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Desconstrução da sociedade ou valores emergentes?

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Síntese: Por mais que seja valorizado o diálogo, em todas as direções, e por mais que queiramos ressaltar os avanços das ciências e tecnologias, não podemos ser ingênuos. Efetivamente, não parece ser por acaso que certos setores da sociedade voltem sempre de novo à mesma tônica: as religiões e, sobretudo, as correntes cristãs, além de atrasadas, seriam obscurantistas. Em nome das ciências, colocam-se em questão até valores que são anteriores às religiões institucionalizadas e, a rigor, nem dependem das religiões. Por isso mesmo, o momento presente requer muito discernimento, para separar o joio do trigo. Nem tudo o que brilha é ouro, e nem tudo o que carrega o adesivo “científico” o é de fato. Muitas vezes, o adesivo pode estar escondendo uma ideologia de grande poder destrutivo de valores indispensáveis para a sobrevivência de qualquer sociedade.

Palavras-chave: Biotecnologia. Poder sem limites. Robotização dos seres humanos. Novas místicas.
Abstract: No matter how valued the dialogue is, everywhere, and no matter how often we might want to underscore the advances of science and technology, we cannot be naive. Indeed, it doesn’t seem to be by chance that certain sectors of society keep returning to the same keynote: religions, especially the Christian streams, besides being backward, are also obscurantist. In the name of science, even values that existed before the institutionalized religions and that strictly do not even depend on the religions are called into question. For this very reason, the present moment requires much discernment to help us separate the wheat from the chaff. Not everything that glitters is gold, and not everything that carries the "scientific" label is really scientific. Often, the label may be hiding an ideology of great power that may destroy values that are indispensable for the survival of any society.
Keywords: Biotechnology. Unlimited Power. Robotization of Humans. New Mystical.


Introdução
Não são necessárias análises de maior profundidade para se perceber que, em termos de valores, nos encontramos numa encruzilhada decisiva. Ainda que os valores apregoados e, ao menos aparentemente, aceitos pela grande maioria da nossa população nem sempre fossem vivenciados na prática, poucas eram as pessoas ou grupos que ousavam contradizê-los e, muito menos, oferecer uma espécie de roteiro alternativo. Esta tônica, que até há pouco marcava o denominado mundo ocidental cristão, se fazia presente de maneira mais acentuada na América Latina e, particularmente, no Brasil. Mesmo com a força de sociedades iluministas que atuaram durante o Império e os inícios da República, mesmo depois da separação entre Igreja e Estado, mesmo com o crescente movimento de dessacralização e secularização, poucas eram as vozes que ousavam bater de frente com figuras mais expressivas da Igreja Católica e, muito menos ainda, com a Igreja enquanto Instituição. Acontecimentos como as visitas do Papa João Paulo II não se traduziam simplesmente como acontecimentos importantes para os “católicos”: eram acontecimentos marcantes para todos os brasileiros e brasileiras e a (preferentemente sem o artigo indefinido) expressão de uma aceitação ao menos teórica em termos de valores fundamentais, sobretudo em referência à sexualidade, à família e à vida.
Coincidindo com a virada do século e do milênio e com certos acontecimentos políticos, este quadro passou a inverter-se rapidamente. Uma explosão de notícias, que de uma maneira ou de outra afetavam a Igreja e suas convicções, foram passando para a sociedade uma fisionomia bem diferente da Igreja e de suas posturas. Assim, passou-se a dar pouco relevo a acontecimentos que poderiam manifestar a força da Igreja, e foram sendo ressaltados fatos que desabonam figuras e instituições religiosas. Ao lado disto, com o anúncio sensacionalista de uma verdadeira avalanche de descobertas ligadas à biogenética, foi sendo armada uma espécie de incompatibilidade total entre ciência e fé. Neste contexto, a Igreja vem sempre apresentada como vilã, e isto por duas razões: a primeira, porque, com seus ensinamentos considerados como retrógrados, estaria tentando frear o progresso das ciências; a segunda, porque esta atitude da Igreja estaria revelando uma insensibilidade total justamente em relação às pessoas que mais sofrem em vista de determinadas doenças de cunho genético e portadores de deficiências de modo geral.
Embora este quadro possa ser visto como resultado da conjugação de fatores históricos e culturais múltiplos, não podem passar desapercebidas certas coincidências, que sugerem a possibilidade de uma orquestração, com objetivos bem determinados. A primeira coincidência já se encontra numa tônica, repetida à saciedade, de que nós vivemos num “Estado laico”. Curiosamente, esta expressão não parece referir-se àquilo que se configura na maioria dos países do mundo ocidental, onde Estado laico nada mais significa do que o Estado não se alinhar com uma religião ou determinada igreja, mas acolher, respeitosamente, em seu seio, todas as manifestações religiosas. De qualquer forma, “laico” não pode ser entendido como “ateu”, sobretudo no contexto de uma nação com suas raízes profundamente implantadas no cristianismo. A segunda coincidência é a de que a “batalha” com o pretexto de “libertar” a sociedade do obscurantismo religioso vai mirando exatamente aqueles valores pessoais e familiares que a Igreja entende como mais decisivos para a promoção da vida e a humanização da sociedade. Mesmo que se deva, a todo custo, fugir a uma espécie de teoria conspiratória, incompatível com uma análise mais serena da complexidade do momento histórico em que vivemos, talvez não seja demais levantar a suspeita de que as muitas coincidências que apontam numa mesma direção talvez não sejam de todo fortuitas. Para examinar serenamente a questão central, nada melhor do que partir das “novidades” que vêm se colocando com maior força. Em seguida, convém perguntar-se por que estas novidades vêm sendo apresentadas com tamanho sensacionalismo. A articulação destes elementos certamente nos ajudará a entender melhor, se nos encontramos simplesmente diante de uma época de mudanças ou de uma mudança de época; se os desencontros poderão vir a propiciar a emergência de novos valores, ou se estão sendo articulados com o objetivo de implantar uma espécie de nova filosofia de vida que abre as comportas para um vale-tudo, onde cada um procede como bem entende. Uma coisa é certa: só enfrentando com serenidade os fatos acima assinalados, poder-se-á abrir caminho para uma postura pastoral adequada: sem paranoias, mas também sem ingenuidade.

1. Uma explosão de novidades com muitas promessas e interrogações

Sabiamente, uma das características da Revolução Industrial foi a aceleração da história. Os sucessivos desdobramentos, decorrentes das sucessivas descobertas em todos os campos, não apenas foram propiciando uma nova maneira de compreender a vida, como também uma nova maneira de viver. Ao contrário das eras anteriores, quando o tempo era o senhor da história, com estas sucessivas revoluções, os seres humanos se tornaram tanto senhores da história quanto do próprio tempo. A velocidade das comunicações faz com que tudo aconteça e tudo seja conhecido em tempo real. O que até há poucas décadas ninguém poderia imaginar é que a velocidade e a ampliação dos conhecimentos fossem abrangendo o mundo todo e revolucionando o modo de pensar, de ser e de viver de praticamente toda a humanidade ao mesmo tempo. Embora não sejam as únicas, as áreas da biogenética e das biotecnologias são as que mais evidenciam esta explosão de novidades, carregadas de esperanças e interrogações. Entretanto, uma análise mais cuidadosa vai levar-nos à conclusão de que conhecimentos e tecnologias são apenas a expressão mais vistosa de um novo ser humano que, de maneira sistemática e consciente, vai se moldando a si próprio. Assim, verdadeira explosão parece apontar mais para uma nova concepção antropológica do que simplesmente para avanços científicos e técnicos. E é nesta direção que cabe a pergunta central que aparece no título: emergência de novos valores ou desconstrução da sociedade?
