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A teologia em ritmo do Papa Francisco

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Síntese: A boa-nova da Vida em todas as suas formas e em todas as suas fases é o horizonte do Autor. O ser humano a quem foi confiada a busca de caminhos de Vida, bem como a administração da mesma, nos últimos tempos, graças ao vertiginoso e rápido desenvolvimento das ciências e das tecnologias, particularmente das ciências relacionadas à genética e às biotecnologias, conhece um poder que anteriormente não conhecia: o biopoder, motivador de esperança e de assombro a todos que entendem de humanidade. Esperança e assombro, porque este poder está sujeito à ambiguidade do ser humano, que pode tanto utilizá-lo seja para o bem seja para o mal. Neste contexto, a Igreja, partilhando o realismo que lhe vem da sabedoria da cruz e da ressurreição de Jesus e os esforços de todas as pessoas de boa vontade, apresenta-se como Igreja do “sim” em relação aos avanços científicos e tecnológicos sabiamente comprovados e abertos à complexidade e às maravilhas da Vida. Embora sem haver abordado ainda estas questões, o Papa Francisco dá uma tônica eminentemente positiva na linha de uma Igreja que sorri para a vida e as conquistas humanas.

Palavras-chave: Vida. Genética. Biotecnologias. Ética. Diálogo.
Abstract: The good tidings of Life in all its forms and in all its phases are the Author’s horizon. The human being to whom the search for the paths of Life, as well as for its administration were trusted, in view of the vertiginously rapid scientific and technological development that has happened in the last few years, particularly in the genetic and biotechnological sciences, now is aware of a power previously unknown: this power is bio-power, a reason for hope and astonishment to all those who understand mankind. Hope and astonishment, because this power is subjected to the human being’s ambiguity, and may be used for good or for evil. In this context, the Church, sharing the realism that comes to it from the wisdom of the cross and Jesus’ resurrection and from the efforts of all people of good will, presents itself as the Church of the “yes” with regard to the scientific and technological developments wisely proved and open to the complexity and wonders of Life. Even before dealing with these issues, Pope Francis gives an eminently positive tonic to the line of a Church that smiles to Life and to the human achievements.
Keywords: Life. Genetics. Biotechnologies. Ethics. Dialogue.


Sem recuar nada em termos doutrinários, diante dos mais recentes avanços em todos os campos do saber e do poder, importa apresentar a Igreja do “sim”.

Introdução
Quando analisamos o relacionamento entre religião e medicina, ciência e fé sob o ponto de vista histórico, constatamos, facilmente, que há períodos de grande convergência, períodos de oposição radical e períodos de um saudável diálogo entre representantes de diferentes concepções. No contexto do período imediatamente posterior ao Concílio Vaticano II, sob a inspiração da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, o diálogo parecia não apenas possível, mas até relativamente fácil: as eventuais divergências não impediam frutuosos debates. Hoje, com o avanço da genética e das biotecnologias, passamos a sentir tensões crescentes, ainda que localizadas em certas áreas e com certos grupos de pesquisadores ligados a empresas de biotecnologia. Os pontos mais sensíveis coincidem com a fase inicial e final da vida humana, mas apresentam reflexos sobre todas as fases e sobre todas as manifestações da vida.
Há países, como o Brasil, onde o choque de posições se tornou mais acirrado. A campanha maciça levada adiante nestes últimos anos para obter a aprovação da denominada Lei de Biosegurança, que envolve transgênicos e embriões, não deixa margem para dúvidas: aqui existe uma bem montada estratégia para apresentar a Igreja Católica, de modo especial, e as demais igrejas e religiões, de modo geral, como expressões do obscurantismo anticientífico. Armou-se assim uma espécie de oposição sistemática entre ciência e fé. A primeira seria o símbolo de felicidade, ancorada no progresso; a segunda seria o símbolo de uma concepção sado-masoquista, que, por motivos religiosos tidos como retrógrados, não quer colaborar na cura de tantas pessoas portadoras de doenças de cunho genético.
Por outro lado, embora de maneira por vezes distorcida, quase todos parecem conhecer as posições oficiais da Igreja Católica. Esta é vista como a Igreja dos “nãos”. O que poucos conhecem são as razões mais profundas que a impelem a assumir estas posições. Por isto mesmo, parece ser mais conveniente trabalhar nesta linha, tanto de um ponto de vista teológico, quanto pastoral. Hoje, deveríamos fazer algo de parecido com o que ocorreu por ocasião do Vaticano II: um “aggiornamento” de linguagem, que, sem transigir em termos doutrinários, manifeste sua alegria com as reais conquistas existentes nos campos da genética e das biotecnologias, assegurando assim pontes para que, em todas as circunstâncias, seja preservada e promovida a dignidade humana. Ademais, os pontos de tensão são bem localizados. O que é preciso é ressituar as questões, agravadas com os avanços das biotecnologias. Este deve ser o primeiro passo.
Entretanto, ao mesmo tempo em que ressituamos as questões, torna-se indispensável reapresentar as razões de nossa fé, muitas vezes ignoradas e nem sempre apresentadas de maneira inteligível para o mundo de hoje. Para perceber melhor estas razões, é preciso colocar em evidência o que está em jogo: nós nos encontramos diante de concepções bem diferentes em relação ao sentido da vida, à sexualidade, ao matrimônio, à saúde, à doença, ao sofrimento, à realização humana, ao convívio com as demais criaturas... Este deverá ser o segundo passo.
O passo seguinte diz respeito à busca de uma estratégia para enfrentar este evidente choque de concepções de fundo. Esta estratégia, certamente, deve ir no sentido dos vários documentos do Magistério da Igreja, tais como Gaudium et Spes, Humanae Vitae, Evangelium Nuntiandi, Donum Vitae, Fides et Ratio e, sobretudo, a Evangelium Vitae. Parece que, justamente agora, quando se celebra o quadragésimo aniversário da Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, devemos ser portadores da alegria e da esperança, mesmo diante de uma nova realidade tão cheia contradições. Embora, por fatores múltiplos, talvez já não sejamos considerados como detentores do mesmo protagonismo histórico de décadas passadas, importa que nos apresentemos mais como a Igreja do “sim” do que a Igreja do “não”. Afinal, somos mensageiros da Boa Nova e detentores da certeza de que quem conduz a história é o Cristo Ressuscitado. Em vez da guerra, importa instaurar um diálogo sempre mais profundo com o mundo de hoje, onde genética e biotecnologias revelam ao mesmo tempo as maravilhas dos mistérios da vida e a responsabilidade inaudita confiada por Deus aos seres humanos: a de, progressivamente, administrarem, com sabedoria, toda a obra criada, inclusive o patrimônio genético de todos os seres vivos.

1. Onde se localizam as tensões entre fé e biotecnologias

Questões ligadas à vida costumam provocar reações veementes, seja a favor, seja contra. Para nos colocar no pressuposto clima de diálogo da Gaudium et Spes, convém ter muito presente as palavras de incentivo encontradas nos documentos eclesiásticos acima referidos: são de reconhecimento diante dos reais progressos em benefício da humanidade. Basta ler esta frase encontrada na Donum Vitae, na mesma direção de outros documentos eclesiásticos: “tanto a pesquisa científica de base, quanto a aplicada, constituem uma significativa expressão do senhorio do homem sobre a Criação” (Introdução, 2, p. 9; GS, 34; Humanae Vitae, 18; Catecismo da Igreja Católica, n. 2293). Com isto, em tese, tudo poderia parecer muito tranquilo.
Entretanto, só repetidas afirmações positivas não bastam para propiciar um diálogo produtivo. O diálogo pressupõe que se localizem melhor os pontos de discordância, para fugir da impressão de um concordismo fácil ou, então, de um confronto generalizado entre ciência e fé. Se olharmos com cuidado, perceberemos que os pontos de tensão, no momento, indicam prioritariamente para as fases iniciais; ocasionalmente estas tensões trazem à tona a fase final da vida; sempre estão no centro pessoas portadoras de necessidades especiais e fragilizadas. Em nome da vontade de minorar os sofrimentos, estas pessoas servem, muitas vezes, como biombo para justificar procedimentos injustificáveis, tanto em relação aos nascituros, quanto em relação aos moribundos. E, se formos mais à fundo na pergunta dos porquês de tanta insistência justificando o uso de células tronco embrionárias para fins ditos terapêuticos, perceberemos sempre a mesma lógica: a vida em condições frágeis é manipulada em nome do progresso e do bem-estar dos que detêm o biopoder. O grande horizonte a partir do qual devem ser lidas as tensões localizadas é sempre aquele apresentado pela Evangelium Vitae: existe uma cultura da morte, e nós deveremos ajudar na construção de uma cultura da vida.
1.1 Genética e Biotecnologias: transpondo novas fronteiras
Desde sempre, os seres humanos se defrontaram com novos desafios e, desde sempre, foram construindo sua história através de gestos cotidianos e gestos de ousadia inovadora. Uma espécie de rebeldia contra os limites foi possibilitando a transposição de fronteiras tidas como intransponíveis. Destarte, foram sendo vencidas as barreiras das montanhas, dos rios, dos mares e dos ares. Foi assim também que foram vencidas algumas limitações humanas, num processo de avanços e recuos, mas onde certos avanços acabam por se configurar como conquistas definitivas, seja na linha dos conhecimentos, seja na linha de transformações mais profundas.
