A ESPERANÇA NAS CÉLULAS-TRONCO
Está para ser votada na Câmara dos Deputados a Lei de Biossegurança que vai regular no Brasil assuntos espinhosos como a utilização de células-tronco de embriões humanos na pesquisa de cura de doenças graves. O assunto coloca em pé de guerra cientistas e religiosos. Os primeiros defendem que é preciso dar um destino racional aos milhares de embriões humanos existentes em clínicas de fertilização, que são as sobras dos tratamentos de fertilização artificial.
Para os cientistas e para milhões de pessoas doentes, trata-se de oportunidade preciosa. Ocorre que as células-tronco de embriões têm o potencial de se transformar em células de qualquer tecido humano. Essa versatilidade as torna a grande promessa para o tratamento de doenças como problemas cardíacos, câncer, doenças auto-imunes e traumas da medula espinhal.
Fazendo oposição a médicos, cientistas e pacientes estão lideranças religiosas, principalmente da Igreja Católica. O posicionamento é idêntico ao que ocorre em face do aborto: para os padres, usar um embrião humano para pesquisas científicas é assassinato. A defesa desta tese baseia-se no fato de, para a Igreja Católica, a vida humana começar no momento da concepção. Para os cientistas, o embrião de até cinco dias não passa de um aglomerado de células.
Para discutir o assunto, a AOL convidou a cientista Lygia Pereira, do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, e o frei Antônio Moser, doutor em Teologia Moral e professor de Bioética do Instituto Teológico Franciscano, para expor os pontos contra e a favor das terapias com células-tronco. Não deixe de dar sua opinião no Fórum AOL.
"Três mil americanos morrem todo ano de doenças que poderão ser tratadas com células-tronco"
AOL - O que a sra. acha do texto da Lei de Biossegurança que tramita no Senado?
Lygia Pereira - É uma lástima que o país ceda às pressões de grupos religiosos e proíba de forma radical a pesquisa com embriões humanos. Concordo que este seja um material biológico precioso, mas a proibição total representa um atraso para o desenvolvimento da ciência no país. Poderíamos criar mecanismos de vigilância e legislações que permitissem esse tipo de pesquisa por grupos qualificados, credenciados de acordo com sua capacidade demonstrada na área – isso foi feito com muito sucesso em relação ao acesso a materiais radioativos, por exemplo. O Brasil perde uma grande oportunidade de ter uma vantagem competitiva na promissora área de pesquisa com clélulas-tronco [ou CTs, células pluripotentes que dariam origem a todos os tipos de células] embrionárias. A permissão controlada nos tornaria líderes nesse tipo de pesquisa na América Latina, atraindo pesquisadores de outros países que nos ajudariam na formação de novos pesquisadores nessa área. Depois de tantos anos de investimento em pesquisa, temos os cérebros, temos a infra-estrutura – agora nos falta a lei que discipline a pesquisa.
AOL - O Brasil está preparado para realizar pesquisa com células-tronco?
Lygia Pereira - O Brasil já realiza importantes pesquisas com CTs - adultas e embrionárias. Meu grupo trabalha com as cts embrionárias de camundongo desde 1999, diferenciando-as em vários tecidos. Agora queremos fazer a mesma coisa com as CTs embrionárias humanas.
AOL - Já se sabe qual o percentual de recuperação dos pacientes que se submetem a terapias à base de células-tronco? Terapias que utilizam as células-tronco representam algum risco para os pacientes?
Lygia Pereira - Os testes clínicos ainda estão no começo, precisamos de um acompanhamento a longo prazo. Porém, parece não haver nenhum efeito adverso por enquanto. Acho que o importante é ter cautela em todas as ações.
AOL - Quais são as perspectivas no que se refere à evolução das pesquisas com células-tronco?