1.1 Novidades na linha dos conhecimentos biogenéticos: desvendam-se os mistérios
Com certeza, desde sempre os seres humanos se sentiram fascinados diante dos fenômenos naturais e, mormente, daqueles ligados à vida. Gravidez, nascimento, crescimento, envelhecimento, morte, nunca deixaram de apresentar interrogações sem que se chegasse a respostas conclusivas. Mas, muito cedo, desde os primórdios da filosofia grega, foi-se firmando a convicção de que, por trás de tudo, existe uma lógica. Esta lógica tomou uma configuração mais definida com as denominadas leis da hereditariedade, trazidas à luz pelo monge Gregor Mendel, em meados do século XIX. Mas foi só ao longo do século XX que a “caça” aos “genes” foi ganhando sempre novos impulsos e conseguiu estabelecer certos marcos de vital importância: a estrutura do material genético (DNA – 1953), a possibilidade de se “recortar” este material (princípio da clonagem – 1973) e, sobretudo, os avanços científicos oriundos do denominado Projeto Genoma Humano. Muitas instituições e muitas nações, durante exatamente 10 anos, de 1990 a 2000, empenharam-se a fundo para responder às antigas e novas questões referentes à genética: O que são os genes? Onde se localizam? Quantos são? Como se configuram? Quais suas funções? Até que ponto certas doenças manifestam anomalias genéticas?
Sem nenhum exagero, é preciso reconhecer que este mega projeto Genoma Humano foi o coroamento de séculos de buscas. Não é que todas as perguntas tenham encontrado resposta satisfatória, mas, seguramente, foi sendo acumulada uma quantidade nunca imaginada de conhecimentos no campo da genética e de tudo o que dela decorre. Não apenas se chegou a um maior conhecimento dos bilhões de elementos químicos que constituem cada uma das mais de 100 trilhões de células que compõem o corpo humano, como se começou a perceber com maior evidência a interatividade de todos os mecanismos que comandam todas e cada uma das inúmeras formas de vida. O impacto destas novidades foi e continua sendo enorme, traduzindo-se por um duplo sentimento: o de admiração e o de preocupação. Enquanto para uns a complexidade dos mecanismos vitais se apresenta como uma manifestação inegável da infinita sabedoria do Criador, para outros, tudo isto não faz mais do que provar uma mal assimilada teoria evolucionista. Por aí já se vê que os mesmos conhecimentos vão gerando duas posturas opostas: uma de humilde admiração e outra de ultrapassado mecanicismo materialista, capaz de conduzir a todo tipo de experiências, com a previsão de interferências nada animadoras em termos de promoção e preservação dos valores relacionados com a vida.
Os reflexos destes conhecimentos, que vão se avolumando a cada dia que passa, fazem-se sentir, sobretudo, no que diz respeito à transmissão da vida e, mormente, da vida humana. Se antes esta transmissão carregava sempre consigo elementos de uma agradável surpresa, agora, através de processos laboratoriais sempre mais sofisticados e mais precisos, não só vão desaparecendo as surpresas, como elas vão dando lugar a seres cada vez mais programados. Além do mais, de alguma forma, todos os processos que precedem e acompanham a evolução da vida vão despertando a consciência de um novo imperativo moral: o de não deixar a natureza agir livremente, ao acaso, mas o de comandar seus mecanismos. Gerar a vida à moda antiga, ou seja, através do amplexo concreto de um homem e de uma mulher, seria uma espécie de temeridade hoje inadmissível, uma vez que este gesto espontâneo pode estar na origem de graves enfermidades e de muitos sofrimentos. Assim, seria imperioso confiar mais nas tecnologias do que no que se denominava de natureza, pois enquanto as primeiras são a expressão da inteligência humana, a segunda é a expressão de mecanismos cegos, que, se não forem iluminados e direcionados pela razão humana, podem transformar-se em inimigos.
1.2 Novidades na linha das biotecnologias: um poder sem limites
Hoje, mais do que nunca, ciências e tecnologias caminham juntas. Não apenas ciências e tecnologias se complementam umas às outras, como todas juntas formam como que um conglomerado de saberes e poderes jamais imaginados: é assim que nos deparamos com o biopoder, no sentido mais profundo e mais forte do termo. Ao mesmo tempo em que se tornam sempre mais precisos os conhecimentos dos segredos da vida, tornam-se sempre mais viáveis intervenções que visam eventuais correções ou aprimoramentos de partes ou do todo dos seres. Esta nova realidade, por sua vez, pode dar origem a duas posturas completamente diferentes, com repercussões profundas sobre as pessoas, as sociedades e, naturalmente, sobre todos os seres vivos. Num primeiro caso, a compreensão básica é a de que não cabe aos seres humanos propriamente criar algo que nunca existiu, mas descobrir as maravilhas que se escondem por trás daquilo que sempre existiu e continua existindo, mesmo em meio a evoluções mais ou menos acentuadas. Esta postura tem como reflexo uma atitude de admiração e reverência diante daquilo que se apresenta como maior do que a inteligência e a capacidade criadora dos seres humanos. Esta postura se coloca muito mais na linha do aprender a administrar com sabedoria do que na tentativa de alterações mais profundas da identidade dos seres ou da criação de algo de absolutamente novo. Ou seja, neste caso, eventuais intervenções sobre os mecanismos da vida apontam mais para uma linha corretiva do que prospectiva. Já no segundo caso, a pressuposição é a de que tudo é fruto do acaso e os mecanismos vitais carregam consigo o risco de falhas graves e frequentes. Assim, a tarefa dos seres humanos, ápice deste processo evolutivo, não seria nem a de contemplar, nem a de complementar, nem a de corrigir, mas a de agir de maneira preventiva e criativa. Com isto, evitar-se-iam eventuais erros genéticos, e haveria lugar para sempre novas experiências, na tentativa de fazer emergir aquilo que nunca existiu nem poderia existir sem a intervenção humana.