Em todo este processo de conquistas, para além do contexto geral, percebe-se a existência de ao menos um duplo apoio: o das ciências e o das tecnologias. Tanto uma quanto a outra conhecem várias etapas, desde as mais incipientes até as mais sofisticadas. Em ambos os casos, convém lembrar ao menos dois marcos que imprimem não apenas acúmulo de conhecimentos e técnicas, mas velocidade e segurança crescentes nos empreendimentos. O primeiro marco, sempre inacabado, é a revolução industrial; o segundo é o que estamos vivenciando, sobretudo nestes últimos decênios: a revolução biotecnológica. Por mais que se deva valorizar o passado, não se pode deixar de reconhecer que agora existe algo de verdadeiramente novo: por um acervo nunca visto de conhecimentos e por técnicas de sofisticação sem precedentes, conhecimentos genéticos e biotecnologias estão possibilitando o rompimento do último lacre que esconde e preserva os mais profundos segredos da vida na terra.
Tudo isto vai gerando simultaneamente perspectivas e temores cada vez mais acentuados. As perspectivas apontam para diagnósticos mais precisos e até eventuais curas de pessoas portadoras de doenças até há pouco tidas como inexplicáveis e incuráveis. As perspectivas apontam ainda para melhorias significativas na agroindústria e na economia em busca de novas fontes de energia. Os temores apontam para o biopoder, concentrado em empresas e grupos que, literalmente, podem decidir quase tudo sobre a vida e sobre a morte. A descoberta do DNA como molécula responsável pela transmissão das características genéticas, bem como a possibilidade de “recortar” e “ colar” novamente pedaços de DNA, abriram caminho não apenas para a denominada reprodução assistida em laboratório, mas até para a miscegenação de núcleos de células de espécies diferentes. Com isto manipulação genética profunda deixou de ser mera possibilidade, para se tornar sempre mais uma realidade que interfere no cotidiano.
Ora, este novo quadro que vai se desenhando a cada dia com maior nitidez e rapidez está passando a impressão de que vai se erguendo uma barreira, desta vez intransponível, entre ciência e fé. Por isto mesmo, mais do que reafirmar posições doutrinárias e teológicas, sobejamente conhecidas, torna-se imprescindível localizar melhor os pontos de tensão. Ainda que tragam consigo concepções mais globais sobre o sentido da vida e da morte, ao que tudo indica, estes se encontram mais concentrados sobre alguns aspectos das fases iniciais e finais. O grande quadro é o da denominada reprodução humana e o da morte “assistidas”. No primeiro caso, destacam-se questões relacionadas com o estatuto do embrião e com o que, eufemisticamente, se denomina de “antecipação” do nascimento, sobretudo no caso de anencéfalos e outras más formações. No segundo caso, destacam-se os esforços por manter vivas pessoas consideradas importantes de um ponto de vista político, e, paradoxalmente, o esforço por apressar a morte de outras pessoas, seja por se haver transformado num peso, seja por haver manifestado o consentimento. Tanto no que se refere à fase inicial quanto no que se refere à final, o que importa aqui é simplesmente sinalizar novos aspectos decorrentes dos avanços biotecnológicos e que colocam novas tônicas de cunho ético.
1.2 Três ângulos da fase inicial
As discussões sobre o momento exato da animação dos seres humanos são muito antigas e praticamente percorrem toda a história. Contudo, na exata medida em que as leis da hereditariedade de Mendel foram abrindo novos caminhos no campo da genética, estas discussões se tornaram ainda mais acirradas. Os avanços das biotecnologias transformaram questões até certo ponto teóricas em questões de vida e de morte. No grande quadro de fundo da transmissão da vida humana em laboratório vão assumindo destaque o congelamento de embriões e a sexagem, o uso de células embrionárias para pretensos fins terapêuticos e a “antecipação” do nascimento de anencéfalos e outros embriões portadores de anomalias genéticas.
1.2.1 Desenhando os traços dos descendentes
Os progressos, tanto na linha dos conhecimentos, quanto na linha operacional, revolucionaram não só a genética, mas a vida no seu todo. Quando se faz uma leitura retrospectiva para a época do Vaticano II, não se pode deixar de fazer uma constatação: a aceleração da história e os progressos sinalizados na GS, quando confrontados com a genética e as biotecnologias atuais, parecem emergir como realidades de um passado muito mais distante. Diagnósticos de DNA associados a uma sofisticadíssima rede de tecnologias que se reforçam mutuamente não apenas apresentam outra radiografia de uma realidade passível de transformação, mas de uma realidade criada quase que ex nihilo. Não só a leitura do código genético, como também a capacidade de interferência colocam os biotecnólogos em condições de prever o futuro, prevenir todo tipo de enfermidades, projetar um futuro diferente daquele previsto no código genético original.
Com isto, tecnicamente falando, já foi ultrapassado o nível da transmissão da vida em laboratório através dos conhecidos processos da inseminação, da fecundação em laboratório, com ou sem implante num útero materno. Por outro lado, ainda que partenogênese e clonagem enquanto referentes aos seres humanos sejam quase que unanimemente repudiadas, não deixam de ser uma possibilidade, ao menos teórica. Entretanto, todos os quatro processos sinalizados sempre partem do pressuposto de fecundação ou concepção a partir da matéria prima existente, na forma de óvulos e espermatozóides, ou então de núcleos de células humanas intercambiadas, como se dá no caso da transgenia e da produção de seres híbridos. Os últimos avanços biotecnológicos apontam para outras possibilidades, na linha da seleção do material genético, visando a escolha e o controle das características desejadas, tanto num nível estritamente genético, quanto do fenótipo. Com isto, passa-se da simples observação do que acontece para a projeção e execução daquilo que se projetou e se pretende. Com isto, abre-se também o caminho para toda sorte de veleidades, que vão muito além de tentativas estritamente terapêuticas.
1.2.2 Células-tronco: enfim o Santo Graal?
Sem dúvida, a existência das denominadas células-tronco consitui-se numa das mais sensacionais descobertas dos últimos tempos. De alguma forma, a novidade não se encontra tanto nas células embrionárias em si mesmas, mas enquanto eventual possibilidade de produção de tecidos e órgãos em laboratório. A maior novidade encontra-se nas denominadas células adultas, como esperança de intervenção autógena na regeneração de tecidos e órgãos. Desde que sejam observados os procedimentos éticos básicos para qualquer intervenção em seres humanos, não se encontra aqui nenhum ponto de tensão. O ponto de tensão localiza-se exatamente em torno de pesquisas e uso de células embrionárias, ainda que para fins terapêuticos.
Subjacente a esta questão, encontram-se as já conhecidas polêmicas em torno do estatuto do embrião. Sabidamente, estas polêmicas remetem para o momento exato no qual nos encontraríamos diante de um ser humano, ainda que em fase incipiente. Embora a pendência da Igreja para a tese do início da vida humana a partir da concepção fosse mais intuitiva ou mesmo dogmática do que científica, não há dúvida de que os debates assumem agora um colorido especial. É que tanto os partidários da liberdade de pesquisa com embriões, quanto aqueles que a ela se opõem, o fazem em nome da ciência. Os primeiros argumentam que não há razões para pressupor vida humana antes que o tronco cerebral esteja formado; os outros, apoiados na férrea lógica da genética, afirmam o contrário: o embrião já é portador de um código genético próprio, e que, se não houver interferências indevidas, vai conduzir o processo vital ao longo de todas as etapas da vida. Com isto, a posição da Igreja de que a vida humana deve ser respeitada em todas as suas fases e manifestações deixa de se apoiar unicamente numa intuição de cunho religioso, para ganhar um reforço de caráter científico.
Mas as tensões relacionadas com as células-tronco não encontram um foco apenas em torno do estatuto do embrião: elas apontam para as falsas expectativas de curas miraculosas. Entretanto, as experiências com células adultas feitas até hoje não ultrapassam o nível de fundadas esperanças, e isto a médio e longo prazo. E, sabidamente, experiências de terapia gênica direta com células embrionárias mostraram-se desastrosas. Assim, também neste particular, na exata medida em que avançam os conhecimentos genéticos, a posição da Igreja vai se solidificando com o aporte científico.
De fato, fica cada vez mais claro que o código genético não é uma espécie de cofre hermeticamente fechado. Até pelo contrário: os inúmeros componentes que interagem no seio das células interagem igualmente com o meio ambiente. Os genes sozinhos não podem ser responsabilizados nem por malefícios, nem por benefícios. Por mais importante que seja seu papel, sobretudo nas fases iniciais da vida, eles vão, progressivamente, cedendo espaço a outros fatores, aparentemente externos, quais sejam, as condições ambientais. Por isto mesmo, esperar verdadeiros avanços em termos de terapia gênica sem inclusão social apresenta-se como posição anticientífica. Saúde e doença remetem para uma série de fatores políticos, sociais, morais e religiosos e não simplesmente para uma espécie de ditadura dos genes (Mieth, A ditadura dos genes, Vozes, Petrópolis 2004).
1.2.3 O que fazer com os anencéfalos?
Até bem pouco tempo, quase não se ouvia falar de anencéfalos. Hoje, é uma das questões mais candentes. O termo por si só já é equívoco, pois, a rigor, não se trata de ausência de cérebro, como a palavra anencefalia sugere, mas apenas de parte de cérebro, e, ainda mais, com diferentes graus. Ademais, o número de casos é relativamente pequeno e sem um significativo aumento numérico. No entanto, a postura diante deles tornou-se emblemática. Daí, a maior sensibilização diante dos casos existentes. Uns, apontando para riscos e sofrimentos da mãe e para um não-sentido de se levar adiante tal gravidez, pleiteiam a liberdade de “interromper” a gravidez, ou de “antecipar” o nascimento. Os que, com a Igreja, defendem o respeito à vida em todas as suas fases e em todas as suas manifestações pleiteiam todo tipo de amparo à mãe, para que ela leve a gravidez até o final. O pressuposto, no primeiro caso, é o de que não estaríamos diante de uma vida humana, mas diante de um amontoado de células geneticamente comprometidas. O pressuposto, no segundo caso, é o de que o concepto deve ser respeitado em qualquer situação, uma vez que é vida humana, ainda que em fase inicial e com deficiências mais ou menos graves.
