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O custo da vaidade

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Não há quem deixe de se alegrar com o progresso e o aparecimento de novas tecnologias, também quanto às próteses. Estas não apenas vão se tornando mais seguras e numerosas como, em decorrência disso, propiciam alívio aos sofrimentos e desconfortos de um sempre maior número de pessoas. Basta pensar em prótese de perna, braço, dente... E por extensão podem ser consideradas “próteses benéficas” até mesmo aquelas que substituem algum órgão. Portanto, são “próteses corretivas”, e contra as quais ninguém pode levantar qualquer tipo de objeção, desde que sejam respeitados os já conhecidos princípios éticos.
Mas também existe um segundo grupo de prótese: a não corretiva, utilizada por razões mormente estéticas. Nesse grupo é que surgem as dificuldades. Até onde procedimentos de natureza estética podem levantar questionamentos éticos? E aqui é possível distinguir entre os procedimentos mais e os menos profundos. Ainda que pintar unhas, colocar brincos, tentar diminuir a profundidade e o número de rugas e estrias, por exemplo, sejam manifestações de vaidade, são consideradas normais. Afinal, todos têm o direito de sentir prazer ao se olharem no espelho. A autoestima, tão importante para o bem-estar das pessoas, também está relacionada à aparência.
Portanto, não é nesse nível que se colocam as interrogações. Mas nos focamos na “cultura” advinda de um marketing, cada vez mais poderoso, que leva as pessoas a pensarem que quase tudo está errado nelas: tamanho e formato do nariz, das orelhas, formato dos olhos, do rosto, e assim por diante. E aqui cabe lembrar que o Brasil se tornou referência em cirurgias de cunho estético.
No que se refere às próteses mamárias, há utilização para fins corretivos e também como satisfação de vaidade desmedida, ditada pela moda. E a grande maioria das pessoas é sabedora que esse tipo de prótese não é isenta de riscos e não tem caráter definitivo. Ou seja, após um período mais ou menos longo do implante são necessárias novas intervenções. Isso, além do peso econômico, desencadeia o peso psicológico; certa angústia se apossa da mulher, que se vê obrigada a fazer sucessivas cirurgias.
A constatação que veio à luz ultimamente sobre certa marca de silicone trouxe grande inquietação. As mulheres envolvidas têm o direito de terem os custos do procedimento cobertos pelo SUS ou por seus planos de saúde? Terão o direito de serem ressarcidas pelos incômodos sofridos?
As questões vão se multiplicando na medida em que próteses de cunho estético não se restringem apenas aos seios ou ao rosto... Um sempre maior número de pessoas parece disposto a se deixar “turbinar” em diversas regiões do corpo. Intimamente constata-se uma concepção antropológica que, de maneira sub-reptícia, sugere que nosso corpo nunca está bem; ele nasceu e se desenvolveu com inúmeras deficiências.
Por mais incrível que possa parecer, aqui emerge um grande paradoxo: se por um lado há a tendência para a idolatria de certos corpos, por outro há o desprezo cada vez mais acentuado pelas pessoas que são donas de um corpo que foge ao figurino. A idolatria comporta o corpo das beldades e celebridades; o desprezo, o corpo das multidões maltratadas por diversas razões. Por um lado remete-se à falta de condições mínimas de vida e de higiene; de outro, para comportamentos que pouco a pouco vão desmontando os corpos.
Aqui não vem ao caso apedrejar pequenas vaidades. Mas certamente vem ao caso oferecer a todos a oportunidade de não irem na onda, muito menos quando se trata de “turbinar” seu próprio corpo. Grandiosa e sábia é a concepção cristã quando, em textos bíblicos, assegura-nos que o corpo é templo de Deus e que, por isso mesmo, deve ser reverenciado, até mesmo depois da morte; mas nunca idolatrado. O custo da idolatria e de certas vaidades é muito alto para ser oferecido no holocausto de um mundo em que, ao lado de tantas pessoas de bom-senso, certos setores levam multidões a pagar caro por suas vaidades.
A ânsia do perfeccionismo vai ainda mais longe, começando a invadir o campo da biogenética: são sempre mais numerosas as ofertas e procuras por testes feitos sobre embriões; se estes apresentarem qualquer risco de anomalia há uma espécie de “dever moral” eliminá-los. Desta quase obsessão pelo corpo perfeito até a justificação da eugenia pura e simples vai ficando cada vez mais clara a oportunidade que a problemática agora em causa (corpos turbinados por razões estéticas ou por modismo) nos oferece: a de repensarmos sobre o sentido do bem-viver.
 
 

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