Como se percebe, tanto numa quanto na outra pressuposição, o que se encontra em jogo não são propriamente as tecnologias, mas as ideologias que as desenvolvem e as operacionalizam a partir de certos pressupostos e com certos objetivos. A convergência das inúmeras tecnologias colocou, literalmente, a vida e o mundo todo nas mãos humanas. De observador, o ser humano passa a ator; de criatura, ele passa a ser criador. Tanto pode ser criador no sentido de levar adiante os projetos divinos, quanto o de ir, progressivamente, colocando-os de lado e substituindo-os por outros. E é nesta perspectiva que se compreendem a seriedade de certos procedimentos tecnológicos, aparentemente inocentes e até mesmo benéficos. Este é o caso da transmissão da vida em laboratório, prática cada dia mais frequente, quase não mais questionada e que, no entanto, carrega consigo a marca da mecanização da vida. Pela seleção do material genético, esta mecanização já começa a atuar antes mesmo da fecundação. Em seguida, abre-se a possibilidade não apenas da escolha do sexo, como também de um sempre maior número de caracteres primários e secundários. E, pelos vários processos, vai-se evidenciando o distanciamento cada vez maior entre amor e reprodução. Assim, pela inseminação homóloga ainda se percebe um vínculo entre um homem e uma mulher, pressupostamente unidos por vínculos permanentes. No caso da fecundação heteróloga, os vínculos desaparecem totalmente. E, pela partenogênese e clonagem, não apenas os vínculos desaparecem como emerge uma reprodução totalmente mecanizada desde o início até o final do processo.
Entretanto, a interferência sobre os mecanismos da vida não se limita à fase inicial, nem só à fase embrionária: ela pode ocorrer a qualquer momento, enquanto o ser humano ainda se encontra no útero materno, ou mesmo depois do nascimento. Nem a morte escapa desta sina de ser determinada pela maior ou menor eficácia de aparelhos cada vez mais sofisticados e ideologias de cunho cada vez mais pragmático e materialista. São as máquinas que tanto podem abreviar, quanto prolongar quase que indefinidamente a vida. Na concepção mecanicista, em todos os campos e sob todos os aspectos, o que importa, a qualquer preço, é a obtenção dos resultados projetados à luz de interesses que se distanciam cada vez mais das tradicionais preocupações éticas. Categorias como dignidade, respeito à natureza, respeito à identidade de cada ser, deixam de ser preocupações. É assim que se compreende uma série de procedimentos que alteram tão profundamente a identidade dos seres que eles se tornam irreconhecíveis. Basta pensar nos produtos transgênicos, na combinação genética de espécies diferentes, inclusive entre seres humanos e não humanos. Estas interferências podem chegar ao ponto no qual, com propriedade, se pode falar de verdadeiras quimeras, ou seja, seres que nunca existiram, nem nunca poderiam existir sem o exercício de um biopoder sem limites.
1.3 Novidades na linha da antropologia: seres humanos ou robots?
Já há alguns anos, os robôs deixaram o mundo das fantasias e dos brinquedos, para entrar em cheio no mundo real e da produção. Muitos trabalhos outrora feitos pelos seres humanos passaram a ser tarefa para robots. E mais do que isto: os robots deixaram de atuar na mera produção industrial, para passar a exercer funções bem mais sofisticadas, sobretudo no campo da medicina. Assim, intervenções médicas que exigem maior precisão vão afastando cada vez mais a intervenção manual dos seres humanos, para dar lugar a mini-robots, cada vez menores, mas cada vez mais eficazes e cada vez mais inteligentes. Ou seja: o que originariamente não passava de um produto humano agora passa a agir melhor do que os próprios seres humanos. E é justamente nesta linha que se percebem de imediato os reflexos das biotecnologias sobre a antropologia. Os seres humanos já não sabem pensar, nem se comunicar, nem agir sem aqueles aparelhos que eles mesmos vão criando. Assim, hoje, torna-se quase incompreensível viver e agir sem computadores, celulares ou sem os diversos meios de comunicação, cada vez mais interligados. A era da biotecnologia vai se conjugando cada vez mais com a informática e com a digitalização, onde tudo e todos só agem de modo adequado na medida em que estiverem conectados “em rede”. E, se lembrarmos o alcance e a presença dos chips, que tanto comandam máquinas quanto seres humanos, começamos a perceber melhor o que tudo isto representa em termos antropológicos.
Seria uma ingenuidade pensar que só hoje diante de tantas revoluções simultâneas os seres humanos passaram a sofrer o influxo de fatores externos. O ser humano sempre foi resultado de uma “natureza” conjugada com um “meio ambiente” e com uma “história”. Concretamente, isto significa que a evolução é constitutiva da humanidade e que a interdependência de inúmeros fatores é que nos faz realmente humanos. Isto sempre foi e sempre será assim. Se é verdade que existe um “esse”, existe também um “fieri”, e “esse” e “fieri” agindo dialeticamente são a imagem mais adequada para a condição humana: seres que evoluem na continuidade e que preservam sua identidade na medida em que evoluem. Com tal compreensão não só fugimos de conceitos abstratos, mas entendemos melhor a complexidade da condição humana, onde trilhões de elementos se conjugam dentro de uma mesma espécie e, ao mesmo tempo, se conjugam com todos os outros seres, viventes ou não.
Entretanto, não há dúvida de que a rápida e profunda evolução dos conhecimentos no campo da biogenética e a evolução das biotecnologias propiciaram um salto qualitativo não apenas na autocompreensão, como também de tudo o que existe. E, mais do que isto: estas revoluções sem precedentes não apenas incidem de fora para dentro, mas transformam os seres humanos de dentro para fora. Enriquecimento genético, dopping genético, manipulação genética, intercâmbio provocado entre as espécies, interface crescente entre homem e máquinas, entre neurônios e bits, e tantos outros procedimentos que se encontram hoje na ordem do dia levantam espontaneamente uma antiga questão, só que agora carregada de um peso inédito: mas afinal, quem somos nós, os seres humanos? Qual é mesmo nossa identidade, agora sujeita a tantos influxos, seja espontâneos seja provocados? Diante deste quadro, o que representam os sentimentos humanos, o que representa sua inteligência, suas convicções, sua espiritualidade, suas crenças? Estas são algumas interrogações que não encontram respostas fáceis e que, no entanto, são de vital importância para a questão central que nos preocupa: encontramo-nos diante de novos valores que estão emergindo e aprimorando nossa condição humana, ou nos encontramos diante de projetos muito bem articulados que visam a desestruturação de uma sociedade, para, eventualmente, construir outra completamente diferente? Até que ponto o que se procura é a moldagem de seres humanos submissos a projetos de robotização, ou seja, a seres comandados por ideologias que padronizam para melhor dominar? Até que ponto os valores tipicamente cristãos passam a ser considerados como entrave para a construção de um mundo sem Deus e sem ética?