Para além destes debates, contudo, vão se colocando sempre mais perguntas sobre o porquê não iniciar uma ação preventiva, uma vez que a meroencefalia remete para a carência de ácido fólico e o porquê de tanta insistência sobre o direito de abortar nestes casos. Parece claro que não há verdadeiro interesse em pesquisar as razões de um relativo aumento de casos, nem de uma ação preventiva. Também vai ficando sempre mais claro que admitir o abortamento de anencéfalos e de outros fetos portadores de anomalias genéticas seria abrir um caminho sem volta, onde os mais fortes decidem sobre a vida dos mais fracos. Como diz a Evangelium Vitae (10-12), existe uma verdadeira conjura dos poderosos contra os mais fracos. Também vai ficando sempre mais claro que o real interesse de certas empresas de biotecnologia aponta para a utilização das células-tronco encontradas nos meroanencefálicos e o restante dos tecidos para outras finalidades anda menos admissíveis. Ou seja: o confronto é mais profundo do que pode parecer à primeira vista, pois a questão dos anencéfalos esconde posturas bastante diferentes diante da vida e diante da morte.
1.3 Três ângulos da fase final
Embora neste preciso momento as atenções se voltem mais em direção à vida nascente, aqui e ali, questões ligadas à fase final também voltam à tona. Aparelhos e processos sempre mais sofisticados na linha de diagnósticos vêm acompanhados de aparelhos e processos sempre mais sofisticados para determinar a fase final da vida. Esta determinação tanto pode apontar para uma antecipação da morte, quanto para uma obstinação terapêutica. O difícil é encontrar uma postura que traduza, concretamente, o grande respeito pela vida em todos os momentos e em todas as situações e que aponte tanto para o sentido profundo do sofrimento, quanto para a passagem pela morte como condição para o ser humano atingir sua plenitude de vida.
1.3.1 Apressando a morte dos que se tornam um peso
Há poucos decênios atrás, o que preocupava os demógrafos eram os desequilíbrios tanto em termos numéricos, quanto em termos de faixa etária, onde crianças e jovens pareciam ameaçar o futuro dos mais velhos. Embora estes desequilíbrios apontassem mais para as nações pobres, a globalização lançava interrogações também sobre as nações ricas. Hoje, a questão demográfica parece apontar mais para o envelhecimento da população como fenômeno que preocupa até mesmo as nações que detêm o maior número de jovens. Com isto os desequilíbrios demográficos deixam de acordar apenas o espectro da fome, para despertar o fantasma da inadimplência dos sistemas previdenciários. Na exata medida em que crescem as perspectivas de vida, coloca-se sempre de novo a questão do desequilíbrio entre a população em condições de produzir e aquela que aparece como consumidora dos denominados benefícios sociais.
É neste horizonte que, ora com maior, ora com menor insistência, sempre com o pretexto de aliviar o peso da vida dos que sofrem e daqueles que devem arcar com o ônus correspondente, emerge a questão da eutanásia. A possibilidade de diagnósticos mais precisos sobre a viabilidade ou não de uma pessoa viver reabre, mas agora de uma maneira nova, a questão de cada um poder decidir sobre o momento de sua morte. Teoricamente são tomadas medidas para que os que decidem morrer o façam com plena liberdade. Entretanto, quando se vai mais a fundo na questão, não se pode deixar de perceber que, hoje mais do que nunca, os que sofrem se apresentam como “carga” tanto para os familiares quanto para a sociedade. As pressões correspondentes não só invalidam a argumentação em favor da “morte assistida”, como abrem um perigoso viés para todo tipo de extermínios. Aqui, novamente se percebe uma tensão de ordem ética onde as razões aparentes nem sempre são as verdadeiras e, mesmo que o fossem, em nenhuma hipótese justificariam a antecipação da morte (Evangelium Vitae, 65).
1.3.2 Retardando a morte de pessoas importantes
Com certeza, o paradoxo que leva a apressar a morte de uns e a retardar a morte de outros não é de hoje. Razões econômicas, políticas e até ideológicas, ao mesmo tempo em que fazem pessoas serem vistas como peso, fazem outras serem vistas como indispensáveis, ao menos durante certo tempo. Mas, se as tentativas de prolongar a vida de pessoas consideradas importantes sempre existiram, hoje, dado os avanços tecnológicos, elas se transformam numa possibilidade real e por tempo indefinido. Distanásia e obstinação terapêutica já não são simples palavras, mas caracterizam procedimentos mais ou menos frequentes, ainda que de caráter excepcional. Elas consistem em submeter pacientes inteiramente desenganados a procedimentos invasivos, custosos e dolorosos, que nada mais fazem do que prolongar a agonia.
Quando nos perguntamos sobre o porquê destes procedimentos, deveremos levar em consideração vários aspectos, que ora parecem se contradizer, ora parecem se reforçar mutuamente. O primeiro aspecto diz respeito a uma concepção de sofrimento e de morte: são realidades que não teriam sentido e, por isto, devem ser combatidas a todo custo. O segundo aspecto remete para uma postura inadequada de certos profissionais da medicina: a morte apresentam-se como uma espécie de derrota, não apenas pessoal, mas da própria medicina. Afinal, são tantos os recursos que, teoricamente, a vida poderia ser prolongada indefinidamente. Em terceiro lugar, não se pode esquecer que, em todo este contexto, fatores econômicos também exercem pressões, tanto no sentido de auferir lucros, quanto no sentido de evitar maiores prejuízos.
1.3.3 Em busca de um ponto de equilíbrio
Como se percebe, todas estas questões relacionadas com o final da vida são de fato muito complexas. Não apenas envolvem aspectos econômicos, políticos e sociais, mas também emocionais. Todos estes e outros fatores conjugados pressionam ora num, ora no outro sentido. Com isto, o ajuizamento da maneira adequada de proceder sob o ponto de vista ético se torna tanto mais complexo. Neste contexto é que se percebe a importância do papel de Comissões de bioética que subsidiem os profissionais da saúde para que se possa encontrar um ponto de equilíbrio. Este subsídio é tanto mais decisivo na medida em que certos termos, como ortotanásia, podem assumir conotações um tanto ambíguas.
É dentro deste complexo contexto que se percebe a sabedoria com a qual a Igreja vem anunciando este importante componente do Evangelho da vida. Por um lado, este Evangelho ressalta a importância de todas as vidas e de todos os momentos da vida. Mesmo os mais curtos e mais dramáticos têm um significado profundo, quando vistos como momentos da graça de Deus que atua na fraqueza humana. Muitas vezes, é nestes momentos decisivos que as pessoas reavaliam suas próprias vidas. Os denominados cuidados paliativos, que devem acompanhar a fase final da vida de um enfermo desenganado, tornam-se tanto mais importantes não apenas para aliviar os sofrimentos, como também para ajudar no encontro do sentido destes mesmos sofrimentos. Para os que têm fé, a Unção dos enfermos se apresenta como o sacramento que reconcilia, conforta e ajuda a descobrir, concretamente, o significado dos mistérios da cruz e da ressurreição. Por outro lado, a mesma Igreja, já há muito, vem mantendo uma mesma tônica: há um momento a partir do qual um conjunto de avaliações vai levar à conclusão de que deixar a natureza seguir o seu curso não é apenas a atitude mais racional, como também uma manifestação de fé na vida em plenitude após a morte.

2. O que está verdadeiramente em jogo?
Embora as tensões entre ciência e fé sejam localizadas e apresentem variações em termos de intensidade e profundidade, de acordo com certas coordenadas históricas, não há dúvida de que elas têm sua razão de ser. Por isto mesmo, a atitude de diálogo que a Igreja deve manter com o mundo das ciências obriga-a a um duplo movimento: o de acolher, com alegria, as conquistas e o de elucidar ainda melhor as razões de sua fé, uma vez que estas nem sempre são devidamente conhecidas. Neste sentido, convém ressaltar alguns aspectos que irão delinear um quadro de fundo, a partir do qual também poderão ser apresentadas algumas estratégias para um diálogo frutuoso.
2.1 Uma concepção de ciência e de fé
De uma maneira magistral, a Encíclica Fides et Ratio definiu ciência e fé como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade (n. 1). Entretanto, reeditando concepções que remetem para o iluminismo racionalista de séculos anteriores, certos grupos ligados às biotecnologias julgam que ciência e fé são excludentes, uma vez que a fé se confundiria com um fundamentalismo religioso obscurantista que estaria causando obstáculo para o avanço das ciências. A Igreja, por sua vez, sustenta que nem tudo o que é tecnicamente possível é necessariamente admissível de um ponto de vista moral (Donum Vitae, 4). Diante disto, convém perguntar pelo sentido das ciências e pelo sentido da fé veiculada pelas religiões, de modo geral, e pela Igreja católica, de modo particular.
