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Para além dos genes a metáfora do Livro da Vida

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Introdução


Não é por acaso que livros de espiritualidade estão em alta. Não é por acaso que livros de cunho esotérico se constituem em sucesso garantido. Também não é por acaso que tudo o que se reveste de caráter misterioso é mais atrativo. Ainda não é por acaso que linguagem cifrada, senhas e “códigos” secretos fazem parte de todas as culturas, seja na forma oral, seja na forma escrita. É que, de uma forma ou de outra, espiritualidade, esoterismo, misteriosidade, mensagens secretas evocam algo que transcende o quotidiano. Lá no fundo, ao tentar tirar o véu daquilo que se encontra oculto, o ser humano o faz na esperança de se compreender melhor a si próprio e o mistério da origem de todos os mistérios. Como diz o livro dos Provérbios (25,2), a grandeza de Deus consiste em esconder-se e esconder seus desígnios, enquanto a grandeza do ser humano, em tentar descobrir Deus e estes mesmos desígnios.

Por isso mesmo, não se constitui em surpresa a sensação causada pela leitura progressiva do “Código genético”. Afinal, depois de haver superado quase todas as barreiras dos mistérios do macro e do microcosmos, só faltava ao ser humano superar as barreiras do seu próprio mistério, ao menos enquanto realidade biológica. O código secreto que comanda a vida já não é mais tão secreto: o lacre foi rompido e os segredos começam a ser desvendados. Não só já é conhecida a estrutura básica do material genético, como sua leitura vai oferecendo respostas mais ou menos convincentes às muitas interrogações no que se refere aos componentes físico-químicos, sua disposição, suas articulações, suas funções. Com isto, questões ligadas à biogenética vêm liderando os assuntos de maior interesse, até num nível popular.

Entretanto, por maiores que tenham sido os avanços da biogenética nestes últimos anos, parece que subsiste ainda uma importante dimensão que só foi levemente sugerida. Trata-se do sentido que se esconde por trás desta “linguagem” estranha na qual vem escrito o “livro da vida”. Por que, ao lado de tantas outras leituras, não se deveria fazer também uma leitura teológica? Claro que a tentativa de tal leitura requer pudor e muita precaução para que não se tirem conclusões que vão além das premissas e não se proceda à mixagem de disciplinas e realidades diferentes. Afinal, estamos diante de uma linguagem metafórica. Mas, desde que se tenha consciência da natureza das metáforas, que através de imagens querem ler a mensagem e o significado de uma realidade, não há por que deixar de lado certa ousadia, sugerindo algo de, à primeira vista, inusitado.

Entretanto, uma boa leitura deste gênero pressupõe, antes de mais nada, que se recorde melhor o fascínio exercido pelos mistérios de modo geral e pelos códigos secretos de modo particular. Em seguida, convém sinalizar para os segredos já desvelados em termos de DNA, ou seja, do material genético. Com isto estará aberto o caminho para o que mais nos interessa, ou seja, para o “significado” profundo dos complexos e fascinantes mecanismos que comandam a vida. Ele parece se encontrar numa palavra codificada, e que detém um misterioso poder criador. É este mesmo poder criador que deixou impressos “sinais”, tanto no livro da natureza, quanto na Bíblia, considerada o livro dos livros. Será que não haveria sinais semelhantes codificados também naquela que pode ser considerada a “linguagem” mais original e primitiva, que é a linguagem genética?

1. O que é misterioso fascina

Talvez, um dos traços mais característicos da assim denominada “modernidade” seja o de haver procurado rasgar o véu de todos os mistérios. A substituição sistemática dos “deuses” pela lógica fria dos números e das máquinas desencantou o mundo, fazendo com que o fascínio fosse sempre mais dando lugar ao naturalismo e, em certos contextos, até ao fastídio. Entretanto, apesar do avanço da secularização, os deuses parecem encontrar sempre novas maneiras de marcar sua presença. Marcam sua presença na literatura profana. Marcam sua presença em textos sagrados. Marcam sua presença através de religiões institucionalizadas e não institucionalizadas.

1.1. Uma aura de mistério invade obras profanas

Uma fantasia nada inocente incendiou o mercado livreiro em tempos recentes. Bastou juntar o nome de Leonardo, um dos maiores gênios da humanidade, à palavra mágica “código” e armar um complexo quebra cabeça, para que, de imediato, surgissem mais de uma dezena de obras afins. Umas tentam decifrar o código enunciado no primeiro livro da série; outras tentam decifrar o código do código; outras tentam lançar novas luzes sobre alguns personagens; outras ainda tentam desmascarar a malícia do autor que, a partir de um poderoso marketing, levanta dúvidas sobre pontos centrais da fé cristã. Com toda esta celeuma armada, em movimentos rápidos, são vendidos milhões de exemplares, numa espécie de efeito dominó. É que foi atingido um veio muito fecundo: o veio do sagrado e do misticismo.

De fato, uma rápida pesquisa de mercado revela que este fenômeno não é caso isolado, pois entre os livros mais vendidos se encontram sempre aqueles que, de uma forma ou de outra, conseguem tocar o mistério. É o que se evidencia também quando se tem presente que um único autor brasileiro da atualidade consegue vender seus livros aos milhões de exemplares e isto em dezenas de línguas. É que ele consegue juntar um fecho tênue de espiritualidade com desfechos inesperados de histórias sempre carregadas de interrogações.