2. Emergem novas místicas e novos protagonistas
De uma forma ou de outra, a humanidade sempre se movimentou pelo dinamismo de alguma mística. Foram místicas poderosas que movimentaram os grandes impérios e os períodos de maior efervescência em todos os campos. Ademais, ainda que, ao longo da história, nem sempre as místicas apresentassem um caráter especificamente religioso, de uma forma ou de outra, templos e deuses sempre se conjugavam com a busca da realização de grandes sonhos. E até mesmo quando se pensa no marxismo, confessamente ateu, não se pode deixar de perceber que lá no fundo era uma espécie de dimensão religiosa que os impulsionava a se transformarem em verdadeiros mártires do que julgavam ser um grande ideal: o de oferecer condições mais dignas a todos os seres humanos e o de construir uma nova humanidade. E é claro que foi, sobretudo, no campo religioso que várias formas de mística provocaram verdadeiras revoluções espirituais, com profundos reflexos sociais. Basta pensar no fervoroso evangelismo que atingiu seu auge no século XIII: mesmo grupos que se afastaram de Igreja oficial não deixaram de ser testemunhas da força dos ideais evangélicos. Até mesmo quando se pensa em traços hoje considerados como sombrios, como foi o caso das cruzadas, não se pode deixar de perceber que por trás havia uma grande mística: o sonho de reconquistar os lugares santos. E mesmo quando hoje se faz uma leitura menos eufórica das conquistas das Américas e de outros continentes, mormente aquelas efetuadas pelos espanhóis e portugueses, não há como negar que, se é verdade que a espada verteu muito sangue, é também verdade que a cruz carregava consigo ideais empolgantes. E é claro que em tempos mais recentes, a força da mística religiosa se manifestou nas CEBs e numa série de personagens que deixaram nelas suas marcas profundas. E, no entanto, passadas algumas décadas, hoje aquela mística empolgante ou perdeu muito de sua força, ou de alguma forma migrou para outras “igrejas” e propostas religiosas, mais capazes de empolgar as massas com as promessas de milagres fáceis. E é dentro deste mesmo clima da busca de milagres fáceis que preencham o vazio existencial que se compreende igualmente a força de mística hoje encarnada pelas ciências, mormente aquelas ligadas à biogenética.
2.1 Arrefecimento de um protagonismo histórico
De uma forma ou de outra, o cristianismo não apenas marcou de modo indelével o denominado mundo ocidental cristão, como marcou, sobretudo, o denominado Novo Mundo. Tanto ou mais do que a própria Europa, o Novo Mundo se tornaria simplesmente incompreensível, caso se pretendesse apagar os traços cristãos profundamente implantados em todos os segmentos e em todos os aspectos de nossa sociedade. Não apenas grandes movimentos e grandes vultos foram deixando marcas indeléveis, como foram literalmente forjando esta história: história religiosa, cultural e até política. Ainda que se deva reconhecer a presença de outras forças importantes, algumas inclusive adversas ao cristianismo, essas forças se tornam pouco expressivas, quando comparadas como a força da Igreja, seja enquanto instituição seja enquanto religiosidade vivenciada pelo povo. E, se alguma força estranha se fazia mais atuante, é porque, de uma forma ou de outra, ela conseguia conjugar-se com certos setores menos identificados com a Igreja oficial. Assim, sem muitos rodeios e sem muito triunfalismo, devemos reconhecer que o protagonismo da Igreja no Continente Latino-americano e Caribe, de modo geral, e no Brasil, de modo particular, é simplesmente inconteste. Nem sequer eventuais sombras que pairaram sobre certas pessoas, figuras e até instituições oficiais são capazes de colocar dúvidas sobre quem dava a tônica religiosa, política e social.
Tudo isto se tornou ainda mais patente no decorrer da segunda metade do século passado, com a emergência e a impressionante força das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação. Claro que elas não foram os únicos agentes de um protagonismo inconteste: muitos movimentos que carregavam consigo séculos de história nunca deixaram de influir nem nos rumos da Igreja nem nos rumos da sociedade. O fato é que as CEBs deram maior visibilidade de um ponto de vista de práticas sociais transformadoras, enquanto uma teologia de cunho libertador dava o suporte teórico e a visibilidade midiática à presença da Igreja considerada no seu todo. Durante mais de meio século, esta conjugação de forças conseguiu um fato inédito: que a partir da periferia do mundo Igreja e teologia se colocassem com tamanha força que passaram a ser vistas como uma espécie de paradigma de uma nova realidade. Claro que neste contexto não se pode esquecer a presença marcante de uma dezena de personagens, leigos e eclesiásticos, mas particularmente membros do episcopado. Quando sua voz se fazia ouvir, até as forças dominantes na sociedade civil e militar abaixavam o tom. Tudo isto, mais do que documentado em vários tipos de obras, ficou profundamente gravado na mente do povo: se a Igreja fala, é porque ela tem razão. As poucas vozes e os poucos grupos discordantes não passavam de manifestações pouco expressivas quando comparadas com o quadro descrito acima.
Entretanto, de uma maneira muito rápida, todo este quadro foi sendo profundamente alterado. Não apenas Igreja e teologia foram passando para um segundo plano, como outros protagonistas foram assumindo seus lugares. Evidentemente que tanto no que se refere à rapidez quanto à profundidade das mudanças não se pode fazer uma análise ingênua, como se tudo dependesse de algumas pessoas ou movimentos. É todo o contexto, ou seja, confluente de todo tipo de revoluções às quais aludimos acima que deve ser levado em consideração. E é para significar isto que hoje a pergunta já não é tanto aquela sobre época de mudanças, quanto de mudança de época. Sob todos os prismas e em todos os setores, ocorreram deslocamentos de forças e personagens. E, no entanto, uma vez feita esta observação, parece que não se pode deixar de assinalar duas forças que enfraqueceram visivelmente o protagonismo histórico da Igreja católica. A primeira força remete a denominações cristãs, muitas delas vindas originariamente e com muitos recursos da América do Norte e outras nascendo e se desenvolvendo por suas próprias forças aqui. O que as caracteriza em grandes linhas é o aspecto pentecostal e uma espécie de teologia da prosperidade, com acento preponderante em curas milagrosas. A segunda grande força é constituída por um fascínio sem precedentes exercido pelas ciências e tecnologias. O fascínio não deve ser entendido apenas no sentido de entusiasmo ou de vibração diante das conquistas espetaculares que vão se multiplicando a cada dia. O fascínio aqui aparece revestido com dois traços que vão além: aquele de uma espécie de mística leiga que ocupa o lugar da mística religiosa e aquele de poderes milagrosos para curar quase todos os males. Ou seja: ciência e biotecnologias acabam transformando-se em verdadeiras religiões, que não apenas suprem o vazio existencial, como respondem aos mais profundos anseios humanos na linha de uma vida feliz.
2.2 A teologia da prosperidade e a exorcização do sofrimento
Nossa história sempre carregou consigo ao menos duas marcas muito profundas e aparentemente contraditórias. Por um lado, as mais variadas expressões de conformidade com o sofrimento e, por outro, os mais mirabolantes sonhos de felicidade. Dois caminhos se apresentavam para enfrentar o sofrimento: aquele de uma forte mística da cruz e aquele da esperança de uma força milagrosa capaz de acabar com o sofrimento. Um estudo antropológico e cultural mais acurado na busca das raízes mais profundas deste paradoxo, com certeza, iria apontar para a miscigenação racial, cultural e religiosa que acompanha toda nossa trajetória, onde os mais contraditórios elementos acabam se conjugando de maneira um tanto surpreendente. É desta forma que, ao mesmo tempo em que cruz e sofrimento são vistos como inimigos, eles passam a ser vistos como caminho seguro para quem deseja encontrar o caminho da salvação. E é também desta mesma forma que a própria desgraça aos olhos do mundo pode acabar sinalizando o caminho da felicidade. Numa espiritualidade pouco convencional e pouco compreensível para nossos dias, tempo e eternidade, pecado e graça, perdição e salvação acabam oferecendo um quadro não apenas harmônico, mas de certo modo até benfazejo, onde elementos contraditórios aparecem como componentes naturais da presente condição humana. E com isto, mesmo em meio ao que se considerava um vale de lágrimas, as pessoas acabavam manifestando a alegria de viver. Nem a dor, nem o sofrimento, nem a pobreza eram capazes de obnubilar aquilo que pode ser considerado o cerne do Evangelho: é no paradoxo da cruz e da ressurreição que os seres humanos irão encontrar sentido para suas vidas.