A rigor, não se pode falar de ciência, nem de biotecnologia, no singular. Pois existem muitas ciências e muitas biotecnologias, ainda que hoje sempre mais interligadas. Mesmo no seio de cada uma das ciências, verificam-se acentos e até escolas diferentes. Daqui decorrem ao menos duas conclusões: ninguém pode falar em nome da ciência, no singular, e nenhuma ciência apresenta a totalidade da verdade. Até pelo contrário: por seu próprio estatuto epistemológico, cada uma das ciências vai fazer uma leitura setorial da realidade. Ademais, é preciso não perder de vista que, justamente no quadro dos avanços biotecnológicos, se ouvem muitas afirmações categóricas que são desmentidas pouco depois. Basta pensar em duas assertivas de alguns anos atrás, tidas como rigorosamente científicas, e que agora são desmentidas: o caso do número de genes e o caso do denominado “lixo genético”. Na mesma linha, devem ser lembrados certos medicamentos, que são lançados no mercado como rigorosamente testados e que depois são retirados por seus efeitos maléficos. Em suma, para que o diálogo se torne possível, não se pode perder de vista o denominado princípio da cientificidade: vale enquanto não for provado o contrário.
Por outro lado, algo de semelhante deve ser afirmado no tocante à fé. Esta não pode ser confundida com suas mediações, sejam religiosas, sejam teológicas. De fato, nem sempre as religiões conseguem preservar integralmente o patrimônio da fé, e nem sempre a teologia deixa de correr o risco de ser contaminada por ideologias. Além disto, também no seio das religiões e das teologias, encontram-se muitas correntes diferentes e, por vezes, até opostas. Ou seja: a fé é fruto da revelação de Deus, que no passado nos falou de muitos modos pelos profetas e que no presente nos fala através do Seu Filho Jesus. Este dom da fé, contudo, sempre ultrapassa a compreensão humana, pois mergulha no mistério divino. Isto significa, concretamente, que todos nos encontramos a caminho e que existem muitas pedras de tropeço neste caminho (Catecismo da Igreja Católica, 302). Daí, a certeza e a firmeza que devem caracterizar as tomadas de posição da Igreja não poderem ser confundidas com a compreensão total e definitiva da verdade. Por isto mesmo, ela confessa que nem sempre tem resposta pronta para todos os problemas e “deseja unir a luz da revelação com a perícia de todos, para que se ilumine o caminho no qual a humanidade entrou recentemente” (GS 33).
2.2 Uma concepção antropológica
Os avanços da genética e das biotecnologias são realmente extraordinários. A leitura do código genético, ainda que parcial, trouxe um acúmulo nunca visto de dados sobre os seres vivos. Da mesma forma, o desenvolvimento acelerado das biotecnologias oferece hoje possibilidades até há pouco inimagináveis de intervenções cada vez mais ousadas. Tudo isto fascina e atemoriza ao mesmo tempo. O fascínio tanto vem do conhecimento minucioso dos mecanismos mais secretos da vida, quanto da possibilidade de repaginá-los e reconfigurá-los.
Por outro lado, tamanho saber e tamanho poder assustam. Não assustam em si mesmos, mas assustam na medida em que os detentores do biopoder assumem uma concepção reducionista e materialista da vida, inclusive da vida humana. Isto vai repercutir negativamente sobre todos os processos. Exemplo desta postura encontra-se nitidamente em obra recentíssima de James D. Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA: “Por isto, a dupla hélice foi tão importante: trouxe a revolução do pensamento materialista do Iluminismo para o âmbito da célula... A dupla hélice é uma estrutura sucinta, mas sua mensagem não poderia ser mais prosaica: a vida é uma simples questão de química” (DNA. O segredo da vida, Companhia das Letras, São Paulo 2005, 12-13). Como se vê, trata-se de uma concepção antropológica não só marcada pela unilateralidade, como pela exclusão, ao menos implícita, de outras dimensões do humano.
Em contraposição, a Igreja, a partir das Sagradas Escrituras e de toda uma reflexão antropológica e teológica que percorre os séculos, vai afirmar, com força, que nenhum ser vivo é resultante do acaso e de meras reações bioquímicas. Pelo contrário: todos os seres procedem do mesmo Criador, que reveste os seres humanos de uma especial dignidade, na medida em que os faz à Sua imagem e semelhança. Deste ponto de partida, decorre uma visão antropológica na qual os seres humanos, revestidos de liberdade criativa, a partir de um dado inicial constituído pelo patrimônio genético e pela alma “insuflada” por Deus, vão se moldando a si próprios na medida em que conjugam matéria e espírito, humanidade e divindade, amor a Deus e amor ao próximo. Nesta perspectiva vão imergir múltiplos aspectos como constitutivos do ser humano.
2.3 Uma concepção de sexualidade
A riqueza da antropologia cristã vai mostrar toda sua riqueza exatamente num campo onde sua concepção é vista com alguma suspeita: o campo da sexualidade. A partir desta antropologia, a sexualidade vai certamente expressar-se a partir de um corpo biológico, que, por sua vez, remete para elementos físico-químicos, como vem afirmado pela genética. Contudo, a sexualidade humana, ao mesmo tempo expressão corporal e espiritual, vai se desdobrar em muitas outras dimensões. Com efeito, poderíamos dizer que ela apresenta um núcleo material mais estável, no qual são ressaltados os prismas genético, hormonal e cerebral. Este núcleo certamente aponta para aquilo que há de mais palpável e mensurável e que, por sua vez, vai aparecer como a expressão de reações físico-químicas.
Contudo, a sexualidade apresenta também um núcleo mais maleável, na medida em que apresenta uma dimensão sociocultural, psicológica, afetiva, político-ideológica, religiosa e espiritual. Este núcleo mais maleável faz com que ela seja percebida como uma energia estruturante, com múltiplas facetas complementares, menos palpáveis e menos mensuráveis, mas nem por isso menos importantes. Assim, enquanto o núcleo mais estável traduz um certo legado recebido como herança genética, o núcleo mais maleável traduz a tarefa a ser executada tanto pelas pessoas, quanto pelas sociedades. É nesta direção que se evidenciam melhor os papéis da liberdade e da responsabilidade humana por integrar sua sexualidade.
Com certeza, a sexualidade humana se estrutura a partir de um corpo biológico, que é a base de todas as relações. Mesmo que intervenções de ordem biotecnológica comecem, literalmente, a “projetar” e a “moldar” sempre mais os corpos, tornando-os até certo ponto fluidos como um texto que aparece na tela de um computador, há sempre uma identidade profunda que permanece. É também neste mesmo pressuposto que podemos afirmar que nossa sexualidade se articula com um corpo psíquico-afetivo, com um corpo social, com um corpo cósmico e com um corpo espiritual. Na primeira dimensão, ressaltamos as emoções, os sentimentos e até os impulsos inconscientes. Na segunda dimensão, ressaltamos que, sendo um nó de relações, nosso corpo também assimila algo da sociedade na qual nascemos, crescemos e vivemos. Na terceira dimensão, destacamos que vivemos na medida em que convivemos com um todo maior, que é o cosmos. Finalmente, na quarta dimensão, a do “corpo espiritual”, ressaltamos que nossos corpos são sinais de uma realidade que nos transcende: seres corpóreo-espirituais, somos templos de Deus e destinados à ressurreição.
2.4 Uma concepção de matrimônio e de família
Ao longo de sua história, em múltiplos contextos, a Igreja viu-se obrigada a ressaltar o caráter unitivo e procriativo do matrimônio (Humanae Vitae). Com isto, ela deixa claro que a vocação do matrimônio traduz uma dupla face do amor: a do amor conjugal e do amor filial. Amor verdadeiro é sempre um amor fecundo, generosamente aberto para a vida. As mudanças socioeconômicas e culturais, bem como o aparecimento de uma mentalidade contraceptiva, fazem com que esta doutrina seja mais atual do que nunca. Contudo, na medida em que a denominada “reprodução assistida” vai sendo sempre mais absorvida como se fosse natural, e isto tanto de um ponto de vista teórico quanto prático, vão emergindo novas urgências de caráter teológico e pastoral.
Uma primeira urgência aponta para o próprio sentido mais profundo da “fecundidade” pressuposta na vida conjugal. Em outras circunstâncias históricas, ela quase que se confundia com o número de filhos. Hoje, se impõe, certamente, uma leitura onde a fecundidade emerge muito mais como atitude de acolhida à vida em todas as suas manifestações e em todas as suas formas do que, forçosamente, por uma família numerosa. Existem famílias numerosas que são espiritualmente estéreis, e outras menores que podem ser extremamente fecundas. O critério não passa pelos números, mas pela intensidade do amor. Ademais, a existência de um relativamente grande número de casais biologicamente estéreis faz com que se perceba melhor a importância daquilo que se poderia denominar de fecundidade espiritual. Neste sentido, mesmo os casais impossibilitados de terem filhos biológicos se percebem vocacionados para outras formas de fecundidade e paternidade. A esterilidade biológica não é forçosamente uma desgraça, pois Deus sempre proverá outros caminhos para as pessoas piedosas que, como tantos personagens bíblicos, nele depositam sua confiança.
