegoria de Platão, que deve ser guiado pelas rédeas da razão. Muito menos é visto como a morada de Deus. Ele se apresenta como objeto de processos biológicos, instintivos, guiado pela onipotência dos desejos. A medicalização da sexualidade, com reprodução humana assistida, apontando para o eugenismo biológico e social, vêm completar a confusão deste quadro, já originariamente confuso.
Nesta altura se percebe melhor a existência de um casamento estranho e paradoxal: ao mesmo tempo que as vítimas da modernidade são dominadas social e culturalmente pelas classes média e alta, sentem-se como que reforçados em alguns postulados da cultura dos pobres ditada pelas leis da sobrevivência. Ao mesmo tempo que a cultura e a mentalidade popular são sempre mais relegadas ao folclore, ocasionando uma mudança de costumes, elas se sentem profundamente sintonizadas com a modernidade, justamente no que há de mais negativo. Ao mesmo tempo que a egolatria das classes médias e altas rouba-lhes literalmente o direito de viver, as camadas mais pobres, maltrapilhas e desdentadas sentem-se convocadas a gozar das migalhas que lhes são atiradas para mantê-las submissamente dóceis aos comandos.
Todo este quadro, onde por razões completamente diferentes, pobres e ricos lançam-se à mesma orgia libertacionista, hedonista, e relativista, percebe-se melhor a profundidade da nossa crise ética e a ilusão que alimentou a intelectualidade há alguns anos atrás: bastaria que os pobres fizessem ouvir sua voz e tomassem o seu lugar para construirmos uma sociedade profundamente ética, e por isto mesmo justa e solidária.
É dentro deste quadro que se entende a última Encíclica do atual Papa João Paulo II: o jogo que se estabelece é entre uma ética subjetivista e conseqüentemente arbitrária, e uma ética que se funda no Esplendor da Verdade do ser humano, enquanto assume sua condição criatural. Convidado a construir uma nova humanidade encontra sua liberdade não enquanto abraça os primeiros impulsos, mas enquanto ausculta as profundezas do seu ethos e as operacionaliza. Mas este é um capítulo complicado, que faz emergir uma problemática antiga, embora agora com novos traços, que é exatamente a problemática das normas éticas.
5. Ética, valores e Educação: uma articulação difícil mas necessária
Ética, valores e educação não se identificam. Mas elas andam tão juntas que, crises no campo da Ética se refletem imediatamente no campo da educação, e crises no campo da educação se refletem em crises no campo da Ética. É que tanto uma quanto a outra buscam e veiculam valores; e quando estes ou já não se apresentam tão claramente, ou são substituídos por outros, ou desaparecem, a Ética e a Educação se sentem desarvoradas, pois estão perdendo suas âncoras.
5.1. As tentações da Ética se parecem com as da Educação
Vimos que o ethos não se concretiza no abstrato, mas justamente no plano histórico. O mesmo se deve afirmar com respeito à educação. E esse plano histórico aponta continuamente tanto para as pessoas, quanto para as sociedades, tanto para o que já foi, quanto para o que vai sendo, tanto para a tradição, quanto para a atualidade, tanto para a natureza quanto para a cultura. E na medida em que se evoca a cultura, não se pode perder de vista que ela remete para vários campos, entre os quais o religioso, o simbólico, o organizativo-social. O ethos vem sempre expresso por esses múltiplos componentes, que vão se fecundando mútua e dialeticamente.

Quando nos detemos diante dos múltiplos componentes do ethos, vamos nos deparar com ao menos três tentações: a primeira é a de tentar encontrar respostas prontas; a Segunda é a de julgar que só nós hoje sabemos das coisas. E a terceira é a de confundir ethos com norma.

5.1.1. Primeira tentação: buscar respostas prontas. É muito curioso, mas as formulações éticas de um povo não se dão quando tudo está solidamente estabelecido. Como no campo da educação, as tentativas de uma nova elaboração ocorrem nos momentos tensos de crises, quando se chocam três tendências básicas: uma de conservação, outra de superação, e outra de inovação. O empenho pelas formulações éticas também não ocorre nos períodos de grande vigor ético. Os períodos de grande vigor ético dispensam formulações mais precisas, já que o ethos alimenta quase que diretamente a vida concreta, sem contestação. Ao contrário, nos períodos de decadência é que se impõe a necessidade do nomos, ou seja, a multiplicação de leis. Constituições volumosas, em vez de traduzirem vigor ético, traduzem exatamente a falta deste vigor. Por mais paradoxal que possa parecer, a multiplicidade das leis testemunha a fraqueza das instituições e dos povos. É uma tentativa desesperada de acordar o senso ético debilitado.