Aqui, novamente, como observamos a respeito de outras mudanças rápidas e profundas, não podemos correr o risco de uma simplificação, atribuindo as mudanças a apenas um ou dois fatores. É todo um contexto onde inúmeros fatores se entrecruzam e se reforçam que possibilita a compreensão das mudanças também neste particular da maneira de enfrentar os dramas existenciais. Antes de mais nada, por mais que já se tenha trazido à tona toda a problemática ligada à dessacralização e à secularização, um breve aceno se torna indispensável neste contexto. Para enfrentar os desafios da vida e da morte, ninguém tinha muito como simplesmente deixar de lado o prisma religioso. Num contexto onde não apenas os fenômenos da natureza, como também os recursos desta mesma natureza fugiam muito da compreensão e do domínio dos humanos, nada mais seguro do que agarrar-se em Deus e nos santos. Era através da intercessão deles que os seres humanos alimentavam seja as esperanças de viver melhor, seja as esperanças de eventuais curas, seja ainda a certeza de encontrar uma boa morte. A industrialização, com tudo o que isto significa em termos de colocar recursos desconhecidos ao alcance da mão de um sempre maior número de pessoas, sobretudo no que se refere à medicina, conjugada com a secularização e a dessacralização, foi transferindo os poderes divinos para as mãos humanas. Tudo isto, aliado aos sempre mais desenvolvidos meios de comunicação social, provocou mudanças rápidas e profundas na compreensão da vida, da religião e da tarefa humana. Os denominados movimentos da modernidade e pós-modernidade apenas acentuaram todo este processo de uma espécie de substituição do que era atribuído ao divino pelo que agora deve ser atribuído ao humano.
Entretanto, por mais que se coloque em destaque o influxo destes fatores no sentido de irem esvaziando o peso da Igreja, para uma adequada compreensão da perda deste protagonismo torna-se indispensável trazer à tona um outro fator, desta vez não na linha da dessacralização clássica, mas na linha de uma nova compreensão religiosa que rapidamente se torna competidora da religião católica dominante. O fato é que, nestas últimas décadas, dezenas e dezenas de igrejas de cunho pentecostal, umas provindas de fora e outras originárias, conseguiram fazer com que milhões de católicos ou aderissem a uma destas igrejas ou ao menos assimilassem muito de suas compreensões básicas. E a compreensão básica comum a todas estas novas manifestações religiosas parte sempre de uma leitura mais ou menos fundamentalista da Bíblia e chega sempre a uma mesma conclusão: é preciso deixar de sofrer. A Palavra de Deus, mais do que impor obrigações, é uma Palavra que liberta de todos os nossos males. A teologia da prosperidade, associada aos rituais de todo tipo de curas, não apenas deram um novo ânimo a milhões de pessoas, como possibilitaram a seus seguidores irem assumindo rapidamente uma força social e política cada vez mais visível. Em largos setores da sociedade, ser “evangélico” é quase garantia de ganhar confiabilidade e de subir na escala de todos os ângulos do poder. De alguma forma, ser “evangélico” é também uma quase garantia de vida mais próspera e até mesmo mais saudável. Os refrões soam quase sempre da mesma forma: “eu era pobre e agora tenho muitos bens”; “eu estava doente e agora estou curado”. Com isto, é natural que em não poucas regiões e em não poucos setores a força dos “evangélicos” foi assumindo cada vez mais o lugar até há pouco reservado aos católicos.
2.3 Ciências e tecnologias transformadas em religiões
Ao longo dos tempos sempre surgiram pessoas ou grupos que, de um modo ou de outro, ridicularizavam alguns aspectos religiosos ou se professavam ateus. Entretanto, como já observamos acima, estas eram exceções. Foi só no final do século XIX e nos inícios do século XX que correntes de pensamento mais ou menos articuladas passaram a predizer o fim das religiões, tendo sempre o iluminismo da razão e a ciência como quadro de fundo. Foi assim que Auguste Compte (+1883) apregoava que o desenvolvimento humano iria ocorrer em três etapas sucessivas: a religiosa, a filosófica e a científica. Para ele, a ciência iria suplantar a religião de modo implacável e definitivo. Já para Karl Marx (+1883), a religião, que apenas expressa a angústia humana diante dos mecanismos de opressão econômica e social, está condenada a desaparecer na exata medida em que uma nova estrutura conseguir satisfazer as necessidades de todos. Ou seja: como religião se confunde com “alienação”, fuga da realidade, já não haverá lugar para ela, na medida em que se implanta um novo humanismo, fundado em novas bases econômicas, políticas e sociais. Nos inícios do século XX, foi a vez de Sigmund Freud, em nome da Psicologia do Profundo, classificar certas expressões religiosas como patológicas. Esta patologia só poderia ser superada na medida em que se conseguir trazer à luz as sombras do inconsciente, integrando-o com o plano consciente. Finalmente, entre muitos outros representantes de escolas mais consistentes que apregoavam o fim da religião, não podemos esquecer Max Weber (+1920). Para ele, pode-se lamentar o fato, uma vez que a excessiva racionalização representa um empobrecimento humano, mas a religião será incapaz de resistir aos impactos do racionalismo crescente.
E, no mais, são conhecidas muitas outras correntes de pensamento, quase todas coroadas com o sufixo “ismo” (positivismo, iluminismo, materialismo, pragmatismo, subjetivismo) que, de um modo ou de outro, sacudiram, ao menos ocasionalmente, convicções religiosas e com elas toda uma tradicional escala de valores. E, no entanto, nenhuma destas correntes conseguiu articular tantas forças quanto nos últimos decênios, quando se acentuaram os dois fenômenos aos quais já aludimos acima: uma inédita conjugação de conhecimentos científicos e uma inédita conjugação de tecnologias. Pela primeira, não apenas foram derrubadas as tradicionais fronteiras que delimitavam as competências de cada uma das ciências, como cresce a sensação de que já não há lugar para qualquer mistério. O que ainda não é conhecido sê-lo-á muito em breve. Com isto, já não há lugar para a invocação de algum ser transcendente para explicar o que ainda não sabemos. Pela inédita conjugação de praticamente todas as tecnologias os seres humanos ou já ultrapassaram ou estão prestes a ultrapassar todos os limites outrora atribuídos a uma “natureza” abstrata. Nada do que existe é imutável: nem o que se denominava de identidade de qualquer ser existente nem do que se denominava de “essência”. Como conhecemos seus mecanismos secretos e dispomos de tecnologias eficazes, tudo o que existe pode ser totalmente alterado, e o que ainda não existe pode ser criado ou eventualmente destruído. Assim sendo, para que recorrer a dados religiosos, que só atrapalham a compreensão e a ação humanas? Claro que a religião se coloca num outro nível e se apresenta com outra missão: a de ajudar a desvendar o sentido último de tudo. Entretanto, não é desta forma que ela vem compreendida. A mídia encarrega-se de esvaziar este sentido, mostrando que agora a sociedade adulta dispensa qualquer outro tipo de leitura que não seja considerada “científica”.