Contudo, convém ter presente que, se a venda de milhões de exemplares é recente, a busca de livros e obras de arte de estilo semelhante é muito antiga. Basta pensar em obras clássicas e romances que conseguiram atravessar os séculos justamente por haverem ultrapassado a barreira de um cotidiano repetitivo e sem surpresas. Um sorriso e uma sugestão de caráter enigmático são muito mais contundentes do que milhões de palavras explicativas. Que o digam a esfinge postada diante das pirâmides do Cairo e a Mona Lisa. Da mesma forma, muitas histórias que atravessam os séculos são histórias de tesouros escondidos em lugares de difícil acesso e que requerem, infalivelmente, algum “mapa da mina”, mapa encontrado aos pedaços, e que deve ser penosamente recomposto. Ademais, os heróis normalmente só chegam a cumprir a façanha com a ajuda de pessoas portadoras de segredos zelosamente guardados. Estes componentes são como que os condimentos que dão sabor às histórias e exaltam as virtudes dos heróis.
1.2. Uma aura de mistério perpassa livros sagrados

Mas é claro que o fascínio pelo sagrado vai se traduzir, sobretudo, nos livros sagrados. O que pode causar alguma surpresa é que os livros sagrados, seja do judeu-cristianismo, seja das denominadas grandes religiões universais, também se servem de uma linguagem que convida a ler tanto nas entrelinhas, quanto para além das linhas. Para perceber a riqueza da linguagem bíblica, por exemplo, basta ter presente os muitos gêneros literários utilizados, sobretudo aquele dos 11 primeiros capítulos do Gênesis. Está claro que ali somente iniciados estarão em condições de fazer uma leitura apropriada, e ainda assim sempre sujeita a novas “interpretações”. Não só os relatos da Criação, como os primeiros personagens (Caim, Abel, Enoc, Noé...), fatos (dilúvio) e monumentos (colunas, torre de Babel) querem dizer muito mais do que palavras podem traduzir. Figuras humanas transformam-se em protótipos do Cristo; fatos ou histórias e até mitos (os gigantes que habitavam a terra, Gn 6,4) transformam-se em símbolos de perdição ou salvação, de proximidade ou então de distância de Deus. Anjos e demônios fazem-se presentes como mensageiros do bem ou do mal. Esta é uma das características de toda a linguagem sapiencial.

E o que é mais surpreendente ainda é a presença de códigos secretos disfarçados, seja na disposição de letras, seja em números. Assim, de maneira prudente, o profeta Jeremias vai se referir de modo velado à destruição do império babilônico (Jr 25,26; 51,42), como bem depois o autor do Apocalipse vai usar o mesmo expediente para denunciar as atrocidades do Império Romano em relação aos cristãos, e anunciar sua queda. Vários livros do Antigo Testamento contêm passagens “seladas”, que só poderão ser conhecidas no final dos tempos. São particularmente conhecidas certas profecias messiânicas de Isaías e do livro de Daniel. O primeiro deixa entrever tempos e realidades futuras, ora interpeladoras, ora carregadas de promessas; o segundo, ao lado da profecia das “setenta semanas” de espera pelo Messias (Dn 9,1s), se caracteriza mais por antever o trágico fim de reis poderosos, mas ímpios, como o foram Nabucodonosor e Baltasar. Na parede de uma sala do palácio real uma mão misteriosa “codifica” uma mensagem que somente um homem de Deus é capaz de descodificar: contado, pesado, dividido. Daniel deve conservar “secretas as palavras e lacrar o livro até o tempo final” (Dn 12,4).

Mas, mensagens cifradas não se encontram apenas no Antigo Testamento, ou no livro do Apocalipse: o mysterion se constitui no núcleo central do Novo Testamento.1 Os “sinais” do Evangelho de São João, carregados de um sentido que vai para além dos fatos, vão se conjugar com as muitas parábolas de Jesus para proclamar os mistérios do Reino. Ainda que o “segredo messiânico” seja uma marca registrada de São Marcos, ele é também um componente dos demais sinópticos e da teologia paulina. Todos sintonizam com a pré-compreensão de que só os que se encontram “dentro” é que vão entender o Evangelho em suas múltiplas expressões. Para os que se encontram “fora” ele se torna inacessível (Mc 4,11) e até se transforma em motivo de escândalo para judeus e loucura para os gregos (1Cor 1,18s). Ademais, a revelação dos desígnios de Deus é progressiva, no sentido de ela se concretizar no tempo. Sem falar do gênero apocalíptico, também bem presente no Novo Testamento, não há dúvida de que o cultivo do mistério faz parte da pedagogia divina. E é nesta direção que devem ser entendidas as expressões religiosas.
1.3. O cultivo do mistério é a alma das expressões religiosas

Falar de fenômeno religioso é falar de uma realidade abrangente, complexa e, sob certos aspectos, até contraditória. Esta realidade não pode ser confundida com as religiões institucionalizadas, nem identificada com certas leituras críticas feitas contra elas no Ocidente. Alguns pensadores consideraram o fenômeno religioso como transitório (A. Comte, Freud, K. Marx, Max Weber). Entretanto, apesar destas predições, nos últimos decênios as religiões tradicionais ou se mantiveram estáveis, ou até ganharam mais força, sob certos prismas. Mas, enquanto isto, as expressões religiosas de caráter mais informal cresceram muito dentro e fora do cristianismo. Há como que uma revoada de anjos no ar. Um novo fervor religioso está sacudindo não só os tradicionais espaços religiosos, como até os mais profanos. Isto mostra que há algo de antropológico e até eterno no fenômeno religioso.

Independentemente de suas tonalidades diversas e até contrastantes, ele sempre tende a se expressar com algumas características comuns. Assim, como já observava Santo Agostinho, esta estranha força tende a “re-ligar” os seres humanos com o transcendente; leva-os a uma certa leitura profunda da realidade, mormente da condição humana; leva-os a prostrar-se diante da glória de Deus. Mas o que parece se constituir na seiva mais profunda das várias expressões religiosas é exatamente esta capacidade de velar e des-velar os mistérios de Deus e, com isto, velar e des-velar os mistérios da Criação. Com razão se fala até de uma “teologia do mistério”, na qual não cabem apenas verdades reveladas, doutrinas ou noções teológicas, mas algo que as ultrapassa.2

É desta forma que se deve dizer que as religiões vivem ou morrem de acordo com o cultivo mais profundo ou mais superficial do senso do mistério. Na medida em que se distanciam do senso do mistério, acabam confundindo-se e entrando em confronto com as ciências. De fato, as ciências tendem a explicar o inexplicável, a falar o indizível, a experimentar o inatingível. Assim se entende que no atual contexto da biotecnologia o confronto entre religião e fé se faça tão contundente: enquanto as religiões vêem nas ciências uma espécie de subsídio para mergulhar mais profundamente nos mistérios da vida, as ciências tendem a se transformar em verdadeiras religiões sem religião: dogmatizam a partir de dados fragmentários que não passam de pequenas manifestações de uma realidade mais abrangente e mais profunda. Esta realidade sempre se coloca fora do alcance das ciências. E é desta realidade que as religiões não podem abrir mão, sob pena de serem elas mesmas completamente desnudadas pelas ciências.