Uma segunda urgência de caráter teológico e pastoral vai se colocando na medida em que um sempre maior número de pessoas, casadas ou solteiras, reivindica, com força, o seu direito de ter uma prole, mesmo recorrendo à denominada reprodução assistida (Lexicon, 975s). E mais, em decorrência da reivindicação anterior, cresce a consciência do direito de só ter filhos (normalmente único) “sob medida”. Neste contexto, é preciso trazer à tona uma colocação marcante que se encontra em documentos do Magistério, que contempla ao mesmo tempo os dois aspectos: “o matrimônio não confere aos esposos um direito a ter um filho, mas tão-somente o direito a realizar aqueles atos naturais que, de per si, são ordenados à procriação... Um verdadeiro e próprio direito ao filho seria contrário à sua dignidade e à sua natureza. O filho não é algo devido e não pode ser considerado como objeto de propriedade; ele é um Dom, “o maior e o mais gratuito Dom do matrimônio...” (Donum Vitae, p. 43; Cf. também Catecismo, 2378). A reivindicação do direito à prole contrapõe egoísmo e fecundidade generosa. É nesta altura que a adoção, para cônjuges impossibilitados de terem filhos biológicos, e o ressalto a outras aspectos da fecundidade humana se fazem sempre mais prementes.
2.5 Uma concepção de doença
As grandes perguntas, de ordem genética, que se levantaram ao longo de todo o século passado foram basicamente estas: o que são os genes, onde se localizam os genes, quais são as funções dos genes e, sobretudo: como localizar os genes responsáveis por certas doenças. O móvel primeiro dos esforços dos laboratórios era constituído pelo desejo de curar doenças de cunho genético. É verdade que este caráter eminentemente terapêutico ficou um tanto obscurecido quando se impôs a reserva de patentes para descobertas genéticas. Mesmo assim, contudo, a “terapia gênica” continua sendo a grande bandeira ideológica das empresas de biotecnologia. E, em consonância com isto, um forte apelo emocional veta qualquer tipo de ponderação contrária à reivindicação de liberdade para todo tipo de experimentos, ainda que se sacrifiquem vidas em nome da salvação de outras, como ocorre no uso de embriões com pretensos fins terapêuticos.
O mesmo veto também ocorre em relação ao número efetivo de pessoas vítimas de doenças genéticas. Há quem fale em 4 a 5 mil doenças de cunho genético. Entretanto, aqui é preciso fazer algumas distinções de suma importância. Em primeiro lugar, cumpre desontologizar as doenças: não existem doenças em si mesmas, mas pessoas doentes. Isto significa, antes de tudo, que existem graus diferentes: ao lado de um sem número de alterações genéticas de pouca significância, existem outras que são realmente graves. Desontologizar as doenças significa também ter presente que a maneira de se portar é diferente em cada pessoa. Isto, sem falar que a pretensão de interpretar a profundidade da dor e do sofrimento dos outros é algo de muito hipotético.
A ideologização do problema e o exagerado apelo às emoções também impedem outras ponderações no que se refere à origem dos males que afetam a humanidade. Ainda que não se queira trazer para a linha de frente a reflexão estritamente teológica sobre o papel fundamental exercido pelo pecado pessoal e social em termos de males da vida presente, não há como ignorar outros fatores que causam sofrimentos incontáveis. De fato, como coloca muito bem a Evangelium Vitae (n. 10-12), uma leitura adequada não pode deixar na sombra inúmeros outros fatores que se associam numa cultura de morte: guerras, todo tipo de violência, fome, drogas... Sem esta visão ampla, acaba-se exagerando a importância de fatores que não remetem diretamente para a responsabilidade humana. Em consequência, ficam na sombra justamente aqueles fatores, numericamente muito mais significativos, que, se devidamente enfrentados, reduziriam em muito os sofrimentos humanos.
2.6 Uma concepção de saúde
O desejo de uma vida saudável é mais do que legítimo. Em muitos episódios dos Evangelhos encontramos Jesus curando pessoas de toda sorte de enfermidades. Mais do que isto: Jesus transforma estas pessoas em mensageiras do Reino. Assim, as curas transformam-se em sinais palpáveis da esperança de uma vida em plenitude. E, na trilha de Jesus, ao longo dos séculos, a preocupação com as pessoas enfermas foi e continua sendo uma das marcas da Igreja. Não apenas através de documentos, mas através de instituições voltadas para os enfermos, a Igreja mostra ter compreendido bem o significado da atuação curadora de Jesus. Neste sentido, portanto, a Igreja encontra-se em perfeita sintonia com os que se preocupam com os doentes, vítimas dos mais diversos males. Esta sintonia pode ser percebida também quando se atina para o fato de hoje os profissionais da saúde e pesquisadores estarem sempre mais voltados para uma ação preventiva. A questão encontra-se na compreensão do que significa vida saudável e quais seriam os caminhos para consegui-la.
De fato, a já assinalada compreensão reducionista e materialista de muitos profissionais da saúde e pesquisadores tanto reflete sobre a maneira de entender o significado da doença quanto sobre a maneira de entender o significado de vida saudável. O acento quase que exclusivo sobre a dimensão corpórea, com a consequente negligência de outras dimensões igualmente importantes, faz perder de vista os caminhos para uma vida saudável. Ainda que o acento sobre o corpo não seja exclusivo destes tempos marcados pelas biotecnologias, é preciso dizer que, hoje, mais do que nunca, se confunde vida saudável com disposições físico-corporais.
É a partir deste pressuposto básico que se entende a insistência inusitada sobre a importância dos genes no quadro geral da saúde de uma pessoa. Ora, sabidamente, se é verdade que o código genético nunca deixa de ter sua importância e que, sobretudo, nas primeiras fases da vida esta importância é muito grande, também é verdade que o quadro se inverte na medida em que as pessoas se desenvolvem. Ademais, seguramente, o código genético não é uma espécie de cofre fechado, que não interage com o meio ambiente. Pelo contrário: os genes são o símbolo de uma vida, que por sua vez é sinônimo de relações e dinamismo. Nesta altura, cresce a importância de hábitos saudáveis, e diminui a importância do código genético. Estes hábitos saudáveis não remetem apenas para as condições básicas de vida, ou para o estilo de vida, mas remetem também, e sobretudo, para as relações humanas. E, se formos mais a fundo, localizando a origem de muitos males diretamente em pecados pessoais e sociais, deveríamos, consequentemente, acentuar a importância do relacionamento com Deus. Em outros termos, hoje, mais do que nunca, o reducionismo concentrado sobre os genes, ou sobre fatores isolados, parece a negação daquilo que se verifica na realidade. Pessoas e sociedades saudáveis são aquelas que mantêm relações saudáveis em todos os níveis e em todas as direções, tanto horizontais, quanto verticais.
2.7 Uma concepção de dor e sofrimento
Nos itens anteriores já deixamos entrever que todo o reducionismo leva, forçosamente, a um impasse. Todos os mecanismos da vida se caracterizam pela complexidade. A maior prova disto é o próprio código genético, onde dialeticamente se articulam milhares de genes e bilhões de bases. E o código genético, por sua vez, se torna incompreensível fora do pressuposto de que ele se articula não apenas internamente, mas também externamente com inúmeros elementos e inúmeros fatores. O paradigma da complexidade é o único capaz de traduzir, ainda que de maneira insatisfatória, a complexidade dos mecanismos da vida. Por isso mesmo, quem aborda a genética com uma visão unidimensional nunca dará grandes passos na compreensão dos mistérios que envolvem a vida e, mormente, a vida humana.
Quando se analisa o que está em jogo nas tensões constatadas entre ciência e fé no contexto atual, vai ficando sempre mais evidenciado que um dos pontos nevrálgicos aponta para o cerne do Evangelho de Jesus Cristo: o escândalo da cruz. Esta mensagem não escandaliza apenas a humanidade de hoje: ela escandaliza a humanidade de todos os tempos. A prova disto é o escândalo que a cruz se constituiu para os próprios discípulos de Jesus. Eles simplesmente não entendiam como o caminho da glória da ressurreição deveria passar antes pelo caminho do Gólgata.
O mundo das biotecnologias é um mundo que, como nunca, experimenta o poder humano. Este poder, agora estendendo-se até os mais profundos segredos da vida e conjugado à eficiência, simplesmente deletou a palavra “fracasso”. Ainda que estes, naturalmente, se façam presentes, eles são inadmissíveis. Por não entenderem a mensagem da dor, da cruz, do sofrimento e do fracasso, muitos homens e mulheres de hoje, dedicados a pesquisas genéticas, ao mesmo tempo que podem ser grandes idealistas, capazes de lutar desprendidamente pelos que sofrem, são incapazes de assimilar o sentido profundo da dor e do sofrimento. Trabalham na pressuposição de que a dor e o sofrimento serão vencidos pelo avanço das tecnologias. Lá no fundo, ao lado de uma sincera busca por minorar dores e sofrimentos, há pressupostos que não só não se coadunam com o Evangelho, como não se coadunam com a realidade da vida. Talvez o caminho para assimilar esta mensagem nem seja exatamente o da teologia, mas o da filosofia, que se pergunta, a fundo, pelo sentido da realização humana e da vida.
2.8 Uma concepção de felicidade e realização humana
Uma das características de hoje é a busca desenfreada da felicidade. E não se trata de uma felicidade “moderada”, no estilo dos primeiros filósofos do hedonismo, que admitiam até certas renúncias para depois obterem um prazer maior. Trata-se de uma felicidade imediata, ao alcance da mão e buscada por todos os meios. Também não se trata de uma aspiração restrita às classes hegemônicas, mais sofisticadas: trata-se de uma aspiração generalizada, que sobrevive até em meio aos maiores sofrimentos e à maior pobreza.