Estas observações não valem, contudo, apenas para as “coisas”. Valem para todos os seres vivos e de modo particular para os seres humanos. Pois as referidas convergências de ciências e tecnologias atingem seu apogeu exatamente no que se refere à biogenética e às biotecnologias. Para melhor se compreender o que tudo isto significa, talvez seja o caso de se estabelecer uma comparação entre a revolução industrial e a revolução biotecnológica. O que caracteriza a revolução industrial é o conhecimento da matéria pura e simples e a sua transformação através da utilização de máquinas. Trata-se, portanto, de revoluções mecânicas, no sentido próprio da palavra. As repercussões sobre os seres humanos e os seres vivos são decorrência das alterações operadas no meio ambiente. No caso, agora, das revoluções no campo da biogenética e das biotecnologias, já não nos referimos nem às máquinas no sentido tradicional do termo, nem às repercussões vindas de fora para dentro. Agora, através da biogenética, conseguimos penetrar nos segredos das máquinas vivas e através das biotecnologias conseguimos alterar estes mecanismos secretos, mas com tecnologias muito diferentes. As diferenças não se situam apenas nas dimensões, quando a nanotecnologia vai conquistando sempre mais espaço, como se situam também na natureza dos elementos que denominamos de tecnologias: invisíveis, elas são constituídas mais por ondas imateriais que agem de uma maneira nunca antes imaginada. Através de pulsos quânticos, que entre outras características trazem as marcas da descontinuidade e de deslocamentos surpreendentes, estas novas tecnologias agem sobre moléculas, células, genes e um sem número de elementos químicos que se articulam, mas sem se confundir. Ou seja, quanto mais avançam as ciências e tecnologias, menos necessário se faz qualquer outro tipo de compreensão. Para um sempre maior número de pessoas, as ciências e tecnologias transformam-se em verdadeiras religiões.

3. Coincidências ou um projeto político bem articulado?
O trocadilho “época de mudanças” para “mudança de época” já fala por si mesmo da quantidade e profundidade das mudanças que ocorreram e continuam ocorrendo, sobretudo em termos de valores. Torna-se até difícil enumerar algum campo onde tais mudanças não venham ocorrendo. Ademais, quando se leva em consideração a multiplicidade de situações e culturas diferentes, apesar da força com a qual a denominada globalização vai se impondo um pouco por toda parte, é preciso, a todo custo, fugir de diagnósticos simplificados e padronizados. Como também é preciso fugir de teorias conspiratórias, pois tanto impedem uma análise serena da realidade quanto uma ação pastoral adequada. Tanto esta análise quanto esta pastoral só poderão existir na medida em que se conseguir separar o joio do trigo, não esquecendo que o trigo pode, por vezes, parecer joio. Mas, uma vez feitas estas ressalvas, há uma série de sintomas que, para além da complexidade própria do momento histórico em que vivemos, sinalizam para algo de mais articulado, no sentido da desconstrução daquele conjunto de valores fundantes de nossa sociedade. Um primeiro sinal pode ser encontrado no rosto cada vez mais midiático que as ciências, de modo geral, e as relacionadas com a vida, de modo particular, foram assumindo. Um segundo sinal se encontra numa espécie de exploração dos cadeirantes, como símbolos de todos os portadores de deficiências e vítimas de eventuais doenças de cunho genético. Finalmente, um terceiro sinal aponta para uma série de campanhas orquestradas para questionar teórica e praticamente todos os valores sedimentados pelo cristianismo no que se refere à sexualidade, à família e à própria vida.
3.1 O rosto midiático das ciências
Claro que as várias ciências sempre exerceram um certo fascínio sobre a humanidade, pois são elas que revelam as faces mais ocultas da realidade e que oferecem aos seres humanos subsídios não só para compreender, como também para transformar esta mesma realidade, sempre carregada de mistérios. Entre as inúmeras ciências, além das denominadas ciências naturais, algumas, como as elétrico-eletrônicas, por si mesmas foram se transformando em notícia. Da mesma forma, o fato de saúde e doença, vida e morte remeterem para as ciências biomédicas, foram dando um destaque especial não apenas às respectivas ciências, como também aos detentores destes saberes especiais. Por isto mesmo, a rigor, nada há de surpreendente nas expectativas que acompanharam e acompanham a rápida evolução da biogenética e das biotecnologias. Entretanto, o que ocorreu na última década do século passado, com o desenvolvimento do Projeto Genoma Humano, e o que vem ocorrendo nestes primeiros anos do século XXI ultrapassou todas as expectativas exatamente no sentido midiático do termo. Progressivamente, a mídia foi dando destaque não apenas aos grandes lances, mas foi como que criando sempre novos lances sempre revestidos de muito sensacionalismo. Assim, sem exagero, pode-se dizer que biogenética e biotecnologia são verdadeiras vedetes, que vão deslocando os antigos protagonistas.
Para confirmar esta assertiva, basta recordar o sensacionalismo do anúncio da ovelha Dolly, fruto da primeira clonagem com célula adulta, o anúncio de sucessivas clonagens de outros animais, bem como as primeiras experiências tecnicamente sucedidas de transgenia. Entretanto, a euforia em torno às sucessivas descobertas foi tomando tal monta que não foram poucas as “montagens” de feitos extraordinários nunca confirmados. Este foi, por exemplo, o caso do nascimento de uma nova “Eva”, fruto de clonagem humana, ou, então, do nascimento de um ser humano através de um processo denominado de partenogênese, uma vez que o óvulo é animado sem o espermatozoide. Esta farsa, amplamente denunciada e até mesmo reconhecida publicamente pelo governo da Coréia do Sul, não foi suficiente para arrefecer os ânimos. Uma estranha ânsia de novidades nesta linha faz com que hoje vivamos numa verdadeira aceleração midiática, com novidades praticamente diárias. É que pesquisadores e laboratórios que quiserem progredir têm que ser notícia. É através das manchetes que são garantidos os recursos.