Lygia Pereira - O nascimento da ovelha Dolly foi um marco na história da ciência, demonstrando pela primeira vez que uma célula já diferenciada era capaz de acessar toda a informação contida em seu genoma e dar origem a todos os tipos celulares encontrados em um indivíduo adulto. Esses mesmos mecanismos podem ser utilizados para a geração de tecidos específicos desse indivíduo, um processo chamado de clonagem terapêutica. Na clonagem terapêutica, o embrião clonado, gerado pela transferência nuclear [um conglomerado de aproximadamente 100 células], é dissociado no laboratório para a obtenção das chamadas células-tronco embrionárias. Essas células podem ser multiplicadas em cultura, mantendo essa capacidade de diferenciação quase ilimitada. Alterando suas condições de cultivo, pode-se induzir a diferenciação dessas células em tecidos específicos, como músculo, neurônios, hepatócitos e até óvulos e espermatozóides. Assim, as CTs embrionárias podem ser fonte de tecidos para transplantes. Nos últimos 15 anos, experimentos com CTs embrionárias de camundongo vêm demonstrando o potencial terapêutico dessas células diferenciadas in vitro. A utilização de um embrião clonado como fonte de CTs embrionárias permitiria a geração de tecidos geneticamente idênticos ao paciente, logo, imunologicamente compatíveis, eliminando-se o risco de rejeição do transplante.
AOL - Quais são as contribuições que a genética e a biotecnologia podem dar à sociedade e como você vê o futuro dessas áreas?
Lygia Pereira - A capacidade de CTs embrionárias de se diferenciar em qualquer tipo de tecido representa um enorme potencial de aplicação médica. De acordo com dados do Centers for Disease Control and Prevention, nos Estados Unidos, aproximadamente 3 mil norte-americanos morrem todo ano de doenças que no futuro poderão ser tratadas com tecidos derivados de CTs embrionárias. Um passo importante nesta direção foi o estabelecimento de linhagens de CTs embrionárias humanas. Experimentos realizados com CTs embrionárias murinas poderão ser repetidos e adaptados para as linhagens humanas. A geração de CTs embrionárias imuno-compatíveis através da transferência nuclear e seu uso terapêutico in vivo [a clonagem terapêutica] já foram demonstrados em modelos animais. Resta agora decidirmos se essa metodologia será utilizada em seres humanos. A obtenção de CTs embrionárias envolve obrigatoriamente a destruição do embrião [blastocisto - um embrião pré-implantação de 5 dias – basicamente um conglomerado de 100 a 200 células], o que em certas culturas é inaceitável
AOL - Como a comunidade científica tem se posicionado com relação a essa questão?
Lygia Pereira - Enquanto os EUA defendem os direitos do embrião a qualquer custo – apesar de todo dia destruírem legalmente centenas de embriões excedentes em suas clínicas de fertilização in vitro – países como Israel, China e Inglaterra permitem seu uso para fins terapêuticos. A posição norte-americana, apoiada pela Santa Sé e por governos como os da Itália e Espanha, é de que o processo de clonagem, e não o produto final, o clone humano, deve ser internacionalmente banido. Mesmo que isso impeça o desenvolvimento de uma área promissora da medicina regenerativa. Essa é uma discussão complexa que envolve aspectos legais, éticos, culturais e religiosos, e que terá que ser decidida individualmente por cada país. O conflito de posições em relação à clonagem terapêutica foi tal, que até o final de 2003 impediu a elaboração da Convenção Internacional contra a clonagem reprodutiva
AOL - É justo criar um clima de expectativa para pacientes e familiares de pacientes sobre a possibilidade de uso terapêutico de células que sequer foram testadas em experimentos básicos?
Lygia Pereira - Não, é fundamental que os cientistas deixem claro que estamos começando a trilhar um longo caminho de pesquisa, que um dia pode resultar em novos tratamentos para várias doenças. Mas o caminho é longo.
AOL - A proposta dos cientistas norte-americanos para o uso de células-tronco de embriões humanos prevê uma série de restrições para evitar, por exemplo, a venda dos embriões para eventuais pesquisas. Há realmente perigo se criar um comércio de embriões?
Lygia Pereira - Toda nova tecnologia está sujeita ao mau uso. Esse risco não justifica a interrupção do desenvolvimento daquela tecnologia. O que precisamos é de legislação e mecanismos de vigilância que nos protejam dos riscos do uso degenerado dos embriões/óvulos para pesquisa, sem impedir o avanço da mesma.