2. Decifrando o código genético

Não há como negar que vivemos hoje um momento ímpar, não só da história da humanidade, como até da história da Criação. Nunca como hoje a humanidade dispôs de tantos conhecimentos sobre os mistérios da vida e nunca teve tanto poder de interferência sobre eles. Por isto, se fôssemos dividir a história em três momentos, deveríamos dizer que o primeiro foi o de Deus; o segundo, dos seres humanos dominando o mundo externo com a técnica industrial; o terceiro é este, no qual somos capazes de montar e desmontar o código secreto da vida, criando e recriando seres novos, a nosso bel-prazer.3 Para compreendermos melhor este momento ímpar, convém, antes de mais nada, tomar consciência de que, em termos de biogenética, tudo tem uma lógica; em seguida, é preciso tomar consciência de que nos encontramos diante de uma realidade efetivamente nova; finalmente convém fazer uma tentativa de soletrar o “livro da vida”.

2.1. Os mistérios da vida contestam o acaso

Está claro que a humanidade sempre observou, com curiosidade, as manifestações da vida e, sobretudo, sua transmissão. Também está claro que ela sempre tentou entender o que se passava. Uns pensavam que maravilha tão grande só poderia ser atribuída a uma participação direta dos deuses. Já outros, muito cedo, buscaram a lógica da fecundidade nas “sementes vitais”. Nesta linha encontram-se Hipócrates, Aristóteles, Platão. A partir do século XVI, um certo número de pensadores começou a refletir de maneira mais sistemática, buscando a lógica que comanda todo o processo. Neste sentido, vale a pena dar atenção a uma frase atribuída a M. de Montaigne, em 1570: “Que coisa maravilhosa essa gota de semente da qual somos produzidos, que carrega consigo as impressões não apenas da forma do corpo, mas também dos pensamentos e das tendências dos nossos pais”. Neste período, com maior insistência, começam a ser colocados os primeiros pressupostos para a compreensão do código da vida, bem como para sua leitura: a questão consiste em buscar a lógica interna.4 Com isto, o caminho estava preparado para o monge Gregor Mendel elaborar cientificamente as leis da hereditariedade. Com isto também estava aberto o caminho para a moderna biogenética.

Entretanto, quando Mendel, em meados do século XIX, descobriu as leis da hereditariedade, não poderia nem imaginar que estava dando um passo decisivo para que a biogenética pudesse se transformar na vedete das ciências. A partir daí foi uma verdadeira corrida de caça ao tesouro dos genes. As esperanças de descobertas sensacionais foram sendo alimentadas ao longo do século XX, quando biogenética, biociências e biotecnologias conjugadas começaram a responder a algumas perguntas de cunho fascinante: o que são os genes? Onde se localizam os genes? Quantos são em cada espécie? Qual a função dos genes? Como proceder para curar algumas doenças terríveis que, pressupostamente, remetem para genes? Será que eles agem isoladamente ou em cadeia? Até que ponto sofrem influxos do meio ambiente?

Quando em 1953 Watson e Crick identificaram a estrutura básica do DNA (material genético constituído por ácidos e outros elementos químicos), eles descobriram a maneira como a própria vida se estrutura e se transforma. Na origem do DNA existem 4 bases de nitrogênio (adenina, timina, citosina e guanina) que se configuram como duas fitas sobrepostas, mas ligadas por duas outras bases horizontais (açúcar e fósforo). A partir daí fica claro o que Watson e Crick, indevidamente, denominaram de “dogma central” da biologia molecular: as informações contidas no DNA são transferidas para as proteínas, através de um ácido denominado RNA, uma espécie de mensageiro que garante a replicação das células. Ou seja, nada acontece por acaso; tudo tem uma razão de ser: o código estava decifrado.

 

2.2. Biogenética e biotecnologia: descobertas ou oitavo dia da criação?

A descoberta da lógica na transmissão da vida foi de uma importância decisiva. Entretanto, o maior salto em termos de biogenética só aconteceu em 1973, quando ocorreu a descoberta do DNA recombinante, ou seja, a possibilidade de fragmentar e reconstituir novamente uma molécula de DNA. Com isto, estava aberto o caminho para a maneira mais radical de interferência na conjugação da vida. A partir de então, a engenharia genética deixa de ser mera fantasia, para fazer parte do cotidiano dos laboratórios. Num misto de descoberta e criação a vida passa a ser monitorada e até gestada de uma maneira nunca vista. Tudo isto fascina e espanta ao mesmo tempo. Nunca os seres humanos dispuseram de semelhante poder: não apenas observam, tentam copiar o que acontece na natureza, mas passam a determinar o que deve continuar como era, e o que, no seu entender, deve mudar. Realmente é impossível responder se estamos diante de sensacionais descobertas ou se a nova realidade deve ser compreendida como uma espécie de oitavo dia da Criação.

A pergunta irrespondível se tornou mais aguda, sobretudo quando foram aparecendo os resultados do Projeto Genoma Humano. Este projeto, desenvolvido entre os anos de 1990 e 2000, não veio apenas fechar com chave de ouro um século e um milênio, mas se tornou o símbolo do terceiro e mais fundamental dos megaprojetos que marcaram o século XX. O primeiro ocorreu a partir de meados daquele século com a descoberta, o domínio e a utilização da energia nuclear; o segundo, a partir da década de 60 com satélites e astronaves povoando os espaços siderais e instalando pontos de apoio para a constituição de uma rede de comunicação que recobre toda a terra. O terceiro conseguiu reunir um acervo tão grande de informações sobre a vida que, apesar de toda a sofisticação tecnológica, serão necessários cerca de 30 anos para que tudo seja devidamente lido e analisado.