A aceleração midiática tornou-se ainda mais notável em fins 2007 e nos primeiros meses de 2008. Em novembro de 2009, anunciava-se a possibilidade do resgate do potencial “embrionário” de células adultas (maduras). No dia 11 de janeiro de 2010, anunciava-se a possibilidade da retirada de uma célula de um embrião, mas sem eliminá-lo nem prejudicar o seu desenvolvimento. No dia 16 de janeiro: o cérebro de uma macaca estacionada nos USA moveu um robot estacionado no Japão. Na mesma ocasião, se anunciava a possibilidade da criação de embriões híbridos, numa combinação de material genético humano com material genético animal. Este ser já recebeu até um nome: “bebê quimera”. No dia 20 de maio, se noticiava que o Reino Unido havia liberado tais experiências. Dois dias depois, os jornais anunciavam que cientistas australianos teriam conseguido “ressuscitar” gene de tigre extinto, inserindo-o num camundongo e esperando com isto recriar o tigre da tasmânia. Enfim, seria cansativo enumerar todas as notícias que vão na linha midiática. Ainda que não se possam negar muitas descobertas, um estudo mais acurado das notícias sucessivas mostraria que em tudo isto há também muitas descobertas “requentadas”. E a tônica é sempre a mesma: a de demonstrar que é na biogenética e nas biotecnologias que devem ser colocadas as esperanças humanas de uma vida saudável e feliz. Com esta tônica se sugere que agora as fronteiras da ignorância foram definitivamente rompidas e que apenas certos grupos religiosos veem a necessidade de apelos para um Deus Criador e um Deus Salvador: a humanidade se basta a si própria.
3.2 A exploração dos cadeirantes e demais portadores de deficiências
Desde a década de 1980, quando os franceses deram início à pesquisas mais sistemáticas para mergulhar nos mistérios dos genes, ficou evidenciada um nítida preocupação de cunho terapêutico. Mais exatamente, ao pesquisar melhor os genes, esperava-se conseguir localizar os responsáveis por certas anomalias, para, em seguida, buscar os caminhos para uma “terapia gênica”. É verdade que o idealismo inicial perdeu sua força, tão logo foi lançado o Projeto Genoma Humano: várias instituições e nações fizeram prevalecer a “reserva de patentes”. Isto significa: começou a manifestar-se com força um aspecto comercial não só das pesquisas, como também dos ulteriores desdobramentos. Claro que com isto não se excluem as preocupações terapêuticas, mas elas passam a um segundo plano. E só este fato já é muito significativo e ajuda a entender o que desenvolvemos acima: as grandes manchetes têm seu preço e têm quem as financia. Entretanto, há um outro elemento que não pode ser esquecido para se entender os interesses em jogo: os portadores de deficiências, particularmente quando pressupostamente ligadas a uma causa genética, passaram a ter uma visibilidade nunca vista. Esta visibilidade foi num crescendo na exata medida em que os debates em torno da Lei da Biossegurança foram ganhando força. Num primeiro momento, estes debates se concentraram na questão dos transgênicos. Mas, logo em seguida, num mesmo projeto, foram anexados alguns parágrafos visando a liberação de embriões congelados para pesquisas e, por esse caminho, a obtenção da cura de doenças de cunho genético.
Num primeiro momento, os portadores de deficiências mais graves eram apenas evocados oralmente. É certo que, desde o início dos debates, os defensores da liberação dos embriões elencaram os portadores de deficiências como se fossem milhões. Ademais, a associação entre deficiência e cura poucas vezes era feita em termos objetivos, no sentido de evocar as inúmeras vítimas de todo tipo de violência. O que se procurava evidenciar sempre de novo era o número de anomalias genéticas e o número de vítimas de tais anomalias. Os exageros iam, portanto, numa dupla direção: do número de vítimas e do número de doenças de cunho genético. Num segundo momento, no auge dos debates, os portadores de deficiência começaram a ser transportados fisicamente para os debates mais significativos. Assim aconteceu num seminário promovido nas dependências do Senado brasileiro para que fossem ouvidos os representantes das várias religiões. Mais numerosos ainda foram os cadeirantes levados ao plenário por ocasião da última votação. Uma vez aprovado o projeto, a emoção tomou conta não apenas do plenário, como do Brasil inteiro. Ao que consta, nos dias imediatos, os muitos laboratórios de pesquisas na área da genética receberam inúmeros telefonemas com a pergunta, se já estavam começando as terapias genéticas. A mesma pressão física da presença de inúmeros cadeirantes ocorreu por ocasião da primeira Sessão do Supremo Tribunal sobre a constitucionalidade da liberação de embriões, assim como prevista pela Lei de Biossegurança. E o pior é que a exposição destas pessoas vem sempre acompanhada de uma propaganda enganosa, através da venda de ilusões de cura fácil e imediata.
Mas, há um outro ângulo muito mais preocupante da exploração emocional que envolveu todos os debates relacionados com a liberação de embriões para experiências: é justamente o das promessas feitas em nome dos poderes mágicos das células tronco embrionárias. Ninguém duvida que a descoberta das células tronco se constitui por si só num grande avanço científico, com promessas numa linha terapêutica. Mas, para situar bem as conquistas, convém acentuar o que hoje está ficando cada vez mais claro em termos científicos. Primeiro: é preciso distinguir entre células adultas ou maduras e embriões. Os embriões, desde o momento da fecundação, já são portadores de um código genético único, original e irrepetível, capaz de acionar todos os mecanismos da vida em todas as suas etapas. Por isto mesmo, não tem cabimento a afirmação de que estamos diante de células “indiferenciadas”: desde o primeiro momento, os “comandos genéticos” vão transformando em tecidos e órgãos as informações contidas no código inicial. Tudo isto já deixa claro que a função do embrião não é regeneradora, mas propulsora. Assim se compreende que até agora não se tem segurança de nenhum avanço terapêutico a partir de embriões. Ao contrário: as esperanças terapêuticas apontam cada vez mais na direção das células adultas, mais concentradas na medula óssea e no cordão umbilical, mas de alguma forma espalhadas por todo o organismo. Essas, sim, são programadas para regenerar: elas são como que batalhões de reserva para substituir as células mortas. Embora não se deva exagerar no tocante aos resultados obtidos, há bons indícios, sobretudo no que se refere à regeneração de tecidos mais simples e do coração. Além disto, os pesquisadores mais sérios não apenas são muito cautelosos no tocante à terapia de cunho genético, como ressaltam sempre que em nenhuma hipótese podem ser negligenciados os meios convencionais. Recuperação da saúde e vida saudável pressupõe sempre um trabalho simultâneo das múltiplas dimensões que caracterizam a vida, mormente a vida humana.
