FREI ANTÔNIO MOSER: um intelectual de carne e osso

 

Por Carla Coelho

 

            Frei Antônio Moser estudou Filosofia e Teologia em Petrópolis, após isso cursou a licenciatura em Teologia em Lyon, França e doutorou-se em Teologia, com especialização em Moral, na Academia Alfonsianum, de Roma.  Atualmente é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis,  membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis, Pároco da Igreja de Santa Clara e assessor para assuntos de Bioética da CNBB.

            Durante 10 anos lecionou também Teologia Patrística, foi professor na Pontifícia Universidade Católica - PUC - do Rio de Janeiro, lecionando na graduação e na pós-graduação. É autor de 18 livros e centenas de artigos espalhados por revistas científicas em todo o mundo.

            Mesmo possuindo um currículo e formação intelectual invejável, o entrevistado dessa edição é uma pessoa simples e de origem humilde. Acredita que as mudanças dependem da força de vontade das pessoas e tem certeza que a coragem é a mais importante das qualidades.

 

PETRÓPOLIS EM CENA: De onde surgiu a vontade primeira de se tornar franciscano?

FREI ANTÔNIO MOSER: Eu nasci em Gaspar, Santa Catarina, e desde os sete anos eu era coroinha. Lá é uma Paróquia Franciscana e tinha um “velhinho” que celebrava a missa todos os dias às 6h da manhã, que se chamava Frei Solano. Nós chamávamos de Tio Solano e tínhamos um laço de amizade muito grande. Além disso, durante o período de férias, por exemplo, eu passava no convento alguns dias para substituir o sacristão. Daí surgiu minha vocação e surgiu de tal forma que nunca pensei em ser outra coisa senão Padre Franciscano, como se falava antigamente.

 

PC: Antes de se tornar Frei Antônio Moser, como era a vida do Antônio Moser? MOSER: Em primeiro lugar era uma pessoa muito paparicada, pois era o último da família, o 13º filho, por isso mesmo, não tinha apenas o respaldo dos irmãos mais velhos, mas também dos pais. Na escola tudo transcorreu normalmente, com brincadeiras e “brigadeiras”. Recordo-me de uma briga que um garoto me deu uma cabeçada na barriga, agarrei, dei uma dentada nas costas dele e cheguei e tirar sangue do menino... Quer dizer, não era fácil... Mas normalmente eu não brigava muito, era até tranqüilo... Sempre fui de jogar bola, e tinha um irmão que era o eterno companheiro. Acredito que minha infância transcorreu com tranqüilidade...

 

PC: Qual foi a reação da família ao perceber e ser informada de sua decisão em se dedicar ao próximo através do sacramento da ordem?

MOSER: Toda a família ficou muito feliz e sempre me apoiou de todas as formas. Um dos meus irmãos também foi para o seminário e como ele não perseverou ele me dava todo o amparo sobre todos os pontos de vista, enfim, me protegia.

 

PC: Ao optar pelo seminário, em algum momento passou pela sua cabeça que você se tornaria um intelectual reconhecido internacionalmente?

MOSER: Eu não tinha tanta pretensão, mas desde o seminário menor sempre gostei muito de línguas e aprendi essas línguas mais comuns do mundo ocidental de tal forma que quando cheguei à Europa para fazer os estudos do Doutorado eu falava Francês, com relativa facilidade, Alemão, Italiano e Espanhol. Além disso, sempre tive gosto pela leitura e por isso quando fui fazer os estudos de doutorado na minha cabeça já passava a idéia de ser conferencista, mas não me passava pela cabeça ser tão reconhecido.

 

PC: Quando criança uma barrigada na cabeça conseguiu te tirar do sério. E atualmente o que consegue irritar o intelectual Frei Moser do sério?

MOSER: Pessoas que pensam muito pequeno me aborrecem... eu sou uma pessoa que pensa grande. Temos que pensar grande, tudo hoje é mega.