É de se notar que, ao contrário dos grupos religiosos decadentes do seu tempo, que elencavam mais de 600 preceitos, Jesus resume todo o seu dinamismo ético em apenas um preceito: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É sintomático que ao ser compelido a organizar sua nova Ordem São Francisco de Assis julgou suficiente estas palavras: O caminho dos frades menores é este: "observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".
As crises éticas, como as crises educacionais, remetem ainda para períodos de pluralismo cultural, quando várias culturas, por circunstâncias históricas, se vêem confrontadas; pois todo grupo cultural apresenta também seu padrão ético próprio. Seria possível estabelecer uma unidade ética num período de pluralismo cultural? Seria isto desejável? O fato é que quanto mais primitiva uma sociedade, tanto mais rígida tende a ser na transmissão do seu paradigma ético, e quanto mais desenvolvida, mais tende para a maleabilidade.
De qualquer forma, tanto nos períodos de estabilidade, quanto nos períodos conturbados de transição, o desafio fundamental que se coloca em nível pessoal e social é sempre o de viver em consonância profunda com o seu ethos. E aqui nos encontramos mais diante de uma busca contínua do que diante de um ponto de chegada.
A mentalidade hodierna por um lado facilita essa busca, na medida em que tem consciência da provisoriedade de suas próprias conquistas; por outro lado, porém, dificulta a busca, na medida em que espera resultados imediatos. Daí a tentação de fixar-se em repostas prontas e acabadas, em vez de retomar continuamente o caminho.
As respostas prontas e acabadas em termos éticos e educacionais, são, de alguma forma, a morte do ethos, e a morte da Educação; pois estas não podem ser aprisionadas por fórmulas; nem podem ser comparadas com as águas mortas de uma cisterna, mas exatamente com a água viva que jorra sempre de novo de uma fonte inesgotável: a fonte do "humanum". Esta é a primeira grande tentação a ser evitada, tanto em termos de Ética, quanto de Educação.
5.1.2. A segunda grande tentação : julgar que só hoje é que sabemos das coisas. Claro que em tudo há uma evolução; como é claro que num primeiro momento pode parecer-nos que estamos diante de revoluções. Mas para evoluir em termos de compreensão ética e educacional, é preciso não perder de vista que tudo comporta uma referência a algo que permanece. O melhor exemplo de evolução, dentro de uma certa continuidade, encontra-se exatamente numa compreensão rica e atual de Educação: a educação do corpo e da mente. Com efeito, nestes últimos séculos, sob o influxo do racionalismo, acabamos por assumir uma compreensão quase que dicotômica de corpo e mente, de materialidade e espiritualidade. Conseqüentemente, acabamos por julgar que educar significaria apenas aprimorar a racionalidade. Entretanto, quando olhamos para os primórdios da filosofia da educação, percebemos que nem sempre imperou o racionalismo. Se tomarmos como exemplo a filosofia grega, depois assumida pelos grandes pensadores cristãos dos primeiros séculos da nossa era, percebemos logo que o ser humano era concebido como parte de um todo: ele é um microcosmo dentro de um macrocosmo; ele é um espírito mergulhado na matéria. Assim, já a antiga paidéia, entendia a educação como a arte de viver integrado no seu meio ambiente, material, cultural, social, político e religioso. Assim, o que hoje expressamos como concepção holística de educação, não se constitui numa novidade total. Constitui-se antes numa feliz redescoberta de intuições já bem antigas. As descobertas em termos educacionais, são em geral revestimentas enriquecidas, daquilo que foi perdido ao longo dos tempos. Isto não diminui em nada o valor das modernas abordagens, mais globais, mais holísticas de educação. Apenas nos faz perceber que não somos nem os primeiros pensadores, nem os primeiros educadores da história da humanidade. Se construímos algo de novo, e certamente o fazemos, em geral construímos sobre os fundamentos que já foram colocados há muito tempo. Isto vem nos mostrar que o ser humano, justamente por ser humano, sempre foi inteligente, inventivo, criativo. Apenas nem sempre dispôs dos mesmos recursos que nos são hoje oferecidos.
5.1.3. Terceira tentação: confundir ethos com norma
Ethos e normas são duas palavras que, à primeira vista parecem quase idênticas. As normas éticas seriam a tradução fiel do ethos. E no entanto, essa identificação pode revelar-se muito simplista, pois ignora as mediações. Se é certo que as normas traduzem algo do ethos, também é certo que podem ser confundidas com ele.
Com efeito, como vimos no início, o ethos é fonte. Nós nem podemos criá-lo, não podemos domesticá-lo. O que podemos fazer é buscá-lo, canalizá-lo, aproveitar-nos do seu potencial. Ou então podemos ignorá-lo, tentando buscar outras fontes. O resultado é o que já conhecemos: damos longas voltas e percebemos que andamos em círculo, sem saída.