Sem dúvida, Deus não nos criou para sofrermos. Ele não é um Deus masoquista. Ele nos criou para a felicidade. A questão toda consiste em definir melhor o que vem a ser felicidade e os caminhos para consegui-la. Com certeza, a felicidade não pode ser confundida com “prazer”, por demais limitado ao espaço e ao tempo. A felicidade também não pode ser usufruída egoisticamente: ela sempre será partilhada, ou não passará de uma ilusão alienante. E, muito menos, poderá ser entendida como algo que se experimenta à custa dos outros. A felicidade prevista por Deus como possível é aquela que é palmilhada ao longo de um caminho estreito. E, sem uma perspectiva transcendente, jamais será duradoura.
Diante disto, talvez a mensagem cristã seja melhor entendida através da palavra “realização”. A realização nunca é fruto do acaso e nunca se restringe a um momento. Ela é, justamente, fruto de um trabalho, por vezes árduo, de conquista, que comporta escolhas e até renúncias de bens menores, em vista de um bem maior. Tudo isto pressupõe uma certa mística que impulsiona o ser humano a ir construindo aquilo que corresponde às aspirações mais profundas de seu ser. Ainda que nunca haja ninguém plenamente realizado nesta terra, seguramente, a realização pessoal, profissional, familiar e até mesmo social é uma possibilidade e uma força secreta que ajuda a enfrentar os desafios da vida e a admitir até a morte.
2.9 Uma concepção de tarefa humana
Uma leitura adequada de algumas passagens bíblicas, mormente a da queda original, não deixa margem para dúvidas: na origem de todo o pecado existe uma tentação não devidamente enfrentada, que é a tentação de ocupar o lugar de Deus. Tanto a narrativa da queda de Lúcifer, quanto as tentações enfrentadas por Jesus mostram exatamente onde se encontra a força e a fraqueza dos seres humanos. Com razão, as Escrituras nos asseguram que nossa força está no nome do Senhor; que os vazios existenciais só serão preenchidos pela consciência da presença atuante de Deus; que as contradições históricas só serão superadas na medida em que todos, em vez de uma torre de Babel, pensarem em construir uma escada de Jacó.
A consciência criatural era bem mais fácil no contexto em que pessoas e povos se sentiam frágeis diante das forças da natureza e ainda não tinham tomado consciência do poder que Deus lhes havia confiado ao chamá-los para administrar toda a obra criada. O único requisito era o de administrar com sabedoria. Administrar com sabedoria significa ao menos três coisas. A primeira: nunca deixar de perguntar-se pelo sentido último de todas as coisas. A segunda: nunca querer administrar sozinho. A terceira: nunca esquecer que a boa administração não pressupõe apenas um diálogo amplo com o presente, mas também com o passado. Nós não somos nem os únicos, nem os primeiros seres humanos inteligentes e capazes de pensar e atuar sobre a criação. A História é um referencial imprescindível para uma administração sábia.
Tudo isto parece muito difícil para quem se encontra embevecido com as sensacionais e sempre novas descobertas que vêm ocorrendo no campo da genética. Mais difícil ainda para quem não apenas descobre os segredos da natureza mais profunda dos seres vivos, como, ao mesmo tempo, começa a fazer os primeiros ensaios para corrigir o que lhe parece falho e enriquecer o que lhe parece geneticamente pobre. Biopoder é muito mais do que uma expressiva palavra para traduzir a força das biotecnologias e as dos que a detêm em mãos. Biopoder é também uma consciência de que, tecnicamente falando, parece nada mais ser impossível. Daí, a importância fundamental de dois princípios que, por assim dizer, colocam limites intransponíveis. O primeiro: por mais entusiasmantes que sejam as atuais conquistas, sem a correspondente consciência dos limites a ciência só poderá conduzir os seres humanos à ruína. O segundo: Nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente aceitável (Donum Vitae, Introdução.).
2.10 Uma concepção de vida e de morte
O sonho da imortalidade é uma constante antropológica. Ao menos, no vigor de suas forças, poucas pessoas pensam na morte como uma possibilidade real. De acordo com o Evangelho, a morte sempre se apresenta como um ladrão, no dia e na hora em que menos se espera. Na medida em que se avança em idade, a morte não deixa de ser considerada como uma possibilidade. Somente pessoas impulsionadas por profundas convicções religiosas ou então por pulsões de morte são capazes de pensar e agir de maneira diferente, admitindo ou até escolhendo a morte. E aqui se encontra novamente um ponto de tensão entre biotecnologia e fé.
De fato, as diversas biotecnologias não apenas não são capazes de admitir a morte, como parecem trabalhar na pressuposição de que ela, um dia, será vencida. O prolongamento da vida não apenas por aparelhagens sofisticadas, mas, sobretudo, pela ativação de certos genes, abre caminho para uma perspectiva de uma longevidade sem fim. Em outros termos, o sonho secreto é o de, através da conjugação sempre mais estreita entre genética e biotenologias não apenas prolongar a velhice, mas também a denominada vida útil.
Em todo este contexto, percebe-se que, por mais que se busque o diálogo entre ciência e fé, ele se torna sempre mais difícil, uma vez que há uma série de pressupostos diferentes e até opostos. Todos estes pressupostos apontam numa mesma direção: sentido da vida e sentido da morte. Por aí se vê não apenas a responsabilidade dos pesquisadores e cientistas, como também a responsabilidade dos que se consideram portadores do Evangelho da Vida. Como nunca, a atuação da Igreja se tornou imprescindível para que a humanidade trilhe os caminhos da vida e não os caminhos da morte. Isto exige não apenas bagagem doutrinária, como também uma estratégia adequada.

3. A Igreja do “sim”: estratégia para diálogo frutuoso
Esta terceira parte será um pouco mais breve. É que ela já se encontra implícita nas duas partes anteriores. Agora, trata-se de apresentar uma espécie de roteiro de trabalho para atingir evangelicamente esta nova realidade tão fascinante e tão preocupante ao mesmo tempo. Neste roteiro, apenas sinalizaremos alguns pontos que nos parecem importantes nesta difícil tarefa de manter-se fiel ao patrimônio da fé e encontrar brechas para um diálogo proveitoso entre ciência e fé. Os pontos sinalizados não querem apresentar uma espécie de “pacote” fechado, pronto para ser usado, mas querem ser uma espécie de roteiro propositivo que poderá ser muito mais enriquecido. Trata-se, portanto, de uma espécie de pro-vocação para um trabalho conjunto, tão importante num momento em que a Igreja parece “encantonada” e nadando contra a corrente.
No mais, estas proposições serão melhor compreendidas à luz do “sim” de Maria Santíssima, que, ao proclamar as maravilhas que Deus, vem operando na história, deixa claro seu “não” a tudo o que se coloca contra os planos de Deus. Tudo é questão de tônica e de ponto de partida. No Sermão da montanha fica claro que também Jesus veio para proclamar uma boa notícia e, por isto, começa sua fala com as bem-aventuranças: a força de sua denúncia emerge como decorrência da força do seu anúncio.
3.1. “Sim” ao direito de nascer e crescer num lar
Poucos são os assuntos mais presentes na mídia do que aqueles que se referem à genética e à biotecnologia. Os avanços inegáveis são anunciados com grande ênfase. E isto evidentemente entusiasma, mas ao mesmo tempo espanta. Entusiasma, porque os laboratórios passaram a apresentar bons resultados em termos de todo tipo de diagnóstico e intervenção com uma segurança nunca vista. Com isto abrem-se perspectivas também nunca vistas de subsídio aos casais com problemas de infertilidade e de esterilidade. Este subsídio não significa, evidentemente, substituição do casal, que deve transmitir a vida através de um ato concreto de amor. Significa que, na perspectiva já aberta pelo Papa Pio XII, os laboratórios podem concorrer para o êxito dos casais, através de diagnósticos e outros recursos técnicos. Infelizmente, não é neste sentido que normalmente se entende a função dos laboratórios. Aos olhos das empresas de biotecnologia e até mesmo do grande público, a denominada “reprodução assistida” não deve conhecer limites na busca do êxito técnico. Uma verdadeira máquina de marketing, qual rolo compressor, vai derrubando as últimas resistências. Quem não aceita a “reprodução assistida” passa sempre mais a ser visto como representante de uma mentalidade religiosa obscurantista. Não só a inseminação homóloga como também a heteróloga parecem soar como algo muito bom, desde que necessário. Com esta mentalidade sempre mais atuante, a fecundação em laboratório, com a consequente produção de embriões em série, a “sexagem”, a escolha de características especiais e até a eliminação de fetos mal formados passam a ser consideradas como “progresso” e um benefício para a humanidade.
Claro que aqui não se localiza apenas uma tensão, mas um verdadeiro confronto, onde a Igreja aparece forçosamente como aquela que sempre está “contra” tudo e contra todos. Acontece que os “nãos” da Igreja, bastante conhecidos, parecem não assustar mais ninguém e dificilmente provocam adesão. Daí o impasse: por um lado não há como dizer “sim” ao que está ocorrendo e muito menos à mentalidade que se encontra subjacente. Por isto, a primeira hipótese que o profetismo evangélico sugere é a da denúncia pura e simples, cada vez mais veemente. Entretanto, na linha do Evangelho e da Gaudium et Spes, parece que o caminho a seguir é outro: o do bom anúncio que carrega consigo uma denúncia. Ou seja: o que, pastoralmente falando, cumpre fazer é mostrar que o lar bem constituído é o único lugar propício para a transmissão da vida e também para a educação dos filhos. O acento não irá recair sobre as distorções de toda ordem que possam resultar da “reprodução assistida” em suas várias técnicas. O acento vai recair sobre a beleza da vida onde “pai”, “mãe”, “irmãos”, “irmãs” sejam mais do que palavras frias, para serem expressão do calor humano a partir do qual a vida começa a ser degustada.
