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Por que o Papa parece estar tirando os animais e o encanto do presépio?

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Dependendo um pouco das regiões e culturas, a Festa do Natal não apenas é celebrada liturgicamente, como também “é a festa da ternura humana que se conjuga com a ternura de Deus”. Neste contexto, relembramos a “noite de Greccio”, quando, em 1223, acompanhado por muitos fiéis que carregavam tochas acesas em suas mãos, São Francisco deixou transparecer todo seu encantamento pelo Deus que se fez homem. Ali numa gruta, ele mesmo, emocionado, cantou o Evangelho do nascimento de Cristo, enquanto um burrinho e um boi comiam do abundante feno que mandara providenciar. A partir de então foram se multiplicando presépios com personagens de todas as raças e animais das mais diversas espécies, sobretudo ovelhas e cães, e, junto dos tradicionais burrinho e boi, tornaram-se imprescindíveis nas igrejas e também em muitas famílias cristãs. Ademais, num país como a Alemanha, por exemplo, ou em certas regiões do sul do Brasil, a árvore de Natal, ornada com luzes e velas, tornou-se quase que um símbolo sagrado.
A proximidade do Natal propiciou ao Papa Bento XVI a melhor oportunidade para publicar o terceiro e último volume de sua obra sobre Jesus de Nazaré. O primeiro deles foca Do batismo à transfiguração; o segundo, Da entrada em Jerusalém até a ressurreição; e agora, o terceiro, aparece com o título: A infância de Jesus. Há vários elementos curiosos nesses três volumes. O primeiro consiste no fato de a autoria ser de Joseph Ratzinger, seguida por “Bento XVI”. Logo se percebe que, como em livros anteriores, suas pesquisas e escritos não querem empenhar todo o peso doutrinário atribuído a um documento papal; no caso, a Bento XVI. Um segundo elemento curioso aparece no fato de ele citar relativamente poucos teólogos no texto, mas indicar uma lista de pesquisadores para cada capítulo. Com isso, parece sugerir que está fazendo teologia, como outro teólogo qualquer e, por assim dizer, disposto a dialogar com eles. Chega inclusive a citar a opinião de alguns teólogos, segundo os quais Jesus não teria nascido em Belém, e sim em Nazaré. Mas, com argumentos teológicos, o teólogo Ratzinger diz não aceitar esta posição: “Eu não vejo que não se possam aduzir, apoiando tal teoria, fontes verdadeiras” (p. 58). Como se percebe, deixa de lado até mesmo o chamado plural majestático.
Entretanto, há outros posicionamentos que chamam a atenção, como, por exemplo, o fato de aceitar o que alguns teólogos mais ousados vinham sustentando há décadas: que Jesus não nasceu no ano que consideramos o primeiro de nossa era, mas entre os anos 6 e 7 a.C. (p. 81). Conjugando esta assertiva com outra que de alguma forma obnubila a maravilhosa e mágica estrela de Belém, faz uma interpretação científica dela: “A conjugação astral dos planetas Júpiter e Saturno no signo zodiacal de Peixes, que teve lugar nos anos 7-6 a.C. – considerada hoje a verdadeira data do nascimento e Jesus –, poderia ter sido calculada pelos astrônomos babilônicos, tendo-lhes indicado a terra de Judá e um recém-nascido ‘rei dos judeus’” (p. 81). Ademais, os “magos” não seriam mais os majestosos “reis magos”, mas apenas astrônomos e “sábios” que estavam em busca do verdadeiro Deus.
Nesta espécie de interpretação hermenêutica surpreendente sob muitos aspectos e para muitos fiéis, nem o Rei Herodes escapa: ele teria morrido no ano 4 de nossa era; portanto, dois a três anos antes do nascimento de Jesus. E o que ainda mais surpreende é que o Cardeal Ratzinger acaba tirando do presépio até os tão singelos, mas ao mesmo tempo tão queridos personagens, que são o boizinho e a vaca, sempre acompanhados por pastores com suas ovelhinhas e até cachorros. Para o Cardeal Ratzinger, a presença dos animais no presépio seria uma espécie de preenchimento de uma lacuna e resulta apenas de uma meditação guiada pela fé (p. 61). Ou seja: como São Lucas fala de manjedoura, logo se fez a conexão com o lugar onde os animais se alimentam. E ainda mais que o Profeta Isaías (1,3) tem uma frase que justificaria a presença de animais: “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não pode entender”. E com os animais sendo tirados do presépio imaginário, os pastores também não teriam sido propriamente chamados por um anjo. A visita dos pastores, “hóspedes da Sagrada Família, quer simplesmente dizer que Jesus nasceu fora da cidade, num ambiente circundado por todo o lado de pastagens, para onde os pastores traziam os seus rebanhos. Por isso, era normal que os primeiros a serem chamados para ver o Menino na manjedoura fossem os pastores que estavam perto do acontecimento” (p. 63).
Diante destas colocações, que à primeira vista empobrecem o presépio e até do próprio Natal, assim como estamos habituados a celebrar, nada mais espontâneo do que se perguntar: Será que o teólogo-cardeal, que mesmo havendo assumido o papado, despojando-se agora de todos os demais títulos honoríficos, não estaria esvaziando o presépio e até o Natal daquela aura de poesia e de ternura que toca até os corações mais duros? Como celebrar o Natal sem o encanto que nos transmitem tantos símbolos que por si mesmos são como que o canto dos anjos e os raios das luzes de Belém? Boa pergunta. Com certeza, o papa não está nem sugerindo que se acabem com os milhares de modelos de presépios expostos em todo o mundo cristão na época do Natal nem que se tirem dele personagens, animais e plantas. Aliás, todos esses símbolos são como que um profundo tratado ecológico, nos quais, em torno de Cristo, toda a criação se prostra reverente e se abraça. Mas então, por que o papa faz tais afirmações em um livro no qual comenta as narrativas da infância de Jesus segundo Lucas e Mateus? Para quem conhece os escritos de Ratzinger, ele certamente quer dar uma mensagem muito atual e profunda: não deixem de armar os presépios e as árvores de Natal, nem esqueçam os símbolos tradicionais; apenas não confundam nem reduzam o mistério de Deus que se fez homem com esses elementos secundários. Relembrando a mensagem dos anjos em Belém, o papa certamente está recomendando que continuemos a festejar o Natal e continuemos a erguer nossas vozes com aqueles tradicionais e inesquecíveis cantos típicos desta época do ano. Muito menos sugere que já não se cante o Noite Feliz, composição genial de Gruber. Apenas, uma vez mais, o papa mostra sua preocupação com o mundo que se afasta do Cristo e de sua mensagem central, e até com muitos cristãos que estão em crise de fé. Esta não é recuperada com representações, por mais ternas que sejam, mas com o dobrar os joelhos diante de Deus, que nos enviou seu Filho para ser um de nós e mostrar-nos o caminho da salvação.
 

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