Destarte, deve-se dizer que o Projeto Genoma Humano, solenemente encerrado em meados de 2000, ao mesmo tempo em que confirmava de maneira cabal algumas pressuposições anteriores, desmentia outras. Confirmava que o corpo humano se organiza em sistemas autônomos e complementares (respiratório, sangüíneo, digestivo, muscular...); que o substrato invisível que sustenta o que aparece é constituído por 100 trilhões de células; que cada célula contém em seu núcleo um genoma completo, denominado DNA; que o genoma é constituído não apenas de cromossomos e genes, mas também por muitos outros elementos físico-químicos; que todo este material se articula através de uma espécie de programa de informática, que mantém a unidade e a pluralidade das funções... Mas, o mesmo Projeto Genoma Humano, além de localizar alguns cromossomos mais diretamente implicados em doenças de cunho genético, também desmistificou os próprios genes, na medida em que mostrou que o código genético é basicamente o mesmo em todas as espécies de seres vivos e que o número de genes não passaria de 30 mil, quando até então se falava em 100 mil.

Mas, o mesmo Projeto Genoma Humano deixou em aberto muitas outras questões que foram sendo respondidas posteriormente, e de maneira a contradizer o que se afirmava no encerramento do referido projeto.5 Assim, por exemplo, aquelas buscas foram insuficientes para responder por que apenas 3% dos genes exercem uma função específica (codificante) e por que os restantes 97% são não codificantes, ou seja, aparentemente inúteis. Mais: os cientistas que responderam pelo megaprojeto chegaram a falar de maneira depreciativa dos 97% de genes não codificantes, referindo-se a eles como “lixo genético”. Hoje, apenas quatro anos depois do encerramento do megaprojeto, já se sabe que aquele “lixo” carrega consigo uma gigamemória que possibilita recompor a história completa de um indivíduo e da espécie tanto para o passado, quanto para o presente, quanto para o futuro... O megaprojeto Genoma Humano também se enganou quanto ao número de genes: não são nem 100 mil, nem 30.000, mas, quem sabe, menos do que 20 mil na espécie humana. Isto sugere que, por mais maravilhosos que tenham sido, nenhum dos megaprojetos conseguiu descobrir tudo, muito menos organizar o oitavo dia da Criação. Um longo caminho já foi feito: um caminho bem mais longo ainda deve ser percorrido para se chegar verdadeiramente ao misterioso tesouro que comanda não apenas a vida humana, mas todas as formas de vida.

2.3. Já se pode soletrar no “livro da vida”

Apesar de eventuais protestos de um Sócrates e de outros filósofos que viam na passagem do pensamento e da palavra para a grafia uma espécie de desfeita para a memória e para a palavra vivas, muito cedo a humanidade foi buscando várias formas alternativas para a comunicação. Como substrato serviam pedras, pedaços de cerâmica, papiro e depois o papel. E se estes pensadores tivessem conhecido algum dos fluidos hipertextos, sem maior consistência, que podem ser continuamente feitos e refeitos sobre uma tela de computador, com certeza iriam protestar com maior veemência ainda. Mas, com certeza, também eles iriam alegrar-se com a constatação de uma espécie de volta ao ser vivo como sede primordial da linguagem; não só da linguagem humana, mas de todas as linguagens. Os seres vivos se apresentam como vivos enquanto se relacionam e se relacionam enquanto se comunicam pelas muitas formas de a palavra se expressar.

De fato, é pela vida manifestada em toda a sua complexidade que se pode recuperar a força paradigmática da palavra. Como diz muito bem Edgar Morin, a natureza humana é o paradigma perdido.6 As primeiras aproximações das duas linguagens, a da genética e a do livro, ocorreram no contexto da Segunda Grande Guerra. Ao mesmo tempo em que se desenvolviam as comunicações, desenvolviam-se as informações e contra-informações, códigos para proteger segredos e estratégias para desvendar códigos secretos. Pode-se dizer que a metáfora do programa genético se estruturou a partir da cibernética de N. Wiener, da teoria da comunicação de C. Shannon e dos primeiros computadores, produzidos sob a orientação de

J.V. Neumann.7

O fato é que, sobretudo com o desenvolvimento da informática, a metáfora da linguagem genética passou a fazer parte da linguagem comum tanto para o mundo da biogenética quanto para o das informações. O DNA já não é mais visto como algo de puramente físico ou químico, mas muito mais como informação e relação, que mantêm a atividade física e química. Os seres vivos não podem ser compreendidos simplesmente como superposição de unidades materiais, nem como átomos estáticos que formam uma complexa arquitetura molecular, mas devem antes ser compreendidos como relação dinâmica e criativa entre as partes. Quando acaba a relação surge a morte.8 Antes de se transformarem em algo, os próprios genes são um complexo de informações que, através das proteínas, viajam pelo espaço e pelo tempo para, num segundo momento, possibilitar a formação de tecidos e órgãos. Há algo que precede à materialização dos seres vivos, que é, exatamente, o que se poderia denominar de informação compactada. Esta se encontra nos genes e, a partir do momento da fecundação, inicia sua trajetória em direção ao seu objetivo.

Tudo isto obedece a um programa que regula esta complexa rede na qual tudo se conjuga com tudo e nada se confunde com nada. Assim, para ressaltar este aspecto dinâmico e relacional, passa-se a transpor lingüisticamente para a biogenética “letras”, “palavras”, “frases”, “períodos”, “parágrafos”, “capítulos”, “livros”, e até “bibliotecas” (genotecas). Há mesmo quem faça uma sinopse bastante sugestiva, mostrando uma simetria entre código verbal e código genético; entre os livros transcritos em papel e os transcritos na carne dos seres vivos.9 Assim se diz que o DNA é formado por quatro letras nitrogenadas; que as proteínas são formadas por 20 letras, os aminoácidos que a compõem; que a passagem entre os dois tipos de letras se dá na forma de uma tríade. O RNA é uma espécie de mensageiro que, após “decodificar” a mensagem contida nos genes, “passa” a mensagem adiante, para que os comandos sejam executados e as missões sejam cumpridas. Neste processo encontramos “transcrições” e “traduções”. “Corretores” automáticos cuidam da execução e intervêm imediatamente quando ocorrem eventuais erros. Tanto assim que a surpresa não consiste tanto em se encontrar eventuais erros genéticos, mas exatamente em eles serem, proporcionalmente, tão poucos: entre bilhões e bilhões de seres vivos, uns relativamente poucos não se “enquadram” perfeitamente dentro daquilo que nós, arbitrariamente, classificamos de “normal” ou “anormal”.