3.2 “Sim” ao direito de ser original e irrepetível
Quando a ovelha Dolly baliu pela primeira vez, em 1997, a humanidade toda acordou com uma estranha sensação de que algo de realmente novo estava ocorrendo: até neste nível mais radical, a já há muito anunciada manipulação genética deixava o mundo das possibilidades fantasiosas para entrar no mundo das realidades cotidianas. Em termos de sensacionalismo, não há dúvida de que clonagem e transgenia se apresentam para a mídia como pratos saborosos: são apresentadas como a expressão máxima das conquistas humanas. E, mediante um trabalho sistemático, pouco a pouco, os últimos bastiões da resistência popular vão caindo. Claro que não se pode ignorar que clonagem e transgenia aparecem como mecanismos naturais, como, por exemplo, na reprodução das células, mesmo humanas, e nos vários tipos de enxertos. Também não se pode esquecer que as mesmas técnicas podem ser utilizadas não para produzir quimeras de todos os tipos, mas para resgatar certas espécies de plantas e animais em extinção, corrigir certas anomalias, eliminar certas pragas em produtos alimentícios... O que causa estarrecimento é a perspectiva de uma clonagem humana, com tudo o que isto representaria em termos de empobrecimento genético e de problemas de identidade.
Aqui, novamente, parece que a estratégia mais adequada consiste em mostrar aquilo que se oculta por trás da clonagem e da transgenia: a padronização progressiva, seja ao nível de vegetais e animais, seja ao nível dos seres humanos. Quase tão perigosa quanto a clonagem biológica é a “clonificação” padronizadora que carrega consigo a perda da originalidade irrepetível de cada pessoa e de cada ser vivo. É esta originalidade que mantém a biodiversidade, expressão da sabedoria do Criador e encanto para os seres humanos. A tônica será, portanto, a do “sim” à biodiversidade e à exaltação da multiplicidade de espécies que compõem um quadro de incomparável beleza. O “não” à clonagem é uma decorrência lógica do “ sim” à biodiversidade.
3.3 “Sim” à verdadeira política familiar e demográfica
Motivo de grandes debates em décadas anteriores, a questão do planejamento familiar quase desapareceu de cena. E isto é muito sério, pois com a maior tranquilidade, os casais vão recorrendo aos métodos que são apresentados como sendo os mais eficazes. E é justamente aqui que reside o problema: as verdadeiras questões, que apontam para a busca constante da comunhão cada vez mais profunda do casal, já nem mais são levantadas. Até, pelo contrário, uma espécie de mecanização das relações do casal parece a coisa mais natural do mundo. Novamente, todos sabem o que a Igreja diz, mas julgam que, ao menos neste particular, ela estaria “atrasada”. E esta opinião é sempre mais partilhada até por fiéis católicos. Da mesma forma, há algumas décadas, a questão demográfica se apresentava como uma das mais veementes. Hoje, sobretudo no contexto do primeiro mundo ou em regiões mais desenvolvidas, o que se levanta não é mais a questão da “explosão” demográfica, mas do envelhecimento da população. De fato, ao menos em nível de Europa, o problema do envelhecimento é tão grave que se poderia falar de uma espécie de “implosão demográfica” (Lexicon, 179; 597s; 1063).
Diante destes fatos é que se percebe a importância de a Igreja chamar novamente a atenção para os problemas de fundo, que se escondem por trás do planejamento familiar e da questão demográfica. Os problemas de fundo certamente apontam para uma mentalidade contraceptiva, que, por sua vez, remete para concepções pragmáticas de vida. Contudo, eles também dizem respeito às condições desumanas nas quais vivem milhões de pessoas, sem a real possibilidade de constituir família “como convém” (Familiaris Consortio, 81). Entre os múltiplos fatores que possibilitarão condições novas, certamente se encontra uma verdadeira política familiar, baseada na justiça e na dignidade humana. E é nesta direção que a Igreja pode apresentar-se como porta-voz do “sim” mais significativo do que nunca.
3.4 “Sim” à vida em todas as suas manifestações e em todas as suas fases
O sonho de um mundo sem sofrimento e sem defeitos é uma constante na humanidade. A diferença entre o hoje e o passado é que hoje este sonho parece estar ao alcance da mão. Técnicas sempre mais sofisticadas de “seleção das espécies”, através de diagnósticos preditivos, fazem com que deixar nascer e viver seres marcados por algum defeito comece a ser apresentado como uma espécie de pecado inadmissível. Sobretudo no nível dos seres humanos, onde o culto do corpo e a busca de padrões sempre mais refinados de beleza são intensos, só havendo lugar para pessoas consideradas perfeitas. Com isto, a “eugenia” deixa de ser vista como um crime mais ligado ao nazismo e passa a ser considerada uma espécie de obrigação primeira dos pais e da sociedade.
É diante deste contexto que se compreende o caráter emblemático das questões referentes à produção e ao uso de embriões para os denominados fins terapêuticos, bem como a questão dos anencéfalos. Expressão máxima da fragilidade humana, eles se tornam a expressão máxima também de uma atitude de respeito ou desrespeito à vida. Em termos de respeito à vida humana, não há meio termo: ou se respeita a vida em todas as suas manifestações e em todas as suas fases, ou se deixa implantar o arbítrio humano, que irá decidir quem deverá viver e quem deverá morrer. Aqui fica muito claro o alcance daquilo que o Papa João Paulo II denominou de “O Evangelho da Vida”. Este Evangelho diz “sim” à cultura da vida, que abarca, em primeiro lugar, a vida humana, mas, ao mesmo tempo, deixa claro que problemas ecológicos e ambientais têm tudo a ver com uma cultura de morte. Por isto mesmo, o “sim” à vida em todas as suas manifestações, em todas as suas formas e em todas as suas fases vai muito além da defesa do meio ambiente e dos indefesos. Este “sim” comporta uma atitude global de respeito à vida, atitude que, por sua vez, remete para a capacidade de se encantar diante do mistério da vida.
3.5 “Sim” às pesquisas levadas adiante com seriedade e serenidade
Notícias referentes a todo tipo de experiência com seres humanos, ao comércio de óvulos, espermatozóides, órgãos, embriões, a todo tipo de transgenia e a outros experimentos chocantes vêm lançando muitas sombras sobre os laboratórios. Estas sombras se tornam ainda mais intensas quando se sabe que a produção de armas de morte, cada vez mais sofisticadas, também passa por laboratórios. Mesmo quando as experiências ali realizadas seriam teoricamente em favor dos seres humanos, sempre sobram questões referentes a uma espécie de elitismo, no sentido que os avanços só iriam servir, de imediato, para evidenciar as desigualdades sociais. Enfim, o encaminhamento de recursos públicos destinados a atender às necessidades básicas de toda a população, para empresas particulares de biotecnologia acabam completando um quadro com muitas interrogações.
Entretanto, apesar desta e de outras ambiguidades, é preciso reconhecer que pesquisas em laboratório se tornaram simplesmente imprescindíveis para múltiplas atividades hodiernas. Em primeiro lugar, são elas que garantem grandes progressos em termos agroindustriais, tanto no sentido quantitativo, quanto qualitativo. Em seguida, são elas que prometem avanços significativos na busca da cura de muitas doenças e, sobretudo, de doenças de cunho genético. Em terceiro lugar, a própria economia no seu todo, de alguma forma, remete sempre mais para os laboratórios como fontes alternativas de energia: a bioenergia. Por tudo isto, não há como não dar um “sim” decidido às pesquisas levadas adiante em consonância com os pressupostos éticos próprios da pesquisa e no intuito da melhoria das condições de vida para todos.
3.6 “Sim” às pesquisas com células adultas
A busca de uma fonte da eterna juventude e de uma vida saudável sempre alimentou a imaginação humana, como também sempre alimentou a imaginação humana a caça aos tesouros. As células-tronco vêm exercendo um fascínio semelhante nos dias de hoje. Ao menos na imaginação popular, aguçada por uma mídia sensacionalista, as células-tronco funcionam como uma espécie de fórmula mágica para resolver todos os problemas de saúde e, de alguma forma, os maiores problemas humanos. É que vem evidentemente exagerado o número e o significado de doenças genéticas em relação aos demais males que atormentam a humanidade. Com o respaldo de certos setores ligados às pesquisas de laboratório, aos olhos do grande público, qualquer pesquisa seria eticamente justificável, desde que voltada para a busca da cura. No meio de tantas expectativas e de tantos equívocos, uma coisa parece certa: a Igreja seria o grande obstáculo para tais pesquisas e, portanto, para a cura de tantos males.
Efetivamente, hoje já se sabe que, para além dos evidentes problemas éticos, as células embrionárias ainda não mostraram nenhum efeito positivo nas pesquisas efetivadas com animais. Até pelo contrário, as tentativas seriam causadoras de teronomas. E, mesmo em se tratando de células adultas, convém ser prudentes. Se é verdade que há boas expectativas em relação a uma eventual regeneração de tecidos e órgãos, é preciso ressaltar que todas as experiências ainda são muito incipientes. Entretanto, uma vez presentes estas salvaguardas, não se vê por que não incentivar pesquisas com células adultas. Ou seja: cabe à Igreja deixar claro que seu “não” só tem um sentido quando se trata de células-tronco: ela sempre se oporá ao uso de embriões e a experimentos com seres humanos que contrariem a ética. Fora disto, ela junta suas esperanças com as esperanças do mundo.