 

PC: Para leitores despercebidos você pode se transformar no autor de obras sobre Biotecnologia, para outros um grande teórico da Teologia Moral, para outros ainda um questionador sobre do pecado. Conferindo os tantos livros que publicou, percebemos que você optou por escrever sobre várias temáticas distintas. Existe uma explicação para essa observação?

MOSER: A preocupação é sempre a mesma, o ser humano, chamado por Deus para realizar uma vocação. Desse ser humano chamado por Deus vem a Teologia Moral que indica rumos para a realização, em seguida, esse ser humano chamado por Deus é um ser frágil, aí vem à idéia do pecado, da graça, da conversão. Esse ser humano é eminentemente sexuado, dos pés à cabeça, do começo ao fim da vida, por isso escrever sobre esse sentido amplo da sexualidade, da afetividade. Por sua vez esse ser humano está sendo hoje profundamente trabalhado pela sociedade, aí o motivo das obras de cunho mais social, ecológicos, meio ambiente e finalmente Biotecnologia que foi a penúltima investida.

 

PC: Com tantas atividades, com certeza existe uma que é a preferida dentre as demais?

MOSER: Eu gosto de tudo que faço, tal como uma criança que abraça todos os brinquedos ao mesmo tempo... Agora, para conseguir responder a tantos campos ao mesmo tempo, eu sempre contei com pessoas ultra disponíveis para colaborar. Dentro da Editora, quem sou eu sozinho... Simplesmente você conta com o apoio de todos. Com relação à Paróquia de Santa Clara é a mesma coisa, em cada comunidade tem os seus conselhos, e com isso as coisas fluem normalmente. Muita gente ajudou na construção dessas 15 comunidades de fé. No ponto de vista da intelectualidade eu sou um privilegiado, pois mesmo não tendo tempo de ler todos os livros que passam pela minha mesa, eu tenho os diversos tipos de conhecimento nas pontas dos dedos. Por isso eu me sinto capaz de ousar enfrentar todo e qualquer tipo de tema em palestras, entrevistas e programas de TV.

 

PC: Como autor de 18 publicações ao longo da vida, você consegue imaginar uma fórmula de incentivo a leitura aos jovens que ainda acreditam que sem leitura podem conseguir terminar os estudos?

MOSER: Eu gostaria de ter uma resposta pronta, em vista do atuar no ramo livreiro, em vista do mercado do livro. Acredito que a primeira coisa importante para criar o hábito da leitura é que essa criança quer hoje vive na telinha do computador, nos blogs, nos chat´s, que essa criança seja levada a ler, mas ler o que lhe agrada, ou seja, se ela prefere histórias de aventura, histórias de amor, o responsável deve descobrir o que essa criança gosta e incentivar desde sempre. Cabe aos pais e professores, não ensinar apenas, mas ajudar essa pessoa a focar seu interesse para um determinado ponto que vai servir de referência continua para todo o seu modo de agir, de pensar.

 

PC: Sabemos que você acaba de lançar o site www.antoniomoser.com. O que o motivou a criar esse portal?

MOSER: Estou convencido de que quando fui ordenado sacerdote o mundo era o mundo do contato pessoal, esse mundo não acabou nem vai acabar, mas hoje o que não está na mídia, na internet é como se não existisse. Você tem que se adequar a TV, aos sites, para que através do texto, do conhecimento, ajudar os filhos de Deus. O sonho é o mesmo de quando jovem recém ordenado, mas os métodos são diferentes e sobretudo os meios são diferentes.

 

PC: Para terminar, deixe uma mensagem aos nossos leitores:

MOSER: Espero sempre tê-los presentes, seja através do jornal, do site ou de qualquer outra forma. Pois cada um dos leitores é alguém que Deus colocou no meu caminho e para cada uma dessas pessoas eu sou alguém que Deus colocou no caminho.

 

Fonte: Jornal Petrópolis em Cena – www.petropolisemcena.com.br