Tanta sintonia e simetria chegou a entusiasmar grandes especialistas do campo da lingüística. Este foi o caso, sobretudo, de Roman Jakobson e de Lévi-Strauss. O primeiro chega a colocar uma hipótese audaciosa, segundo a qual o código verbal poderia revelar-se como sendo vinculado ao código genético.10 A estrutura profunda da linguagem poderia remeter para células vivas. Neste sentido, a linguagem bioquímica seria uma espécie de protolinguagem. Na mesma linha Lévi-Strauss defende a idéia de uma linguagem universal inscrita no genoma. O código genético funcionaria como protótipo absoluto: a linguagem articulada seria a ressonância desta linguagem original e originante.11

Entretanto, considerando-se que a biogenética passou a ser sempre mais associada à biotecnologia e que esta pressupõe empresas gerenciadas com mentalidade empresarial, não causa espanto que após algum tempo cientistas de cunho pragmático começassem a sentir-se incomodados com esta proximidade. A própria metáfora da linguagem parecia contestar certas pressuposições de cunho materialista de alguns dos grandes nomes da cibernética (controle e comunicação) e da biogenética. É que, ao se falar em programa, sobretudo no contexto da origem da vida, logo surge a incômoda pergunta sobre o programador; na medida em que se constatam fatos que demonstram uma articulação fantástica onde cada componente mantém identidade própria, mas agindo em rede, fica difícil fugir da questão do sentido último de tudo isto. Alguns, seguindo a tônica de Jacques Monod, vão falar de “acaso e necessidade”.12 Mas questões tão profundas requerem maior diligência. Afinal, diante de um enredo fascinante, não há como fugir da pergunta vital: mas afinal, quem escreveu o livro da vida?13 De nada adianta seqüenciar genes, fazendo uma leitura material, se a questão central do significado não for devidamente respondida.

3. Em busca do significado: no princípio era a Palavra

À primeira vista, a aproximação entre linguagem e genética pode parecer surpreendente. Como pode parecer surpreendente juntar matéria e espírito, física e química, ciência e teologia. Mais estranha ainda pode soar a preocupação com um eventual significado profundo que possa estar oculto por trás do DNA. Entretanto, estamos convencidos de que é exatamente esta a questão que se encontra subjacente nas tensões que hoje se manifestam entre certos setores da biotecnologia e as igrejas cristãs. Para iluminá-la convém partir da linguagem em suas várias expressões, ressaltando, sobretudo, a linguagem metafórica, também encontrada na Bíblia. Mas quando se fala de linguagem bíblica não se pode deixar de perceber a impressionante força criadora da Palavra de Deus. Quem sabe seja nesta direção que devemos procurar o significado: uma vez decifrado o código, vem a pergunta sobre a “chave”. Pois, para chegar a um tesouro escondido não basta dispor do número do código: é preciso encontrar uma “chave” para se ter acesso ao interior do cofre, onde se encontra o tesouro. No passado, a “chave” era uma evidência; hoje, é preciso procurá-la com muita atenção.

3.1. A força da linguagem metafórica

Falar de informação, de comunicação, de símbolos, de sinais, de linguagem significa sempre mergulhar numa série de distinções, de aproximações e afastamentos.14 Mas, na raiz desta dificuldade parece colocar-se a questão da linguagem como tentativa de expressão do ser. Sem linguagem o pensamento permanece im-per-feito, incompleto e inarticulado.15 Devemos dizer que a linguagem é a “casa” do ser, mas que estamos sempre “a caminho da linguagem”, pois ela também é algo de transitório.16 Ademais, é preciso distinguir entre uma linguagem unívoca, pouco adequada para falar das coisas de Deus, e uma linguagem analógica. A linguagem analógica carrega consigo algo de apropriado e algo de não apropriado. Ela se aproxima da realidade, mas sem identificar-se. Por isto mesmo, a analogia é uma linguagem que tende a falar das coisas mais profundas, e até mesmo transcendentes. Por isto é privilegiada para evocar mistérios.17

É nesta altura que vamos encontrar as metáforas: elas fazem parte das analogias. A linguagem metafórica trabalha com imagens que se articulam com o nosso inconsciente, trazendo à tona aquilo que é real, mas não visível, nem palpável. É, portanto, por esta característica de serem capazes de nos transportar para além das coisas (meta-ferein = levar para além) que as metáforas se apresentam como a linguagem mais adequada para traduzir a experiência da fé e alimentar a espiritualidade. Podemos até dizer que as metáforas são imagens sensíveis que nos elevam até Deus. “Para os místicos o mundo todo é uma grande metáfora de Deus... Tudo nele faz lembrar outra coisa. Tudo é sinal e sacramento de Deus...”18 Daí se entende por que “a revelação nos chegou pelo caminho real das metáforas”.19 E de fato, a Bíblia se utiliza continuamente de metáforas para nos falar de Deus. Assim, Deus vai ser apresentado como rei, juiz, pastor, esposo, pai; Cristo é comparado ao cordeiro, ao pão, à porta...; o Espírito se mostra na forma de pomba, fogo, vento, água; a Igreja é como edifício, rebanho, corpo, esposa, povo; o Reino, que já é metáfora, é como um tesouro escondido, pérola, fermento, rede de pescar, banquete...; o céu é como uma cidade, um jardim, uma festa. Deus não é nada disto, mas estas metáforas nos falam de maneira muito profunda sobre Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Através destes mesmos exemplos fica claro que, em nenhuma hipótese, podemos confundir metáfora com realidade. A metáfora apenas representa, esquematiza e simboliza uma realidade. A metáfora não tem razão de ser em si mesma: ela apenas serve de ponte. Nem por isto deixa de se apresentar com uma importância decisiva para chegarmos até onde ela quer nos conduzir: a uma realidade presente e atuante, mas obscurecida por uma série de fatores. Daí a importância da linguagem metafórica não só para a teologia, mas também para a própria biologia.20 Esta importância fica mais evidenciada quando temos presente algumas distorções que vão emergindo no calor das sensacionais descobertas no campo da biogenética. Uma das distorções consiste numa atitude reducionista que absolutiza a dimensão genética, deixando de lado outras dimensões da vida: meio ambiente, afetividade, economia, política, religião... Outra distorção consiste em confundir a complexidade da vida com meros programas de informática, por mais impressionantes que também estes sejam. O risco é confundir o símbolo com a realidade. Nunca se pode esquecer que a metáfora do “programa” não passa de um antropomorfismo. A metáfora serve enquanto abre caminho para chegarmos à força criadora que faz aparecer e sustenta a vida.