Já as normas são tentativas humanas de captar as águas sempre borbulhantes dessa fonte que se renova sem cessar. Sem dúvida as normas éticas se constituem num empenho por desvelar o ethos. Elas não são estabelecidas arbitrariamente. E se o forem já não serão normas éticas, e sim decretos nascidos da prepotência humana. Por isso mesmo seriam normas a-éticas, imorais.
Normalmente as normas que merecem o nome de éticas traduzem uma experiência de vida. Por isto mesmo as essas normas devem ser assumidas com seriedade. Mas a própria seriedade nos obriga a ter presente que as mesmo as normas éticas remetem para um contexto determinado, para um sujeito determinado. Isto significa, concretamente, que elas remetem para uma série de condicionamentos, sejam eles estruturais ou situacionais. E se estas normas forem, por exemplo, oriundas de livros sagrados, como a Bíblia, assim mesmo passarão sempre por um processo hermenêutico. Daí não se poder sustentar, sem mais, que as normas sejam objetivas. São mais, ou então menos objetivas na medida em que mais, ou então menos fielmente interpretam o ethos. E de qualquer forma elas sempre passam através do crivo de um sujeito social.
O mais curioso, porém, é que as formulações éticas de um povo não se dão quando tudo está solidamente estabelecido. Como no campo da educação, as tentativas de uma nova elaboração ocorrem nos momentos tensos de crises, quando se chocam três tendências básicas: uma de conservação, outra de superação, e outra de inovação. O empenho pelas formulações éticas também não ocorre nos períodos de grande vigor ético. Os períodos de grande vigor ético dispensam formulações mais precisas, já que o ethos alimenta quase que diretamente a vida concreta, sem contestação. Ao contrário, nos períodos de decadência é que se impõe a necessidade do nomos, ou seja, a multiplicação de leis. Constituições volumosas, em vez de traduzirem vigor ético, traduzem exatamente a falta deste vigor. Por mais paradoxal que possa parecer, a multiplicidade das leis testemunha a fraqueza das instituições e dos povos. É uma tentativa desesperada de acordar o senso ético debilitado.
É de se notar que, ao contrário dos grupos religiosos decadentes do seu tempo, que elencavam mais de 600 preceitos, Jesus resume todo o seu dinamismo ético em apenas um preceito: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É sintomático que ao ser compelido a organizar sua nova Ordem São Francisco de Assis julgou suficiente estas palavras: O caminho dos frades menores é este: "observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".
4.2. Articular o "esse" e o "fieri"
As constatações feitas há pouco podem sugerir que então não temos outra saída senão a de reconhecer que ao léu, sem parâmetros definidos, ou então definidos subjetivamente. É exatamente esta uma das conseqüências negativas da modernidade. E infelizmente esta é a conclusão que muitos tiram na prática: cada um age de acordo com os seus primeiros impulsos. E contudo esta não deve nem precisa ser a conclusão. O caminho até a fonte do ethos é um caminho árduo, mas que compensa, pois é o caminho da nossa realização pessoal e social. O acesso pode ser duplo, embora no final de contas percebamos que é um só. O primeiro é o da busca racional de uma síntese resultante da conjugação do "esse" com o "fieri". O segundo é o da Revelação. Um não exclui o outro, mas ambos se complementam.
Víamos mais acima que a modernidade é um fato irreversível e não há porque lamentar este fato. O problema consiste em repensar a ética sem jogar fora todo o ingente empenho humano, desvele as grandes aspirações humanas a as viabilizem na prática. Se já fazer uma síntese teórica é um grande desafio, maior ainda o é fazer uma síntese histórica, ainda mais que esta nunca resulta de voluntarismos, mas de várias forças históricas. É por tudo isto que não se pode impunemente "sacralizar" as normas éticas, como também não se pode impunemente relativizá-las a tal ponto que cada um crie arbitrariamente suas próprias normas. A função dos eticistas consiste em articular o que evolui e o que permanece; o que permanece e deve permanecer em meio às evoluções; articular o "esse" e o "fieri", não como se fossem dois departamentos estanques, mas dialeticamente, na pressuposição de que um não pode subsistir sem o outro.