AOL - Por que não incentivar as pesquisas utilizando células-tronco obtidas de outras formas, que também têm demonstrado bom potencial?
Lygia Pereira - Um argumento “científico” utilizado pelos antagonistas ao uso das CTs embrionárias para terapia de reposição de tecidos é que não há necessidade das mesmas uma vez que temos as CTs adultas, encontradas principalmente na medula óssea e no sangue do cordão umbilical e placentário, entre outros tecidos. Sem dúvida, as CTs adultas são uma fonte promissora e não-polêmica de tecidos autólogos para transplante. No entanto, ainda não podemos garantir que essas possuam o mesmo potencial de diferenciação que as CTs embrionárias. Assim, o momento é o de abrir o leque das pesquisas, investir em todos os tipos de CTs para determinarmos o potencial terapêutico de cada uma delas. Além disso, o que aprendermos com as pesquisas com as CTs embrionárias nos permitirá manipular as CTs adultas de forma a explorar toda a sua capacidade de trans-diferenciação.
"Vendem ilusões os que já dão como certos resultados ainda não alcançados"
AOL - O que a Igreja Católica quer mudar no texto da Lei de Biossegurança que tramita no Senado?
Frei Moser - O projeto de Lei de Biossegurança que tramita no Senado é um bom projeto. Ao mesmo tempo que incentiva a pesquisa, coloca limites e exige um controle através de autoridades competentes. Isto tanto vale com relação aos produtos transgênicos, quanto com respeito a indevidamente denominada clonagem terapêutica.
AOL - A Igreja é contrária ao uso de células-tronco embrionárias para os tratamentos médicos. O senhor acha que é possível haver uma mudança de posição em relação a esse assunto?
Frei Moser - Respeitar a vida humana em todas as suas fases não é apenas a posição da Igreja: é a posição de todos aqueles que consideram um arbítrio interferir sobre uma vida em desenvolvimento. Efetivamente encontramos no embrião todos os elementos necessários para o pleno desenvolvimento do embrião, do feto e da pessoa após o nascimento. A rigor, desde o ponto de partida inicial, nada mais acontece do que uma série de desdobramentos. Além disto, aceitar a manipulação de embriões é como que abrir uma porta que não se conseguirá mais fechar. De fato, quem não respeita o embrião também não respeitará os desdobramentos seguintes: sempre se encontrará quem se julga no direito de dispor da vida dos outros, sob os mais diversos pretextos.
AOL - Mas a Igreja já mudou de opinião diversas vezes em relação aos avanços da ciência. A prática do estudo da anatomia, por exemplo, que permitiu um enorme avanço da medicina, foi considerada pecaminosa em fins da Idade Média. No século 17, o matemático italiano Galileu Galilei foi condenado pela ortodoxia católica por negar que o Sol girasse em torno da Terra. E a opinião sobre o transplante de órgãos também mudou.
Frei Moser - A Igreja nunca foi contra as ciências. Até pelo contrário, muitos cientistas vieram de suas fileiras. Basta pensar em Mendel, pai da genética, que foi monge. Não há conflito entre fé verdadeira e razão verdadeira; também não há conflito entre a verdadeira religião e a verdadeira ciência. Acontece que não se pode confundir ciência com simples opinião de alguns cientistas. Se é verdade que em nome da religião já foram cometidos graves erros, é também verdade que em nome das ciências já se cometeram barbáries. Alguns asseclas de Hitler também se julgavam sérios pesquisadores. Em se tratando do respeito à vida humana desde seu início, não são poucos os cientistas que sustentam a mesma posição que a Igreja.
AOL - Afinal, quando começa a vida humana para a Igreja Católica?
Frei Moser - A vida tem início no momento em que um óvulo é animado. Com isto se subentende que, mesmo que se chegasse ao absurdo de animar um óvulo quimicamente, ou então de outra forma, a " animação" já é considerada uma vida em evolução. Para a Igreja Católica há um fato único e decisivo neste particular: o Filho de Deus se fez homem a partir do " sim" de Maria, em Nazaré.
