EMBRIÕES CONGELADOS: POR TRÁS DOS BASTIDORES
Dr. Frei Antônio Moser - Especialista em Bioética
Todos nos alegramos com os avanços das ciências e das tecnologias. Entre essas, com razão, vêm merecendo destaque a biogenética e as biotecnologias. Pela biogenética vão, cada vez mais sendo desvelados os mistérios da natureza e da vida. Pelas biotecnologias cresce o biopoder, ou seja, a capacidade de interferir sobre os mecanismos mais secretos da vida. Com isto temos razões para sonhar com uma “casa” onde, apesar de todas as contradições inerentes à condição humana, todos tenham a satisfação de viver muito e com melhor qualidade de vida.
Uma vez sinalizado o que se passa no palco, cabe agora localizar os personagens que se encontram por trás das cortinas do palco, e sobretudo o porquê de tantos ruídos estranhos que daí procedem. A comparação do “palco” e dos “bastidores” não é fortuita. Para evidenciar os muitos interesses que estão em jogo convém não esquecer que nestas últimas décadas, e sobretudo a partir da virada do século e do milênio, questões relacionadas com a biogenética e biotecnologia passaram a ocupar um lugar significativo não só na mídia, como também nos meandros, da economia, da política e da religião. Ao lado do compreensível sensacionalismo com o qual são enunciadas eventuais descobertas ou simples possibilidades remotas de que um dia se chegue a algum resultado mais concreto, é preciso armar-se de alguma malícia para encontrar os atores e seus reais interesses.
Antes de mais nada, quando tratamos de biogenética e biotecnologia sempre carregamos conosco uma concepção antropológica. Quem parte do pressuposto de que o ser humano é química, e somente química, nunca passará do plano biológico. Entretanto, para quem visualiza o ser humano na multiplicidade de dimensões e na complexidade dos fatores que sobre ele atuam, nada mais simplório do que apostar todas as cartas numa das dimensões. Por isto mesmo, quando se trata de qualificar alguém como saudável ou não, as divergências são inevitáveis. As divergências serão maiores ainda quando se raciocina em termos de felicidade ou infelicidade. Nesta pressuposição os bem dotados são todos muito felizes, enquanto os portadores de alguma deficiência, ou alguma limitação, serão sempre desgraçados.
Ademais, não se sabe bem o porquê, mas há um evidente desejo por parte de alguns setores da sociedade, em exagerar quando se trata do número de doenças de cunho genético, como também há um evidente empenho por ocultar outros fatores que se encontram na origem de tantos sofrimentos. Há ainda pouco tempo atrás parecia que todos os problemas da humanidade se resumiam nos “incontáveis” casos de anencefalia.... Agora amplia-se um pouco o leque, de preocupações, desde que nestas não apareçam fatores econômicos, sociais, psíquicos, afetivos, morais...Para alguns saúde pública é sinônimo de liberação de embriões para qualquer tipo de experiência e descriminalização do aborto. Pela lógica deste raciocínio, daqui a pouco a saúde pública vai exigir também a eutanásia.
Mas há ainda outro personagem que fica sufocado por trás das cortinas do palco. Ele denomina-se sentido da vida. E com ele, vêm uma concepção de sexualidade, uma concepção de amor, uma concepção de matrimônio, uma concepção de dignidade e naturalmente uma concepção de reprodução humana. Claro que ninguém vai questionar a busca de melhoria das espécies animais através de técnicas cada vez mais sofisticadas. Entretanto, a não ser que queiramos assumir os princípios da eugenia, não há como silenciar diante da desumanização que a denominada reprodução assistida carrega consigo. No caso já não estamos diante de um apoio que a tecnologia pode e deve oferecer aos seres humanos, mas estamos diante de uma substituição pura e simples do que mais caracteriza o humano, que são gestos concretos de amor. E isto se denomina de manipulação, no sentido mais forte da palavra, pois a vida nascente não é mais tratada como vida, mas como “material biológico”. E ao ser considerada como material biológico passa a ser tratada como simples mercadoria.