O "esse" é uma palavra latina e vem lembrado pela nossas palavras "essência", "natureza profunda", "identidade". Todas as realidades humanas são sustentadas por um "esse". Se quisermos trabalhar com uma comparação, poderíamos nos referir, por exemplo, à roseira. Seu "esse" não consiste nem na configuração que a ela apresenta ( pois esta pode ser muito diversificada), nem nas rosas que ela produz ( que também podem ser muito diversificadas). Seu "esse" é constituído pela "rosidade", por aquela força oculta que a faz surgir, a alimenta e possibilita que, apesar de miríadas de variedades de roseiras e de rosas, nós as identifiquemos com o mesmo nome. Algo de parecido se passa com os seres humanos: eles se configuram nos mais diversos climas, nos mais diversos tamanhos, nas mais diversas raças, na masculinidade ou feminilidade, mas nós sempre os reconhecemos como sendo humanos.
A partir daqui é fácil compreender também o "fieri": são as configurações que os seres humanos ou demais seres vão assumindo, de acordo com uma série de fatores externos. Seria um erro partir da pressuposição de que só o "esse" é decisivo: não existe um "esse" puro. Só existe um "esse" conjugado com o "fieri", o vir-a-ser-, a evolução, a transformação, o que denominamos de contingências históricas. Por aí já se percebe que a descoberta do nosso ethos exige um grande empenho intelectual para desvendá-lo e um grande empenho prático-existencial para viver em consonância com ele. Este é o caminho da sabedoria.
5.2. O que importa é a busca da sabedoria
Na cidade de Istambul, entre as centenas de mesquitas, destaca-se uma, que foi construída em cima de uma igreja cristã: Santa Sofia. Os cristãos sempre tiveram um apreço por esta santa que não é de carne e osso, mas traduz algo de fundamental para a nossa vida: a Sabedoria. Vários são os textos bíblicos que a exaltam; e ela sempre é um referencial importante. A sabedoria, interpretada ao modo cristão não se confunde com um acúmulo de conhecimentos. Há grandes intelectuais que não são sábios, e há sábios que não são intelectuais. É que uns trilham seus próprios caminhos e outros trilham "o" caminho: "eu sou o caminho, a verdade e a vida", nos diz Jesus Cristo.
As buscas por conhecer o humanum dos seres humanos sempre de novo nos levam a um antigo princípio filosófico: "conhece-te a ti mesmo". Este é o ponto de partida da sabedoria. Quanto mais profundamente mergulhamos no humanum, tanto mais percebemos que "sabemos que nada sabemos". É que o mistério do humanum aponta justamente para algo que é mais profundo do que aquilo que pode ser apreendido: suas dimensões divinas. O ser humano traz consigo algo que é maior do que ele mesmo.
E é nesta altura que se apresenta o Cristo, imagem perfeita do Pai e plenamente humano, como o caminho pelo qual os seres humanos podem entender algo de mais definitivo sobre Deus e sobre si próprios. Em Cristo o humano e o divino se conjugam de modo inseparável. O divino se abre para o humano e o humano só encontra sua identidade profunda à medida em que se abre plenamente para o divino. Essa abertura total do divino para o humano e do humano para o divino se dá somente no Cristo. É justamente por essa razão que cabe a afirmativa do Cristo como a revelação plena do humano.
Mas o Cristo não apenas encarna o humanum na plenitude, como encarna também o conhecimento deste humanum, da sua identidade profunda. Ou seja, é também aqui que devemos buscar o fundamento último das normas morais. Com as normas ocorre algo de parecido com o que acontece numa tradução de uma língua para a outra. Existe sempre um código-fonte e um código destino. Só é bom tradutor quem domina simultaneamente os dois códigos. Acontece que nenhum ser humano domina totalmente os dois códigos subjacentes às normas éticas. Só Jesus Cristo é o Mestre, uma vez que só Ele encarna com perfeição os dois códigos pressupostos: o divino e o humano. Os demais intérpretes podem ser mais, ou então menos fiéis, na exata medida em que se identificam mais ou então menos profundamente com o modo de ser, proceder e conhecer de Jesus Cristo.
Poderíamos concluir estas reflexões sobre Ética, valores e educação, da seguinte forma: o denominado educador não é o que fornece muitos conhecimentos ao denominado educando, por mais que estes conhecimentos possam ser necessários. O educador é antes, uma pessoa experiente na ciência da vida, e que introduz o educando nos caminhos da sabedoria. É isto que se percebe nos dois incomparáveis educadores, ambos mestres em "maiêutica": Sócrates e Jesus Cristo. Nenhum deles respondia propriamente a perguntas, mas conduziam o discípulo a encontrar a resposta através de outra pergunta. Tanto Sócrates, quanto Jesus Cristo, compreendiam a educação como uma espécie de parto, não operacionalizado através de uma cesariana, mas induzido, lentamente e seguramente. Ambos compreendiam a Ética não como uma ciência que cria valores, mas como uma ciência que descobre os valores implantados no mais profundo do ser humano. E esta descoberta passa sempre por uma feliz conjunção entre o divino e o humano.


 

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