3.2. A força criadora da Palavra de Deus

A Palavra de Deus se constitui na fonte primeira da Revelação cristã. Esta Palavra é, antes de tudo, uma Palavra “falada”, que ecoa como voz de alguém. O Deus da revelação é um Deus que “fala”, “pronuncia todas as palavras” (Ex 20,1), dialogando com as lideranças e com todo o Seu Povo. Ele ordena aos profetas que “falem”. Pois é pela palavra que se pode conhecer algo de Deus e de seus planos. Em Jesus, este Deus e estes planos se tornam mais próximos. Ele não só “anuncia a Palavra” (Mc 4,33), como o faz “com autoridade” (Mc 1,22). Em Jesus, a Palavra de Deus ecoa de muitas maneiras, tanto na sua expressão corporal, quanto verbal. São estas palavras que se encontram na origem dos Evangelhos e demais escritos que constituem a Bíblia, Palavra de Deus.

Este mesmo Deus, contudo, é também um Deus que manda “escrever” (Ex 17,14) e entrega, “gravadas” em pedra, as Dez Palavras da Vida, os comumente denominados mandamentos (Ex 24,12; 31,18; 32,16): “eram placas de pedra, escritas com o dedo de Deus”. Nestas Dez Palavras estão contidos os segredos da vida. Existe um caminho da vida e um caminho da morte: o caminho da vida é mostrado pelas Dez Palavras. Ainda que Jesus nada tenha escrito e nada tenha mandado escrever, seus seguidores sentiram-se impelidos a recolher documentos e a colocar, ordenadamente, por escrito, tudo o que testemunharam e ouviram testemunhar (Lc 1,1s). Ou seja, Deus se comunica com seu povo, tanto através da palavra falada, quanto escrita. Contudo, tanto por trás de uma quanto da outra se encontra Alguém que não apenas indica o caminho que leva à vida, mas faz surgir a própria vida.

É nesta direção da força criadora da Palavra de Deus que vamos encontrar a mais profunda expressão da metáfora do “Livro da Vida”. “Pois Ele falou e assim aconteceu; Ele mandou e assim se fez” (Sl 32,9). Mesmo deixando de lado o concordismo fácil que traçaria um paralelo entre os genes e o livro do Gênesis, não se pode deixar de perceber algo de muito impactante no primeiro relato da Criação: tudo é criado através da força da Palavra de Deus.21 Com efeito, no vazio do início dos tempos, por dez vezes ressoa a voz de Deus ordenando que apareçam as várias realidades, e elas vão surgindo, uma a uma, do nada, ou seja, através de um simples “disse”. Disse Deus: faça-se a luz, e a luz foi feita; disse Deus: faça-se o firmamento, e assim se fez; disse Deus: juntem-se as águas, e assim se fez; disse Deus: façam-se as sementes, e assim se fez; disse Deus: façam-se os luzeiros, e assim se fez; disse Deus: fervilhem as águas de seres vivos e voem pássaros sobre a terra, e assim se fez; disse Deus: produza a terra seres vivos segundo as espécies, e assim se fez; disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança, e assim se fez; disse Deus: sede fecundos e multiplicai-vos, e assim se fez; disse Deus: eis que vos dou o alimento, e assim se fez.

Certamente, todas e cada uma das 10 palavras se revestem de uma eficácia impressionante. E, contudo, com certeza não pode passar desapercebida uma nuance importante, na quarta Palavra, quando surgem sementes sobre a terra e de acordo com suas espécies. É nesta altura que a metáfora parece ir além de uma simples sugestão, para se transformar numa espécie de revelação de algo bem mais consistente: uma mensagem imaterial e invisível veiculada por uma molécula biológica.22 Ao que tudo indica foi em algo de semelhante que Santo Agostinho (354-430) pensou quando no seu tratado sobre “o Gênesis em sentido literal” fez a distinção entre dois tipos de sementes. Partindo de uma compreensão de origem estóica, mas assimilada por vários Padres da Igreja antiga, o “logos spermatikós”, Santo Agostinho apresenta a distinção entre um germe corporal e uma força invisível que impulsiona o desenvolvimento da semente.23

Curiosamente, numa de suas obras, Santo Agostinho chega a falar da “força” que se esconde na semente, como que sugerindo um núcleo vital que se esconde na própria semente.24 Assim, criando a semente com um núcleo, Deus cria a história, pois pela semente se renova continuamente o ato criador no espaço e no tempo: a semente faz per-durar a obra do Criador, fazendo a ponte entre o passado mais remoto, o presente e o futuro mais distante. A semente pereniza a vida. De fato, cada semente traz no seu código genético uma espécie de selo onde Deus gravou suas marcas com tal profundidade que elas não se apagam, mesmo com o passar das gerações. Através de uma memória prodigiosa e de uma programação que garantem a identidade e a originalidade de cada ser, as espécies não apenas sobrevivem, mas se multiplicam, num contínuo e criativo processo de impressão e reimpressão, de modo semelhante ao que ocorre na produção de um livro que se encontra na memória de um computador. Desta forma, o código genético poderia ser considerado como uma espécie de assinatura feita pelo indicador de Deus: o dedo de Deus indexado.25