AOL - Se a morte encefálica é definida quando as conexões neuronais se "desfazem" por que não levar este pensamento para se compreender o início da vida humana?
Frei Moser - Certamente esta é uma objeção que, ao menos de início, parece muito séria e muito lógica. De fato, após a morte do cortex cerebral, consideramos que deixou de existir vida. Acontece que a comparação é claudicante, pois enquanto no caso da morte encefálica uma vida teve seu fim, no caso do embrião, mesmo que ainda não tenha atingido o nível da cerebralização material, todas os elementos necessários já se encontram ali: é só questão de tempo.
AOL - Como o sr. vê a posição das outras religiões que já se manifestaram em favor da pesquisa com células-tronco embrionárioas - como os adventistas, judeus, espíritas, umbandistas, entre outras?
Frei Moser - Várias destas religiões e igrejas não desenvolveram ainda uma reflexão mais sistemática sob o prisma antropológico e teológico: apresentam idéias um tanto esparsas sobre os vários problemas. Mesmo no caso do judaísmo, justamente por não aceitar Jesus Cristo como Filho de Deus, e portanto não aceitar o Evangelho, acaba abraçando uma concepção pouco lógica e pouco consistente para quem aceita o relato da criação: ninguém começa a exitir sem que Deus o queira. Aliás, para quem foi discriminado e perseguido, como foram os judeus, uma posição liberal pode ser perigosa.
AOL - Existe algum problema ético em se utilizar células-tronco provenientes do cordão umbilical ou da medula óssea?
Frei Moser - Pressupostas as condições éticas básicas, como por exemplo a da competência e o respeito que devem animar todas as experiências, não há objeções contra o uso de células tronco adultas, desde que os objetivos sejam realmente terapêuticos, e não, por exemplo, comerciais. Ou seja: este uso se torna antiético na medida em que a produção de tecidos e órgãos se transformar em comércio.
AOL - Quais são as perspectivas da Igreja Católica no que se refere à evolução das pesquisas com células-tronco?
Frei Moser - Claro que todos olham com esperança na direção do uso de células- tronco adultas para eventuais terapias. O que acontece é que estamos ainda diante de meras possibilidades e não de certezas. Em nome de hipóteses podemos cultivar esperanças, mas nunca vender ilusões. Vendem ilusões os que já dão como certos resultados ainda não alcançados; vendem ilusões os que não contextualizam a problemática do mal e do sofrimento em chave maior. Concretamente isto significa: não podemos depositivar nossas esperanças só em genes. Devemos trabalhar em todas as frentes, como são as de ordem social, econômica, política e espiritual.
AOL - A oposição às pesquisas com células-tronco levantou a suspeita de que a Igreja pode estar mais preocupada com a demolição de alguns dos seus dogmas do que com a sorte de milhões de pessoas que tiveram o futuro interrompido por doenças sem cura. O que sr. acha?
Frei Moser - Infelizmente é verdade que existem muitas pessoas que sofrem por razões genéticas. Entretanto, existem muito mais pessoas que sofrem por outras razões. Basta pensar nos milhões de mutilados de guerras e de todas as formas de violência. E não podemos esquecer que cerca da metade da população mundial vive em condições infra-humanas, milhões morrem literalmente de fome. Tudo isto deve ser trabalhado de maneira simultânea. Apostar só nos genes é simplificar problemas complexos: trata-se de uma falsa solução.
AOL - Laboratórios e clínicas particulares do mundo todo mantém milhares de embriões humanos sem destino definido. O que fazer com eles? Não seria melhor se eles fossem usados para salvar vidas, em vez de serem descartados ou jogados fora?
Frei Moser - Esta é uma situação típica que nos coloca numa espécie de impasse total. Um termo de comparação para ajudar a entender o drama pode ser encontrado na produção de armas: uma vez feitas elas devem ser usadas. Ora, o raciocínio correto seria: não se produzam mais armas, pois elas sempre causarão problemas e nunca trarão soluções.
Fonte: Aol Notícias - http://noticias.aol.com.br/pinga_fogo/2004/0002.adp