3.7 “Sim” à transparência nos resultados
Descobertas de cunho genético e interventos de cunho biotecnológico passaram a fazer parte de uma espécie de cardápio obrigatório de certos meios de comunicação social. Com isto, não apenas se popularizaram as eventuais conquistas, mas também as conquistas se tornaram uma espécie de obrigação moral para os pesquisadores. Como pesquisas desta natureza exigem grandes investimentos, muitos pesquisadores acabam sendo vítimas de uma pressão nunca vista para apresentarem resultados sensacionais, repetidos e rápidos. É a proclamação destes resultados que, em poucos momentos, pode tornar-se mundialmente conhecida uma pessoa ou uma equipe até há pouco desconhecidas.
Todas estas pressões na linha de “celebridades” tornarão muito difícil o reconhecimento de eventuais fracassos. Mesmo que para pesquisadores sérios tais fracassos sejam facilmente assimilados, eles dificilmente são divulgados. Ademais, mesmo que divulgados, a “onda” de sucessos que rodeia todas estas questões é tamanha que, de qualquer forma, aos olhos do público, o que leva o selo com a palavra “científico” carrega o selo de “inquestionável” e “verdadeiro”. E é justamente na direção da verdade do Evangelho da Vida que se aplaudem todas as comprovadas conquistas que importa dizer “sim” à transparência dos resultados e a eventuais desmentidos.
3.8 “Sim” à qualidade de vida para todos
De alguma forma, a humanidade sempre sonhou com uma vida saudável, longa e feliz. Neste sentido é que também são exaltadas as vidas de tantos personagens do Antigo Testamento, que tiveram muitos longos anos de vida, como sinal das bênçãos de Deus. Ainda que a partir de uma leitura mais criteriosa do todo da Sagrada Escritura, e mais particularmente do Novo Testamento, à luz dos sofrimentos, paixão e morte de Jesus Cristo, se vão impedir tais simplismos, não há dúvida de que a busca de qualidade de vida não se apresentará como antievangélica. Isto, porque o próprio Jesus diz que veio para curar os enfermos e para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).
Uma vez aceito o princípio, a questão que fica é a de definir o que se entende por qualidade de vida. O culto ao corpo e uma compreensão por demais biológica de saúde vai impedir que se avaliem devidamente os milagres de cura efetuados por Jesus. Na realidade, nos Evangelhos, a cura dos doentes vai muito além de uma simples cura pessoal. É que o mesmo Jesus que traz a “salus” a traz num duplo sentido: no biológico e no espiritual. Ademais, saúde tem tudo a ver com relações humanas. Só é saudável quem se relaciona devidamente com Deus e com o próximo e com toda a criação. Em outros termos: cabe à Igreja proferir um grande “sim” à qualidade de vida, desde que esta seja entendida em toda sua amplitude e profundidade.
3.9 “Sim” ao incremento dos meios convencionais
O ressalto exagerado sobre a importância do código genético, além das ilusões já apontadas, carrega consigo outro risco: o de colocar num segundo plano justamente aquilo que é mais importante, ao menos na fase da denominada vida adulta, que são os hábitos de vida e as condições básicas da existência. No que se refere aos hábitos de vida, comprovadamente os bons hábitos tendem a favorecer uma vida saudável, enquanto os maus hábitos tendem a comprometê-la ou até a impedi-la. Da mesma forma, fica cada vez mais claro que o código genético não pode ser entendido como uma espécie de cofre forte, selado, que contém um tesouro. O código genético remete para uma interação contínua entre os vários elementos que o compõem e o meio ambiente. Uma nova consciência ecológica derruba qualquer compreensão imobilista em relação ao código genético e sua atuação. Em outros termos: não há código genético que seja capaz de fazer levar vida saudável a quem não tem condições mínimas de vida, em termos de alimentação, higiene, habitação etc.
Com isto, ao menos nestes dois pontos, é difícil encontrar qualquer tipo de tensão entre ciência e religião. Qualquer cientista sério vai ressaltar a importância vital do meio ambiente e de muitos outros fatores que possibilitam uma vida saudável ou não. É de se perguntar, inclusive, se a demasiada insistência sobre os fatores genéticos não se reveste de um caráter ideológico, que acaba atribuindo a forças ocultas males que têm origem muito bem identificada. No seu “sim” decidido aos meios convencionais, a Igreja não estará negligenciando os fatores genéticos, nem deixando de reconhecer a importância de pesquisas nesta direção. Seu “sim” será um “sim” de bom senso: não buscar a raiz dos males humanos apenas numa direção. É preciso fazer uma leitura menos reducionista para que os males possam ser devidamente enfrentados.
3.10 “Sim” à nossa condição criatural
Uma leitura cuidadosa dos primeiros capítulos do Livro do Gênesis não deixa muitas dúvidas sobre a raiz última de todos os pecados e, com isto, também de todos os males: cair na tentação de ocupar o lugar de Deus. Ao colocar-se no lugar de Deus, o ser humano acaba tornando-se um verdadeiro tirano em relação aos outros e às demais criaturas. Sobretudo, ao querer ocupar o lugar de Deus o ser humano acaba vivendo num mundo de ilusões: julga-se todo poderoso, capaz de fazer a história pessoal e social. Embora uma certa dose de ilusões seja constitutiva do ser humano, no sentido de “temperarem” um pouco os pesos da vida, as ilusões também podem se tornar perigosas, na exata medida em que levam a perder o senso da realidade. Infelizmente, há hoje certos segmentos da sociedade, e mais exatamente da denominada sociedade científica, que acabam se transformando em centrais para a venda de ilusões.
O senso da realidade é capaz de conjugar presente, passado e futuro; o senso da realidade é capaz de dosar alegrias e tristezas, consciência dos limites e ousadias; o senso da realidade é capaz de avaliar as qualidades e os defeitos das pessoas e das sociedades. Mas o que caracteriza sobremaneira o senso da realidade é ter muito presente a própria condição criatural, com sua grandeza e sua fraqueza: fraqueza, quando se quer agir sozinho, sem Deus, ou até contra Deus; grandeza, quando se age em comunhão com os outros, com todas as criaturas e com o Criador. De alguma forma, só o Evangelho nos pode oferecer este senso do realismo, conjugando elementos tão díspares e até contraditórios quanto estes da cruz e da ressurreição. Só este realismo é capaz de possibilitar a construção de uma nova história.

Conclusão
Não há dúvida de que, embora localizadas, existem tensões entre os que reivindicam liberdade total de pesquisa com seres humanos e aqueles que julgam haver um limite ético intransponível, que se localiza no profundo respeito pela vida em todas as suas manifestações e em todas as suas fases. Não há dúvida também de que grandes progressos no campo da genética e das biotecnologias entusiasmam e espantam ao mesmo tempo. O espanto não vem nem das ciências, nem das tecnologias, nem das biotecnologias, pois estas podem colaborar de maneira significativa para o bem das pessoas e da humanidade. O que espanta é a prepotência de grupos que, em nome das conquistas, baseiam suas pesquisas numa série de pressuposições de caráter reducionista e, por isto mesmo, acabam vendendo ilusões sobre a vida.
É diante desta problemática, de fato nova, que a Igreja se sente uma vez mais desafiada para contribuir, de maneira decisiva, para que, em nome das pesquisas e das ciências, não sejam reforçados ainda mais os mecanismos de uma cultura de morte. Além de um imperativo que brota do Evangelho da Vida, núcleo do Evangelho de Jesus Cristo, aqui nos encontramos diante de uma oportunidade rara para recuperar o protagonismo histórico. Esta missão não será cumprida, e este protagonismo histórico não será recuperado através de respostas de cunho casuísta. Como, embora de força distorcida e reduzida, as posições da Igreja já são bastante conhecidas, parece não ser o caso de ficar repetindo-as pura e simplesmente. A grande Tradição da Igreja revela-nos que, mesmo em meio a grandes embates, uma das tônicas de períodos em que a evangelização conheceu grandes êxitos foi exatamente naqueles em que a Igreja foi capaz de não se fechar em suas certezas e buscar os sinais de Deus em meio às contradições históricas.
Diante disto, parece que o desafio deste momento é, uma vez mais, o de conjugar fidelidade ao patrimônio que vem da fé, com criatividade semelhante àquela que encontramos há cinquenta anos atrás, por ocasião do Concílio Vaticano II. É desta articulação que parece ser imperativo mudar a tônica: em vez da Igreja do “não”, deveremos ser a Igreja do “sim”. Ser a Igreja do “sim” não significa concordar com tudo o que hoje se sustenta em nome do cientificismo. Até pelo contrário. Assim como na Gaudium et Spes, também agora ela não pode deixar de colocar-se decididamente contra certas posturas que se opõem não só às convicções daqueles que abraçam um credo religioso, mas se opõem ao bom senso daqueles que querem, de fato, o bem da humanidade. Entretanto, o Evangelho de Jesus Cristo deixa muito claro que a melhor denúncia é aquela que brota de um bom anúncio. Com Maria, é preciso não ter medo de dizer “sim”, com receio de ser infiel ao Evangelho. A Maria do “sim” aos planos de Deus diz “não” a tudo o que representa o antirreino. Apenas a tônica é outra: não se caracteriza pela denúncia pura e simples aos erros, mas pela busca contínua dos sinais de Deus no tempo, para, a partir deles, colaborar eficazmente na construção de uma cultura da vida. E agora, em seus poucos meses de Pontificado, o Papa Francisco parece decidido a retomar, com força, esta linha: uma Igreja que, de braços abertos e rosto sorridente apresenta ao mundo o Evangelho, no sentido mais original da palavra. Eis que vos trago uma boa notícia...
 

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