3.3. Decifrado o código: onde se encontra a chave?

Se considerarmos o código genético apenas sob os prismas físico e químico, não há dúvida de que, ao menos em parte, ele já foi decifrado. Embora a cada dia surjam novas descobertas, e com elas novas interrogações, grandes passos foram dados para a leitura do código de um sempre maior número de espécies. Entretanto, é nesta altura que se coloca, com força, a questão do sentido de tanto empenho e do significado daquilo que se descobre. Como sugerimos, o sentido último aponta para o Criador. Mas este sentido será melhor desvelado na medida em que o olharmos sob diversos prismas, sobretudo os da Revelação e da Criação.
Ao falarmos da revelação, não podemos deixar de perceber que a própria Palavra de Deus pressupõe que Deus se revela continuamente, revelando-se em Seu Filho Jesus na plenitude dos tempos. Contudo, o mesmo Deus que se revela é também um Deus que se vela; o Deus presente é ao mesmo tempo um Deus ausente; o Deus que fala é ao mesmo tempo um Deus que se cala. Como bem expressa o profeta Isaías, nosso Deus é um “Deus escondido” (Is 45,15). Esta teologia negativa é tão legítima quanto a positiva. A negativa afirma com força o quão pouco sabemos de Deus; a positiva, o quanto Ele já nos revelou sobre si mesmo e sobre seus projetos; uma aponta para o muito que sabemos e a outra para o muito que nos resta saber, não somente sobre Deus, mas também sobre nós mesmos. Como diz Pascal: “não sei quem me colocou no mundo, nem o que é o mundo, nem o que eu sou...”26 Este desconhecimento e conhecimento apontam para duas fontes: a Bíblia e a natureza, que canta a glória do Criador (Sl 8). Assim, poder-se-ia falar que, na realidade, estes são dois livros que nos falam de Deus.

Interessante neste particular um pensamento de um filósofo do século XVI, Raymond de Sebond, segundo o qual “Deus nos deu dois livros: aquele da ordem universal das coisas ou da natureza, e aquele da Bíblia. O da natureza nos foi dado primeiro, desde a origem do mundo..., porque cada criatura é como que uma ‘letra’ saída da mão de Deus...”27 Não vem ao caso seguir o caminho das muitas formas de cabala, que, ao longo dos tempos e em obras diversas, tentam mostrar que toda a Criação decorre das quatro letras (tetragrama) do nome de Deus YHVH: ao dar um nome para cada um dos seres criados, Deus chama cada ser e imprime em cada um deles as letras de Seu nome. Como diz o profeta Isaías, “Ele conta e põe em marcha o seu exército de astros, chamando a cada um pelo nome: tão amplo é seu poder e irresistível sua força que nenhum deles falta à chamada” (40,26). Assim, a matriz original seria composta pelas quatro letras do nome de Deus, figuradas no DNA, e a diversidade dos seres seria resultante de uma combinação infinita das letras do alfabeto.28

A Revelação levada adiante pela natureza criada e pela Palavra escrita, contudo, pressupõe um ponto de partida e um ponto de chegada. Este ponto de partida não se encontra na própria Criação, pois existe antes dela. Também não vai terminar no final dos tempos, apenas será completada e transformada. E é nesta altura que vamos encontrar o Cristo como o Primogênito de toda a Criação. Com efeito, “Ele é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura; porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis... Ele é antes de tudo e tudo subsiste nele” (Cl 1,15s; Hb 1,6). É também à luz deste Primogênito que a criação do ser humano se torna mais compreensível: “Antes da criação do mundo Ele nos escolheu em Cristo”... (Ef 1,4s). Desta forma, o ser criado “à imagem e semelhança de Deus” se reveste de contornos mais nítidos no “sim” e no momento do “sim” de Maria, quando o Primogênito assume a condição humana. Como diz São Justino (séc. III), todas as sementes emanam da Palavra criadora, que encontra sua vitalidade na “semente do Verbo que se encontra presente em todos os seres humanos”.29 “O logos é o programa dos programas”.30 Assim, através da Palavra divina que é única na sua essência, se manifesta a imensa variedade das criaturas. Todas procedem da mesma linguagem e só se tornam compreensíveis à luz da sua origem primeira. Todas estas colocações vão atingir o seu ápice no Prólogo de São João: “No princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus... Todas as coisas foram feitas por meio dela e sem ela nada se fez do que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos... E a Palavra se fez carne e habitou entre nós...” (Jo 1,1-4.14).
Conclusão

O uso da metáfora do livro em biogenética não procede da teologia, e sim da própria biogenética. Mas, na exata medida em que a leitura da biogenética passou a ser sempre mais reducionista e materialista, uma leitura teológica começa a se impor como algo de absolutamente necessário, para que tantas descobertas e tanto poder não se voltem contra, mas a favor da vida. Pois, afinal de contas, de nada adiante conhecer tudo sobre os genes benéficos e maléficos, “expressar” ou “silenciar” genes visando curas quase miraculosas, se não for conhecido o sentido da vida. A questão não está em viver muito ou pouco, mas no como se vive. E ninguém vive somente de genes saudáveis. É preciso ir além dos genes. A vida saudável requer bons hábitos, boas condições sociais, políticas, econômicos, psicológicas, religiosas... Requer, sobretudo, um sentido de vida. Este sentido pode ser oferecido pelas religiões. Lendo de maneira invertida um pensamento atribuído a Albert Einstein, podemos dizer que a religião sem a ciência claudica; a ciência sem a religião é cega.

Este tipo de leitura que tentamos não deveria causar nenhuma estranheza para quem conhece a Bíblia e a maneira como os Padres da Igreja faziam sua hermenêutica: além de um sentido literal, eles sempre buscavam outros sentidos, de cunho mais espiritual. Sem perder de vista dados estritamente científicos, esta leitura deverá apontar para outra maneira de entender o “código” e também oferecer a “chave” que permita abrir mais amplamente a porta do sacrário da vida em suas múltiplas manifestações. O “código” secreto da vida não vem escrito nem em papiro, nem em papel, nem em pedra (Ex 31,18): Deus o gravou, com o seu dedo, na carne viva. A “chave”, por sua vez, está nas mãos do Primogênito de toda a Criação. Jesus Cristo não apenas anuncia o Evangelho da Vida, mas comunica a vida divina, porque “nele está a vida” (Jo 1,4). E é nesta linha que a teologia pode dar uma contribuição decisiva num momento tão ímpar da história. Nunca como agora o mistério sugerido por Michelangelo na monumental pintura da Criação que se encontra na Capela Sistina, em Roma, se colocou com mais força. Os avanços da biotecnologia, seja como conhecimento, seja como capacidade de interferência, parecem querer separar definitivamente Adão de Deus, a criatura do Criador. Por isto mesmo, é urgente tentar entrever o sentido do espaço deixado entre o indicador de Adão e o indicador de Deus. O artista sugere, ao mesmo tempo, distância e proximidade, semelhança e diferença. É neste espaço misterioso que se coloca o Filho de Deus, unindo carne e espírito, humanidade e divindade.