3.3 Busca de uma sociedade mais humana ou desconstrução de uma civilização?
Não foi apenas em termos de conhecimentos científicos e de tecnologias que o mundo fez grandes progressos, sobretudo nestas últimas décadas. Fez progressos também no sentido mais profundo da palavra, que é o da humanização. Basta pensar na preocupação crescente com os direitos humanos e com os problemas ecológicos. Ao lado disto, de modo ainda mais profundo e abrangente, só podemos nos alegrar com os progressos em termos de consciência ética. As denúncias, neste sentido, revelam, sem dúvida, a falta de ética, mas, ao mesmo tempo, um anseio para que todos ajam com mais ética em todos os setores da sociedade. Por outro lado, Bioética passou a ser muito mais do que uma palavra da moda: ela é o símbolo das buscas de preservar e promover a vida em todas as suas manifestações. Apesar das muitas tonalidades diferentes, representadas por escolas por vezes bem distintas e quase opostas, não há como negar que a vida se encontra no centro das preocupações da sociedade como um todo. Qualidade de vida também deixou de ser uma simples palavra em voga, para se tornar a manifestação de uma procura sincera de garantir a todos melhores condições de vida também sob todos os aspectos. E quando se fala em busca de melhores condições de vida, logo vem à tona o empenho da sociedade para superar todo tipo de discriminações. E é neste sentido que, com certeza, um bom segmento da sociedade se preocupa com a inclusão do grande e variado número dos excluídos de toda sorte. Excluídos por razões econômicas, étnicas, culturais, religiosas, doenças particularmente dolorosas, anomalias etc. Esta sensibilidade por si só não é suficiente para resolver os problemas, mas certamente é um bom indicador dos desejos mais profundos de uma sociedade. Neste sentido, é compreensível que tanto os meios de comunicação quanto grupos organizados coloquem em evidência eventuais distorções. Como também é compreensível que sejam apresentados projetos de lei neste sentido e que, depois de amplamente debatidos, sejam votados, de tal forma que preservem o bem de todos e os valores mais importantes da sociedade.
Entretanto, nestes últimos tempos, foram se manifestando certos movimentos preocupantes, não só pelo que pleiteiam, mas também pela maneira com que o fazem. Neste sentido, podemos colocar em primeira linha justamente a questão do uso de embriões congelados para experiências ditas terapêuticas. Como ficou evidenciado acima, a campanha maciça deixa entrever intenções que vão muito além da compaixão para os que sofrem. Para comprovar isto, basta observar que, mal passa um projeto, já se apresenta outro e sempre nas mesmas direções: liberalismo total em todos os campos e a eliminação da vida sob os mais diversos pretextos. É nesta linha que se encontram os movimentos e projetos em favor da descriminalização do aborto, o uso de qualquer contraceptivo, inclusive a denominada “pílula do dia seguinte”. E já começa a ser preparado o terreno para a eutanásia. No que se refere ao liberalismo, o que mais se evidencia aponta para os comportamentos sexuais, embora não sejam os únicos. Em termos de comportamento sexual, a única insistência é que o sexo seja “protegido” e que não se trate de pedofilia. No mais, além de um quadro familiar cada vez mais complexo pelas uniões sucessivas e vínculos sem maiores compromissos, vai se impondo com força a tentativa de equiparar a união sexual à união matrimonial, inclusive com o direito de adoção de crianças. E o que é mais preocupante é a tentativa de implantar uma lei contra a homofobia, entendida no sentido mais amplo possível. É certo que ninguém deve ser discriminado nem por sua tendência, nem por sua orientação sexual. Mas, por outro lado, há facções do movimento gay que procedem exatamente da maneira inversa: em certos ambientes, começam a discriminar os que não compartilham de sua orientação.
Finalmente, como viemos acentuando desde o início, a questão central que se coloca não é apenas a do questionamento dos valores, mas é também a da maneira como estes questionamentos são feitos. A começar pela questão da reprodução assistida e pelo uso de embriões, mas passando também por uma multiplicidade de outros valores, alguns aqui sinalizados e outros não, o que se percebe é sempre a mesma tentativa de estabelecer um confronto entre ciência e fé, Igreja e sociedade. Em cada uma destas questões volta sempre de novo a mesma tônica: o que o cristianismo sempre apresentou como valores, na realidade, estaria sendo o grande empecilho para a construção de uma sociedade “avançada”. Traduzindo, a partir da comparação com um certo número de países, sobretudo da Europa Central, o Brasil só passará para o Primeiro Mundo, na medida em que derrubar os entraves representados pelos valores religiosos, mormente os que remetem para a Igreja católica. E é à luz das “batalhas” que se estabelecem e da maneira como são conduzidos os debates que se percebe que a desconfiança de estarmos nos defrontando com um projeto de desconstrução de uma sociedade não parece destituída de fundamento. Como também não parece destituída de fundamento a desconfiança de que não se trata apenas de um projeto local, e sim de um projeto articulado em escala maior.

Conclusão
Sem dúvida, vivemos um momento muito rico da história da humanidade e também de nossa própria história brasileira e latino-americana. Não há como negar avanços, por exemplo, em termos da busca de uma sociedade mais participativa e menos marcada por desigualdades gritantes. Embora muitos sejam os desafios que permanecem, em todos os campos, aos poucos vai sendo desenhado um outro mapa do Brasil. Da mesma forma, não há como não perceber os solavancos próprios de um mundo cada vez mais globalizado, onde através dos meios de comunicação se evidencia cada vez mais claramente a existência de muitas pluralidades: culturais, religiosas e também éticas. O confronto no campo dos valores não precisa ser forçosamente entendido de maneira negativa. Até pelo contrário, muitas vezes os confrontos obrigam a todos a buscarem as razões de sua fé. Algo de parecido deve ser dito também com respeito ao aparecimento de muitas maneiras diferentes de se entender e vivenciar a fé cristã. A pluralidade das igrejas, se devidamente trabalhada, pode ser um caminho de um maior aprofundamento para todos e, consequentemente, uma contribuição para a construção de uma casa onde todos mantenham sua originalidade, mas na busca de uma unidade fecunda.
Nem mesmo certas expressões radicais precisam ser motivo de espanto. Afinal, ao longo da história, cinismo, anarquismo, agnosticismo, materialismo, secularismo, subjetivismo, pragmatismo e tantos outros “ismos”, com certeza, não foram apenas expressões de alguns filósofos esparsos, que, aqui e ali, fizeram questão de manifestar sua não conformidade com o pensamento e com as estruturas vigentes. Dentro deste contexto é preciso não esquecer que nem sempre o cristianismo deu a tônica à história humana. Ao longo de seus dois milênios de existência, ela enfrentou muitas situações adversas e sempre conviveu com uma série de outras expressões religiosas e éticas. O que causa preocupação é que aquilo que se apresentava como uma espécie de exceção agora seja proposto como norma. E mais exatamente, o que causa preocupação é que, valores que remetem para a profundidade do ser humano e que sempre foram vistos como vitais para a construção da sociedade passem a ser considerados não só como desnecessários, mas até como expressão de obscurantismo. É diante deste quadro que se percebe a urgência de a Igreja saber discernir onde se encontra o joio e onde se encontra o trigo. Sem cair numa espécie de paranoia, de quem vê no momento presente sinais de uma derrocada total, a Igreja não pode deixar de localizar bem os desafios para poder dar sua contribuição indispensável. A tônica do Documento de Aparecida constitui-se, sem dúvida, num excelente ponto de partida para que, mesmo em meio às sombras, saibamos perceber muitos raios de luz. Um eventual projeto de desconstrução tanto pode provocar grandes estragos como também pode ser uma espécie de sacudida para que os que têm o privilégio da luz do Evangelho percebam melhor qual é sua missão na sociedade.
 

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