Notas

1. Beda RIGAUX e Pierre GRELOT, Mistério, em: Vocabulário de Teologia Bíblica, 7a ed., Vozes, Petrópolis 1992.

2. B. NEUNHEUSER, Mistério pascal, em: Dicionário de Liturgia, Paulinas/Paulistas, São Paulo/Lisboa 1992, 76.

3. A. MOSER, Biotecnologia e Bioética: para onde vamos?, 2a ed, Vozes, Petrópolis 2004, 266.

4. Na busca do fio condutor da biogenética, vale a pena também dar atenção a um grupo de filósofos dos séculos XVI e XVIII. Entre estes convém destacar Francis Bacon (1561-1626), René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1642-1727). Estes foram alguns filósofos que colocaram os pressupostos de uma lógica interna que comanda os mecanismos da vida. Descartes, que tem um tratado sobre a formação do feto, acentua que, se conhecêssemos cada parte das sementes da vida, poderíamos deduzir, de maneira matemática, a configuração dos corpos no seu todo ou em suas partes (G. BÉNICHOU, Le Chiffre de la Vie, Seuil, Paris 2002, 62). Radicalizando esta compreensão, vamos encontrar um La Mettrie (1709-1747) afirmando, com todas as letras, que os corpos dos seres vivos funcionam como uma “máquina”, mais precisamente como um relógio. Estava aberto o caminho para alguns pesquisadores como Leeuwenhoek, Graaf e Lamarck irem, pela observação do microscópio, tirando as primeiras conclusões de cunho verdadeiramente científico. Bastou que Lamarck (1744-1829) e Darwin ressaltassem o influxo do meio ambiente, para que se chegasse a uma teoria plausível da “Origem das espécies” (Darwin 1859).

5. A. MOSER, Biotecnologia..., op. cit., 77s.

6. E. MORIN, Le Paradigme perdu: la nature humaine, Seuil, Paris 1973, 25-30.

7. Nomes e obras que devem ser lembrados neste contexto: Norbert WIENER (1894-1964), considerado um dos pais da “cibernética” e da teoria das comunicações, mormente através do livro Cybernetics: or Control and Communications in the Animal and the Machine, MIT Press, Cambridge, Mass. 1961; Claude Shannon, que desenvolve uma teoria matemática da comunicação; John von Neumann (1903-1957); Erwin Schrödinger, num célebre livro que já no título apresentava uma questão crucial: o que é a vida (What is life?). Sobre isto: G. BÉNICHOU, op. cit., 23s; Céline LAFONTAINE, L’empire cybernétique. Des machines à penser à la pensée machine, Seuil, Paris 2004, 21s.

8. A. DANCHIN, La barque de Delphes. Ce que révèle le texte des génomes, Ed. Odile Jacob, Paris 1998, 59s; G. BÉNICHOU, op. cit., 20.

9. G. BÉNICHOU, op. cit., 42.

10. Roman JAKOBSON, Vie et langage, trad. de Pierre Jacob, em: Dialectiques, PUF, No 7, Paris 1974, 67s; IDEM, La linguistique et les sciences naturelles, em: Essais de linguistique générale, Minuit, Paris 1973.

11. C. LÉVI-STRAUSS, L´Homme nu, Plon, Paris 1971, 613.

12. J. MONOD, Le Hasard et la Nécessité, Seuil, Paris 1970 [Trad. port.: O acaso e a necessidade, 4ª ed., Vozes, Petrópolis 1989].

13. L.E. KEY, Who wrote the Book of Life? A History of the Genetic Code, Writing Science, Stanford University Press, California 2000.

14. J. MARQUES DE MELO, Teoria da comunicação: paradigmas latino-americanos, Vozes, Petrópolis 1998; B. MIÈGE, O pensamento comunicacional, Vozes, Petrópolis 2000.

15. C. BOFF, Teoria do método teológico, 2a ed., Vozes, Petrópolis 1999, 297. Em tudo o que segue sobre a linguagem atemo-nos, por vezes verbalmente, a este livro, 327s.

16. M. HEIDEGGER, A caminho da linguagem, Vozes e Editora Universitária São Francisco, 2a ed., Petrópolis e Bragança Paulista 2004, 196 e 215.

17. ID., ibid., 313 e 350.

18. ID., ibid., 336.

19. ID., ibid., 331.

20. E. FOX-KELLER, Le rôle des métaphores dans les progrès de la biologie, Paris 1999.

21. G. BÉNICHOU, op. cit., 90s.

22. ID., ibid., 60.

23. La Genèse au sens littéral, livre dixième, XX, 35-37, Desclée de Brouwer, Paris 1972, 209s.

24. SANTO AGOSTINHO, De Trinitate, III, VIII, 13, Desclée de Brouwer, Paris 1955, 296 (Trad. brasileira: A Trindade, Paulus, São Paulo 1995, 124-126).

25. G. BÉNICHOU, op. cit., 87s. “Quand on est instruit, on comprend que la nature a gravé son image et celle de son auteur dans toutes choses” (B. PASCAL, Pensées, 72, Léon Brunschvicg, Paris 1976, 66).

26. B. PASCAL, Pensées, 194, op.cit., 104.


27. G. BÉNICHOU, op. cit., 94s.

28. ID., ibid., 97s.

29. SÃO JUSTINO, Apologias, II, 7, 2-3 [Trad. brasileira, Justino de Roma. I e II Apologias, Diálogo com Trifão, Paulus, São Paulo 1995, 98].

30. P. HADOT, Histoire de la philosophie, Pensées fondatrices, t. I, Armand Colin, Paris 1993, 74.

Fonte: Revista Eclesiástica Brasileira – www.itf.org.br

 

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